sábado, 20 de fevereiro de 2010

DOS MAIS VELHOS [Monica Bonfim]

Eu sou do tempo em que a gente crescia ouvindo que devíamos respeitar os mais velhos. Eu chamava até as primas de minha mãe de ”tia” e “senhora”. Os “mais velhos” sempre tinham razão, por motivos aparentemente insondáveis. Os mais velhos tudo sabiam e sua quilometragem na vida dava, automaticamente, um sentido de certeza absoluta aos seus comandos e vaticínios.

Mas eu também fui ensinada a pensar e questionar, então, num determinado momento, acho que minha cabeça de criança atribuiu uma sabedoria implícita — embora inexplicável — às atitudes dos mais velhos, até porque me diziam que quando eu crescesse (no início) ou ficasse mais velha (depois que minha estatura começou a aumentar muito rápido) eu iria entender.

Assim, acabei por atribuir, muitas e muitas vezes, quase uma visão profética às atitudes dos mais velhos que, naquele momento da minha vida, não faziam o menor sentido lógico ou, de fato, demonstravam apenas mesquinhez, orgulho, vaidade e ciúme. Não me parecia possível que aquele mais velho, com tantos anos vividos, não tivesse aprendido algo, não tivesse a percepção da realidade, não tivesse humildade para admitir que não sabia, que estava inseguro e com medo. Então, aquela atitude, naquele momento, seria explicada para mim, num futuro, quando as conseqüências daquele ato, aparentemente vil, apareceriam, como flores perfumadas.

Acontece que o tempo passa, por óbvio, para todo mundo e, inclusive, para mim. Então fiquei eu esperando que a afamada sabedoria implícita dos “mais velhos”, tão decantada em minha infância, também caísse como um manto sobre os meus ombros. Por certo não fiquei sentada esperando isso e, como a vida ia passando, fui tratando de aprender o que podia, e repetindo lições quando falhava, até aprender alguma coisa.

Mas aquele instinto da certeza absoluta que era atribuído aos “mais velhos” nunca me apareceu: eu continuo me sentindo insegura, triste e carente, às vezes. Continuo tendo que ultrapassar meus limites, meus medos, meus preconceitos. Continuo tendo que vigiar minha vaidade, meu orgulho, meu egoísmo. Tenho que botar meu gênio sob rédeas curtas, meus amigos, porque o passar do tempo me deixou mais paciente para algumas coisas, mas muito mais impaciente para outras. Minha ansiedade ainda é descarregada no meu vício — eu adoro — de fumar.

Conseqüentemente, agora que eu estou quaaaaaaaaase também uma “mais velha” (o meio século bate à porta), digo aqui para vocês baixinho que perdi o respeito pelos mais velhos. Não sei se porque os acho quaaaaaaaaaase meus iguais — e se têm 20 ou trinta anos mais do que eu e ainda não se consertaram... sinto muito — ou se porque cansei de esperar que as flores perfumadas aparecessem.

Enfim: o manto de sabedoria ainda não aquece meus ombros, mas talvez os óculos de leitura tenham me feito enxergar melhor as coisas...

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8 comentários:

pensandoemfamilia disse...

Sim, muitas vezes também ouvi que o tempo traz sabedoria. Mas penso, no momento, que se não aliarmos ao tempo a paixão pelo que fazemos, a aprendizagem se perde no tempo.

Anônimo disse...

Poia é, estou também começando a questionar a sabedoria dos mais velhos - ops, experientes. Mas é complicado se acostumar à ideia de que todos têm fraquezas, nenhuma das pessoas que eu admirava tanto é realmente como eu pensava.
Questionando cheguei à conclusão de que a idade não conta nada, há pessoas que continuam com a mentalidade inconsequente e egoísta de um adolescente mesmo quando se dizem "adultos". Pode ser só o desabafo de uma garota de quinze anos que, afinal, o que pode saber da vida?, mas acho que ter mais ou menos anos só conta se eles forem bem aproveitados.
Obrigada pela crônica, lê-la fez com que me sentisse melhor.

Carla Cintia Conteiro disse...

Grande crônica!
É isso mesmo. Idade não é atestado de sabedoria. Só de que o tempo passa mesmo e tem gente que não aproveita nada dele.

Kinha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Kinha disse...

A princípio, obrigada a todos por seus comentários...Mas, se me permitem..comentarei também:

- "pensando em família": O tempo não necessariamente traz sabedoria, que foi o que eu comentei na crônica.. o tempo faz exatamente com que a paixão do momento se esvaia, fazendo com que você consiga se "distanciar" do fato e aí realmente fica mais fácil agir..porque você não estaria "re"-agindo.

- "Anônimo"...de fato...há realmente pessoas assim...que deixam o tempo passar e não aprendem nada com as experiências vividas. Alguém uma vez me disse que sábio é quem aprende com os erros, inclusive, dos outros. Mas te dou uma dica, se me permite...a gente tem que amar as pessoas do jeito que elas são.. o máximo que podemos fazer é tentar elucidá-las quanto aos seus erros. E eu é que te agradeço..

- Carlinha meu amor querido...sua presença em meus escritos aquece meu coração pela demonstração de afeto. Beijo

22 de fevereiro de 2010 12:12

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Mônica, desconfio que o manto da sabedoria é invisível para quem o usa. ;)

Kinha disse...

Eduardo, querido....beijo enoooooooooooooorme....

Anônimo disse...

Parabéns!!! Consegues expôr de maneira bem sútil um assunto, deveras, delicado. Eu tenho a mesma
visão que você em relação a esse tema.