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O APRENDIZ - 2a parte >> Zoraya Cesar


Totalmente desperto, Angcf trazia à sua consciência as estratégias que aprendera com o Mestre Treinador. A Esfera, em sua cintura, vibrava.

A Esfera do Longínquo Dia. Assim chamada porque fora criada nos primórdios da Existência de Todas as Coisas. Guardava um mundo de pequenos flocos sencientes capazes de absorver qualquer energia, transformando-a em Luz Abrasadora ou Trevas Abissais. Tudo dependia dos encantamentos certos. E poucos, de um lado ou de outro do Equilíbrio, sabiam quais eram. O Guardião das Magias Azuis, a quem Angcf deveria entregá-la, era um deles.

Exposta a emanações violentas por longos períodos, a Esfera implodiria; daí a impossibilidade de levá-la através das regiões de confronto, e, sim, por caminhos outros – perigosos e até letais.

E por que enviar um Aprendiz nessa Missão? Porque os Antigos estavam imersos em batalhas sangrentas, das quais não podiam se afastar. Porque a aura de um Jovem Aprendiz era pouco densa; portanto, menos perceptível – maior a chance de ele passar despercebido. E porque Angcf se oferecera como voluntário.

O Pântano dos Anjos Distorcidos... cujos vapores mefíticos derrubaram seres mais fortes que o jovem Angcf. Onde seu amigo Ultkt sucumbira.

Os Anjos Distorcidos surgiram no Grande Caos, tementes à Luz. Tendo experimentado o sabor do poder e sentido prazer na destruição, deturparam a razão da Existência, passando para o Outro Lado do Equilíbrio.

Tinham o aspecto de uma grande cabeça ovalada, cheia de olhos purulentos por todos os lados. Tresandavam a carnes putrefatas e espíritos penados. Matavam inocentes e Combatentes da Luz em qualquer dos planos - terrestre, quântico, astral - com prazer e malícia quase insuperáveis; sua crueldade era lendária. Costumavam rasgar e absorver a aura dos prisioneiros, num processo doloroso e infindável. Mesmo depois de passar para O Outro Lado da Existência, a vítima jamais encontraria paz, sabendo que as habilidades de sua aura seriam usadas por seus algozes.

Graças, no entanto, ao Equilíbrio que Tudo Permeia, nesse mundo e nos outros, os Anjos Distorcidos tinham suas limitações: distraíam-se com certa facilidade; e se acovardavam frente aos Guardiões do Primeiro Instante.

A Grande Mãe não abandonava
seus filhos.
A Consciência Cósmica
materializou um campo
de energia a proteger
Angcf
Angcf sentiu que era hora de partir. Ajoelhou-se, em conexão total com a Consciência Cósmica. À sua frente, materializou-se uma rosa azul, símbolo da Grande Mãe, a quem Angcf servia. As pétalas desprenderam-se da flor, dançando ao redor dele, envolvendo-o numa diáfana nuvem azul e dourada. 

Ele estava pronto.

Entrou no Pântano dos Anjos Distorcidos.

O Mestre Treinador fora taxativo: ande suave e calmamente, não corra, e mantenha o medo sob controle, ou eles perceberão sua presença. Nunca olhe para os lados, apenas para frente, a mente inteiramente vazia. Não dê atenção às vozes que lhe pedem socorro, elas não passam de lembranças dos que já foram, e, se você parar, nada poderá salvá-lo. Se for perseguido, arranque um pedaço de seu corpo astral e lance-o para trás. Por fragmentos de segundos os Distorcidos vão lutar entre si para ver quem fica com ele. Essa é a sua chance. Caso não consiga fugir, você sabe o que fazer. Angcf sabia. Envolveria a Esfera em sua aura e entregaria ambas ao Infinito, para que não fossem capturadas.  Ele perderia sua Existência, mas a Esfera sobreviveria em outro plano.

A nuvem de pétalas azuis amenizava o cheiro nauseabundo, assim como impedia que o corpo astral de Angcf fosse queimado pela atmosfera escaldante. O mais difícil era não dar atenção às vozes. Tão difícil que, quase chegando ao final do Pântano, desconcentrou-se, ao escutar o que parecia ser a voz de Ultkt. Rapidamente voltou à quietude mental, sabendo que não era seu amigo quem estava ali.

Mas não rápido o suficiente.

Sua presença fora percebida e, num átimo, Anjos Distorcidos já o estavam quase alcançando, os olhos lançando gosmas corrosivas. Angcf cometera um erro, é certo, mas não falharia. Arrancou um pedaço de seu corpo astral e jogou-o para trás, como fora ensinado. Não tendo como manter-se despercebido, sabia que, ou corria mais que a vida, ou pereceria ali, ignominiosamente.

Anjos Distorcidos voavam atrás dele, seus gritos de guerra aterrorizantes chamando reforços. Angcf nada ouvia. Concentrava-se em correr, preparado para lançar sua aura e a Esfera ao Infinito se fosse necessário. Faltavam poucos passos, estava quase chegando...

Sentiu uma dor excruciante, provocada por um jato de lágrima corrosiva que atravessou seu corpo. Angcf caiu.

Caiu no meio dos Guardiões do Primeiro Instante que o aguardavam na fronteira. Em menor número e acovardados, os Distorcidos fugiram. Os que restaram.

Quase desfalecido, sofrendo dores atrozes, o Jovem Aprendiz só permitiu que cuidassem de seus ferimentos após entregar a Esfera ao Guardião das Magias Azuis.

O pedaço arrancado deixaria uma cicatriz, mas seu corpo astral voltaria a crescer (diziam que um verdadeiro Combatente da Luz tinha mais cicatrizes que corpo - astral ou áurico). A queimadura profunda causada pelo ácido dos olhos dos Anjos Distorcidos doeria por muitas eras, e sua marca jamais desapareceria. Porém, nem tudo eram perdas.

Ao acordar, percebeu que seu cabelo encurtara. E que as asas de seus pés haviam crescido o suficiente para alçar pequenos voos. Subira na hierarquia. Era mais que um Jovem Aprendiz.

Angcf cumprira sua Missão.



imagem: Pinterest

Comentários

Ana Luzia disse…
É isso aí, Angcf, a superação é premiada pela satisfação do dever cumprido!
Erica disse…
Como sempre, a riqueza de detalhes, faz com que a gente se sinta lá, no meio do pântano, sentindo o cheiro nauseabundo e quase ouvido vozes! rs Só não dá pra falar o nome do aprendiz... esse é impronunciável, né? kkk
Anônimo disse…
Tão fácil nós perdermos no caminho... q bela a certeza de q seres de luz estão esperando nossa chegada, com todos os erros e acertos!
albir silva disse…
Respiração custando a se normalizar e músculos doloridos pela tensão de acompanhar seu personagem na travessia. Ainda atordoado, sem saber em que plano estou: terrestre, quântico ou astral.
Mas vivo.

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