quarta-feira, 30 de agosto de 2017

PERTENCIMENTO >> Carla Dias >>


Aqui não é lugar para ele. Ele não pertence ao aqui. Mesmo que apresentem uma lista de sedutores motivos, na tentativa de provar que aqui combina com ele, e vice e versa, ah, se pudessem sentir o quão sofrível é para ele estar aqui, desistiriam desse desejo de convencimento.

Aqui pode ser bom e saudável para muitos. Para ele, é prisão. E traz esse silêncio que ele não consegue calar, ainda que já tenha se aventurado a tentar quebrá-lo aos berros. Você já tentou abandonar um aqui onde foi colocado? Tentou redesenhar o cenário? Reescrever a trama?

Aos poucos - tão lentamente que o tempo passa lerdo, mas é como se ele passasse desesperadamente -, ele vem construindo a coragem necessária para despir-se do aqui. Tem sua própria lista, na qual anotou tudo o que fará nesse dia de catarse providencial. Depois que se livrar dessa prisão – ela que tem design de vida promissora –, ele não voltará mais ao aqui. Porque aqui tem feito a tantos felizes, mas a ele, nem a chance de tentar essa tal de felicidade tem sido oferecida.

Contudo, não é tão fácil se desvencilhar dessa história. O aqui não pertence a uma geografia. Não há como resolver a partida somente com um novo logradouro, a emissão de um visto, mudança de continente. Não tem a ver com idioma, cenário financeiro, o quanto de mar há entre a pessoa e o aqui.

A complexidade se esbalda no aqui ao qual ele foi conectado.

Ele se ressente de si a cada dia. Para ele, abandonar esse lugar é realizar um feito, no qual moram tantos desejos, cultivados ao longo de anos orbitando o aqui, sentindo-se desprovido de identidade, enquanto os que o têm acompanhado o aplaudem.

Por quê? Qual o mérito de ser sem ter sido? Revolucionar desinteresses?

Há quem escolheria se beneficiar de uma biografia feito a dele. Quem se voluntaria a viver algumas de suas histórias. Quem aproveitaria melhor o aqui onde ele nem cabe, mas foi competentemente anexado.

Não que ele tenha se tornado uma pessoa vazia, incapaz de se envolver com o oferecido, de cativar afetos, de vivê-los. O aqui não tem a ver com a honestidade de seus sentimentos, mas com a inexpressiva atuação de seus libertários desejos.

Quando sair do aqui, ele deixará muito para trás. Deixará muitos. Para ele, sempre tão bem-comportado no seu aqui, não é decisão fácil, de se tomar na rebeldia das emoções. Seria tão mais simples se assim fosse. Ele vem planejando isso, desde há muitas escolhas. Foi desafixando o olhar do óbvio que se percebeu encaixado, não pertencente.

O aqui de cada um, o tal lugar onde nos permitimos ser. Há quem leve uma vida nessa busca, sem nunca alcançar destino. Há quem a esqueça em minutos, depois de percebê-la, tamanho incômodo chega com tal percepção. Há quem, feito ele, gaste todo seu tempo arquitetando uma saída que não fira aos que aprendeu a amar. Ainda que, intimamente, ele saiba que alguém sempre sairá ferido de uma empreitada desse naipe.

Mudar desarranja o hábito, e, nesse momento, desarranjos o encantam.

Cansou-se de protelar. Desejou pertencer, mas não a esse aqui no qual foi encaixado por conveniência. No qual aprendeu a existir segurando o grito.

Gritou.

Imagem: A friend of order © René Magritte

carladias.com

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4 comentários:

Anônimo disse...

Magnífico! Perfeito desenvolvimento de um belo texto. De mestre!

Abraços,
Enio.

albir silva disse...

Conveniência de outrem sempre sufoca o grito e afasta o pertencimento.

Carla Dias disse...

Enio, obrigada!

Pois não é, Albir. Às vezes, ser necessita de grito daqueles. Outras, salve o silêncio escancarado.

Zoraya Cesar disse...

MARAVILHA de conto, D. Carla Dias, sua abusada de boa! sufocante na medida certa. Deu vontade de gritar no final. MARAVILHA!