sábado, 12 de agosto de 2017

PEITINHO DE PITOMBA >> Sergio Geia

 

Fui reunindo pérolas pelo caminho.
Pitomba. Fruta. Pequena. Um tantinho maior que uma bolinha de gude. De cor laranja quando madura, incomum aqui. Eu pelo menos nunca vi. Mais fácil de encontrar em cidades do Norte, Nordeste. Dizem que em Pernambuco tem de monte. Lembra muito a lichia, sem a mesma suculência. Você quebra uma fina casca que a reveste (pode ser com os dentes), põe na boca o caroço amarronzado, coberto por uma gosma transparente, a polpa, e chupa. Adocicada e levemente ácida, também serve de alimento para diversas espécies de aves. Sua árvore é muito utilizada na recuperação de áreas degradadas.
Ambular. Verbo intransitivo que significa andar sem destino, à volta, vaguear, passear, girar, deambular, perambular. Confesso que não o conhecia, e o achei lindo.
Povaréu. Plebe, poviléu, povo, multidão, turba, grande número de pessoas, povão.
Bugigangas. Bugiaria, quinquilharia, insignificâncias.
E preciosidades metafóricas como “o pregão abre o dia”, “o povaréu sonâmbulo ambulando que nem muamba nas ondas do mar”, “cidade maravilhosa, és minha, o poente na espinha das tuas montanhas, quase arromba a retina de quem vê”, “de noite, meninas, peitinho de pitomba, vendendo por Copacabana as suas bugigangas”, que até saio cantando.
Caminho esse a que fui levado outro dia — essa fantástica declaração de amor ao Rio — por um texto do Álvaro Costa e Silva, publicado na Folha, que fala da rua da Carioca, cenário para o clipe “Carioca”, do Chico:
Você se lembra do clipe: Chico Buarque está sentado numa mesa de bar antigo —o fictício Polytheama— e a cidade se descortina diante de seus olhos cor de ardósia. Trajando vistosa camisa de gola rulê, Chico suspira, fuma um cigarro, bebe uma taça de vinho, come uma pera, ri às escâncaras, enquanto escreve a letra da canção ‘Carioca’. Canta: ‘Gostosa, quentinha, tapioca/ O pregão abre o dia’. O cenário exterior, filmado através de um espelho falso, é a região entre a rua da Carioca e a praça Tiradentes, trecho da rua Ramalho Ortigão, imediações da igreja de São Francisco de Paula. Ao contrário do que narra a música, o povaréu não é nada sonâmbulo: está em movimento, esperto, agitado. Uma moça sai do carro falando no celular e exibindo belas pernas, um homem carrega um burro-sem-rabo, outro prega a Bíblia para os transeuntes, um tiozinho confere a elegância no reflexo da vitrine. Em preto e branco, o filme tem direção de José Henrique Fonseca, Arthur Fontes e Fábio Soares. Foi rodado em 1998, para o lançamento do disco ‘As Cidades.’”
Mais do que pérolas largadas pelo caminho, o que encontro em “Carioca”, e que me dá prazer, é um combinado de ingredientes, que pelas mãos de um chef talentoso, capaz de produzir dia a dia uma iguaria mais gostosa que a outra, se transforma num prato fabuloso de fina poesia, com recheios e molhos que me enlevam, exaltando as maravilhas de uma cidade maravilhosa.
Não é de hoje que as letras de Chico estão cheias de palavras que parecem escolhidas a dedo (pelo menos é essa a sensação que dá ao toparmos com “Carioca”). Como já disse um de seus músicos, as palavras de suas canções têm o som das notas, e são únicas. Chico consegue equilibrar com perfeição palavras elegantes, incomuns em letras de música popular brasileira como “errantes”, “amiúde”, “sem porvir” e “iniquidade”, presentes em Geni e o Zepelim, com a coloquialidade da velha crônica, como “cair um toró” ou “pintou uma chance legal” ou “dancei com uma dona infeliz, que tem um tufão nos quadris”, presentes em Bye, bye, Brasil, criando uma atmosfera musical sofisticada e única.
Não tenho dúvida de que sua produção é um repertório inigualável de espécies vocabulares muitas vezes ocultas nos becos e meandros do nosso dicionário de língua portuguesa.
Ouvir Chico é sempre uma experiência superior.
Em todos os sentidos.


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