segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O SILÊNCIO >> Albir josé da Silva

Próprio e alheio, quando devido, deve ser um direito sagrado. Em situações de estresse não se deveria exigir ou dar explicações. Ou melhor, as explicações deveriam ser proibidas. Um silêncio consternado pode ser boa alternativa a explicar o inexplicável, defender o indefensável ou justificar o que não se deveria ter feito. Também não tenho conseguido ficar calado sempre que devo. Mas preciso exercitar isso. Não gosto das minhas desculpas. Mesmo quando verdadeiras, fico com a sensação de que o ouvinte está pensando: esse cara acha que eu sou idiota de acreditar numa história dessas?

A Constituição Brasileira de 1988 consagrou o direito ao silêncio. Antes dela, o silêncio podia ser interpretado em prejuízo do silente. Mais um motivo para pensar duas vezes antes de falar. A sabedoria popular sempre ensinou: em boca fechada não entra mosca. Quem fala quando deveria se calar faz péssima propaganda de si mesmo. Tenho ouvido algumas desculpas e explicações que deixam envergonhados os ouvintes.

No Congresso Nacional já vimos deputado envolvido em corrupção até a raiz dos cabelos que, quando espremido pelos seus pares para explicar milhões desviados para sua conta, afirmou: “Deus me ajudou e eu ganhei muito dinheiro”. Claro que isso não ajudou sua defesa. Por que ele não ficou calado? Por que não poupou nossos ouvidos?

A Bíblia relata que Caim foi interpelado pelo todo-poderoso quando voltava do assassinato de seu irmão Abel. Não podia ter silenciado? Em vez disso respondeu irônico: “Porventura sou eu guardador de meu irmão?”. Fico imaginando quanto isso não aumentou a divina ira.

Mas são assim os homens em todos os tempos. Mesmo aqueles que precisam ser hábeis com as palavras. Aqueles que têm por profissão falar em nome das pessoas, dos países. Os que não podem usar a palavra em vão. Nem estes conseguem manter o silêncio devido.

No auge da tragédia do Haiti, quando milhares de corpos se amontoavam insepultos em Porto Príncipe, todos entenderiam se o cônsul haitiano sofresse uma crise nervosa, chorasse ou arrancasse os cabelos. Mesmo tendo ele o dever de falar por seu país, mesmo sendo uma entrevista, todos entenderiam se tivesse ficado em silêncio. Mas ele fez exatamente o que não poderia ter feito. Disse que a desgraça de seu povo era uma coisa boa porque assim o país ficava mais conhecido. Não satisfeito, acrescentou que a tragédia se devia à macumba que muitos haitianos professavam.

Não só para os haitianos, o seu silêncio teria sido um bem para a humanidade. Agora o planeta terra terá de conviver com mais essa poluição.

Pobre Haiti. Quem tem um diplomata desses não precisa de inimigos. Nem de terremotos.

Partilhar

4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Adoro quando aparece uma crônica-reportagem com ares filosóficos aqui no Crônica do Dia. :) Grato, Albir.

Debora Bottcher disse...

Valha-me, Albir! Santo texto, assim como é santo o silêncio. Estás totalmente com a razão: a humanidade fala demais... :)
Beijo.

albir disse...

Obrigado, Edu!

Beijo, Debora!

Carla Dias disse...

Ah, Albir... Há sempre o que é melhor calar, ao invés de se dispor a uma diplomacia autopiedosa e à justificativa desnecessária. Afinal, se está claro, melhor não querer esclarecer, porque acaba se transformando em outra história.