quarta-feira, 9 de agosto de 2017

AOS AMIGOS >> Carla Dias >>


Pode parecer que não, porque damos sempre um jeito de nos conectarmos, porque gostamos da conversa compartilhada entre uma bebida - ao gosto do freguês - e outra, mas houve uma época em que nossas vidas não eram afetadas pela existência do outro.

Lembram de quando?

E somos meio vintage na conexão, apesar de a tecnologia nos manter mais próximos. Adoramos sala de estar; de nos encontrarmos nelas. Das longas conversas que acontecem ali.

Nem sempre a geografia ajuda ou o horário comercial possibilita. Às vezes, a tal da correria nos convoca para longos passeios. Daí que nos perdemos de vista por um período mais longo do que gostaríamos ou permitiríamos, caso tivéssemos o poder de ganhar na loteria e criar aquele lugar sobre o qual tanto falamos, onde seríamos quem desejássemos ser.

A vida segue acontecendo e nós insistimos em alguns sonhos que já acumulam décadas de planejamento e um buquê e meio de desapontamentos. Também apostamos na frescura do novo, porque somos atrevidos a esse ponto. Se há algo que a intimidade nos trouxe foi a capacidade de discordarmos sem que isso nos leve a nos perder de vez um do outro. À essa altura, já conquistamos a aptidão de permanecermos unidos, apesar de.

Enquanto o mundo enlouquece, gerando histórias que fazem nossas cabeças girarem, nossos espíritos envergarem; que nos conduzem em uma jornada em que se tornou impossível não lamentarmos, não sentirmos muito por sermos incapazes de ajudar a evitar isso, a consertar aquilo, a amparar alguns, teremos sempre um ao outro para não deixarmos a peteca cair. Nem sempre será delícia, tampouco agradável. Haverá dias em que os olhares passarão de raspão, diferente das tradicionais trocas. Porém, isso é porque somos humanos. Na hora do caos, da tristeza lancinante. Na hora da conquista pela qual se batalhou, da alegria divina. Na hora em que esquecemos dos entraves e nos abraçamos ao afeto, estaremos aqui um para o outro.

Haverá sempre café, vodca, chá. Haverá sempre salas de estar e espetáculos musicais. Haverá sempre uma história nova para contar. Uma velha história para enfeitar o salão das nossas memórias.

Gosto de pensar que a vida nos manterá conectados, mesmo sabendo que essa conexão depende de um trabalho dedicado e de presença. E apesar de ser a menos presente nos eventos de calendários, escolada em canos em casamento, batizado, festa de aniversário, aqui eu sempre estarei. Mas acho que essa é uma dúvida que não existe, não é mesmo? Porque, caso ela exista, bom, escrevo essa crônica para afirmar que não há dúvida. Apesar do meu jeito estranho de ser, e por ele mesmo, tirei o dia para dizer: estarei sempre aqui.

Aos amigos, meu agradecimento sincero por me permitirem fazer parte de suas biografias. E fiquem tranquilos, porque não, eu não escreverei um livro revelando todas aquelas informações embaraçosas que vocês já me confidenciaram.

Imagem: Artist Party © Peder Severin Kroyer

carladias.com




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5 comentários:

Zoraya Cesar disse...

"A vida segue acontecendo e nós insistimos em alguns sonhos que já acumulam décadas de planejamento e um buquê e meio de desapontamentos. " Mais uma frase maravilhosa entre tantas outras maravilhas. Um livro de citações, Carla, por favor!

Carla Dias disse...

Zoraya, Zoraya... Vou contratar você como minha personal editora. :) Beijos.

michelle araujo disse...

"Se há algo que a intimidade nos trouxe foi a capacidade de discordarmos sem que isso nos leve a nos perder de vez um do outro. À essa altura, já conquistamos a aptidão de permanecermos unidos, apesar de." Gostei da idéia de compilar citações de Carla Dias. Um beijo

albir silva disse...

Também concordo. Já vou aqui listando as minhas citações de Carla Dias.

Carla Dias disse...

Michelle e Albir, fico lisonjeada por encontrarem esses momentos que valem a pena nos meus escritos. Beijos!