sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

EPIFANIA NOTURNA ANTES DO INCÊNDIO >> Leonardo Marona

para você, Lispector, que nasceu com a cura
Ao virar a página 84 do livro, sentiu calor e sono, era bolor e como que um entorpecimento de anestesia. Um sentir exagerado, os lábios inchados. Como um medo mortificante de finalmente entender sem precisar ponderar. Reparou que sangrava. Que diferenças têm o sangue e a vida? Era sua vida que escorria. Era o teto do quarto, claro de idéias, idéias selvagens, indomáveis, azuis e alaranjadas, e ela precisava escolher uma delas para flertar com ela até adormecer. Apanhou o caderno onde anotava suas paixões secretas, suas táticas miseráveis de aborrecimento. Anotou no papel:

O peso dos dias tem sido, não, não há didatismo aqui, não aqui, o didatismo é apenas uma forma de reconhecer a verdade quando se precisa – para forjar um cume, ou um crime – de um vasto continente de cismas tectônicas. Falemos então o que não é verdade, o que não é nada senão uma potência fugidia e desequilibrada. Escrevamos um texto leve hoje, eu junto àqueles por quem fui designada “aos prazeres e às dores”, aqueles que me comandam quando a alma esvazia a carne, e nada mais existe para que tudo possa ser vislumbrado e silenciado pela falta de sentido e pela paz.

Olhar muito tempo para uma coisa significa fazer desaparecer a coisa, tornar-se a própria coisa. Eis a raiz da fragmentação dos corpos, da fusão dos mesmos e, em suma, do tele-transporte das almas, a que damos a denominação precária de amor; para outros, visão. Mas poucos entendem o amor que existe por baixo de todas as cascas do amor. Eu mesma entendo somente as cascas do amor. Mas conheço quem descascou o amor até se tornar o amor e, portanto, sem se reconhecer como tal, ser reconhecido por aqueles em quem se refletia. São os agentes de Clarice Lispector que esvaziam minhas gavetas de madrugada.

Mas este é um texto leve, pretensioso, fadado portanto a alguma expectativa de retorno da parte que me escreve nas vértebras, e é por pensar na minha pessoalidade que eu me confundo com os espelhos nas ruas, tropeço e largo a linha fictícia da minha realidade singular de dor e prazer, e transbordo o amor que carreguei como um camelo por desertos sorridentes de ódio. Estava tudo bem claro: “sou mais aquilo que em mim não é”, o amor esse indizível, sem cascas, irreconhecível, impessoal, o amor que é a maldição de quem ousou fazer dele moeda de troca, pobres corsários! O amor que não é feito de reconhecimento ou troca. O amor que é o amor e meio. O amor que é leve como o fim.


Vela-cortina-chamas, por traz da grama prateada, os olhos injetados de um terreno seco, em fundo vangoghiano a mão enrugada de quem um dia soube, agarrada à cauda dos sonhos com um lápis de ponta quebrada.


Partilhar

2 comentários:

C. S. Muhammad disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eduardo Loureiro Jr. disse...

Léo, vou aproveitar sua crônica para confessar um pecado literário: o vírus de Clarice ainda não me pegou.