quarta-feira, 2 de agosto de 2017

SE ELA SOUBESSE DIZER ADEUS, EU... >> Carla Dias >>


Pergunta o que para mim é amor. Eu, que não me dou com essas coisas, torço o nariz, aceno negando interesse pelo tema. Essa coisa de amor anda tão esgarçada que é impossível se compreender onde cabe o entendimento. Tem gente que ama e nem sabe que está amando, e a negação do feito gera sensação de vazio impossível de se preencher. Tem gente que destrata e chama o sentimento de amor, de cuidado.

Sorri dos sorrisos que me intrigam. Como pode sorrir desse jeito? Ofende-me com essa leveza, que vem de onde? A vida dessa pessoa é um caos sem fim, uma série de pequenas tragédias apinhadas numa biografia acolhedora de insignificâncias. Nada que ela vive se sobressai, salienta-se positivamente. Eu olho para ela e só enxergo tristeza.

Mesmo nesse sorriso que me intriga, que demonstra uma leveza que, tenho certeza, ela não pode sentir. Pessoa assim não sente leveza, não. Impossível.

Aqui, sentados à beira do que será, observamos os transeuntes apressados. Eles estão sempre apressados, atrasados para algum compromisso, com horário marcado para arrancar dente, retirar encomenda, lidar com filhos. Suas urgências vão do se entender com bilhetes de ônibus, para que eles não os impeçam o passo seguinte, já na catraca, ao esconder bem as carteiras. Vai que lhe roubem o nada que carregam. Vai que alguém ouse furtar deles o direito de volta.

Ela me conta sobre o amor de sua vida, um homem um pouco mais velho e bonito. Ela faz questão de frisar o bonito, porque gostava muito dos olhos dele: aguados, profundamente magoados, alagado por ternuras. Descreve detalhadamente, para minha agonia, os melindres que seu corpo sofria ao estar nos mesmos metros quadrados que ele. Confessa que, da última vez que o viu, seus olhos eram outros: despindo-se da vida, assim, diante dela.

Foi assim que esse retiro se deu início. Ela desamigou do mundo, não quis mais saber de endereço fixo. Esteve em muitas cidades, a pisar descalça em asfalto quente; em terra árida, desnutrida. Banhou-se em tantos rios, que acha graça quando lhe conto sobre o chuveiro a gás que faz minha felicidade lá em casa.

Diz que amou planos, também. Alega ser das amantes luxuriosas, quando se trata deles. Acorda com um, passa o dia com outro, termina a noite nos braços de outro ainda. Não tem pudores para gastar com planos ou certezas. Vive da maleabilidade que o tempo oferece.

Só que ela me conta coisas e eu não consigo entender: como? Enredar-se por essa coisa de amor, com tantos abandonos, sortilégios cometidos e desferidos em seu nome.  Para um prazer, um punhado de desapontamentos.

Para quê?

E ainda há o algo que ela perguntou se poderia compartilhar comigo, porque, de tanto andar por aí, apegou-se a mais ninguém. O amor sobre o qual ela discursa é morto, enterrado, e ainda assim, ela o alimenta. Para mim, ele é um escravizador, tem pacto com abismos, dança sobre o túmulo do contentamento. Não vejo beleza nele, apenas um vampirismo constante, que vai sugando a vida dela, sem que ela se dê conta disso.

Ela se desvencilha da minha lugubridade, não como quem se acovarda diante da resposta que tem a oferecer de contrapartida a uma pergunta. Não de quem se esquiva do indigesto da existência. Ela se desvencilha como dançarina provedora de coreografias improvisadas, elas que são os alicerces de um espetáculo de malabarismo emocional.

Abre a garrafinha térmica, despeja o chá na tampa e me entrega. Então, bebe no gargalo. Ela tem esse rosto do qual meu olhar não consegue se desviar. Como se nele morasse um mapa de mistérios que nunca enxerguei em alguém. Bebo meu chá, quente, docíssimo, deliciosamente não identificável ao meu paladar. É novo, é diferente, é revigorante.

Ou seria ela tudo isso?

Que eu a beberia, sem reservas. Não com essa coisa de amor a nos rondar. Porque ela mesma confessa que a saudade que desfia por seu amor da vida – a quem a morte já fez a corte –  a transformou em uma questionadora de certezas, e essa inquietação lhe seca a garganta, apunhala a esperança.  E onde caberia a esperança nesses desmandos todos? Porque ela, a pessoa que naufraga na ideia de que o amor, bobagem, que ele não move montanhas, porém consegue escalá-las habilmente, bem, ela está aqui, a contar a quem nem do nome tem conhecimento, esse estranho que sou e que já se sente confortável na sua excêntrica companhia, sobre essa saudade impossível de estancar, que ela vem arrastando pela vida, a falhar constantemente na tentativa de desová-la em algum lugar fora de sua alma. Um insucesso que se repete a cada pensamento sobre ele, o amor que não passa, nem mesmo diante de resoluta ausência.

Então, o que penso sobre o amor se torna tão menos dócil, tão mais rancoroso. Esmero-me em desamar o amor, que empoça na alma dela essa melancolia que embeleza a feiura da tristeza que a assola. Ainda que o sorriso dela ilumine seu rosto com essa luz engraçada, que é de lugar nenhum, que nunca vi em holofote, lâmpada, sol.

Ela precisava verbalizar seu amor implacável. Eu estava ali, sentado ao lado, observando o mesmo movimento. Ela sorriu e eu não consegui evitar: sorri de volta. Um sorriso truncado, que meu dia foi daqueles em que dá vontade de fazer as malas e sumir. Achei que pararia ali, nessa conexão breve de banco de praça, de observadores atordoados de fim de tardes e suas pessoas a lidarem com suas pressas. Achei que duraria aquele sorriso. Então, vieram outros, todos peculiares, inéditos para mim. Todos embevecidos por aquele amor que não passa.

Ela sorri e vai embora, como quem vomita suas dores no confessionário e retoma a vida no desalinho que aprecia. Eu fico onde estou, remoendo o amor dela por um fantasma, enquanto eu, juro, eu a beberia, sem reservas. Ainda que quente, docíssima, deliciosamente não identificável ao meu paladar. O novo, o diferente, o revigorante.

Eu a beberia, se não fosse o amor, eu a amaria.

Imagem: The Lovers © Cecil Buller

carladias.com

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6 comentários:

Analu Faria disse...

Lindo!

Carla Dias disse...

Analu, agora eu me emocionei. :)

Denise Odara disse...

Carla...não sei lidar com seus textos...rs. obrigada!

Zoraya Cesar disse...

"Aqui, sentados à beira do que será"... Carla, vc tem mais uma missão: uma seleta de todas essas suas frases memoráveis. Vai dar muitos volumes. Sempre comovente e emocionante ler seu talento.

albir silva disse...

Seus textos me surpreendem por um instante, até que me dou conta: é Carla Dias!

Carla Dias disse...

Ah, Denise... Eu que não sei lidar com tamanha gentileza. :) Beijo.

Zoraya, mal acabei a missão um, minha cara. :) Acho que são seus olhos a confiscarem essas frases e torna-las memoráveis. Beijo.

Albir, felicidade e tanto surpreendê-lo como se fosse outra. :) Beijo.