quinta-feira, 24 de agosto de 2017

O AMOR QUE EU NÃO SOUBE OUVIR>>Analu Faria

De todos os quase-amores que tive, S. talvez tenha sido o mais ardiloso. Não ele, a pessoa, o homem S., mas o afeto que a vida me oferecia através dele. Naqueles dias, carinho e atenção pareciam uma peça estranha num quebra-cabeças que eu não sabia montar: S estava mais distante do atavismo que me viciara do que eu de sua doçura.

Eu pouco falava e ele pouco ouvia. A audição reduzida - a parte dele -  e uma voz afetada por uma infecção horrível  - a parte minha -   pareciam a receita irônica para um relacionamento fadado ao nada. Para minha vergonha, a serenidade de S. - talvez fruto dos seis anos de fonoterapia, dos seis anos aprendendo a falar por meio da vibração dos ossos -  era absoluta e, para ele, pouco importava que nunca visse a cor da minha fala.

S. lia meus lábios perfeitamente e eu não nunca soube decifrar os seus. Também não pude entender o que me pareceu gentileza em abundância, algo fora do lugar para uma mulher tão acostumada com o pouco que a convinha.

Ele se fazia entender muito bem, mas eu, talvez atraída por aquele perfil bem desenhado pela barba por fazer, acabei alongando aquele quase-amor por mais tempo do que eu podia traduzir. Mesmo não sendo numerosos os dias que passamos juntos, talvez eles fossem suficientes para compor uma sinfonia silenciosa de afetos, se eu ao menos soubesse captar as filigranas do inaudível. Mas àquela altura da minha história, eu tinha os ouvidos embotados pelos meus próprios gritos. E acabei fazendo de S. o amor que eu não soube ouvir.




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Um comentário:

Carla Dias disse...

Acho que você ouviu, Analu.
Que delicadeza tem esse texto. S. deve ter sido mesmo alguém digno dele. Beijo!