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INSÔNIA >> Carla Dias >>


Vai dormir, menina! Já passou da hora. Tem mais nada aí, não.

Ainda assim, eu gastava um bom tempo encarando as barras coloridas estampadas na tela da televisão. O volume eu zerava, que aquele era um som que não cabia na noite de uma casa cheia de pessoas prontas para cair no sono.

Eu as observava com certo pesar. Era sinal de que a tevê demoraria a devolver a programação. Então, eu encarava aquelas barras e jurava para mim: quando eu crescer e tiver um emprego, vou comprar um videocassete e não serei mais prisioneira da vontade das barras coloridas e daquele som invariável.

Naquela época, eu não tinha ideia de como a tecnologia inventaria mil formas de se passar uma noite de insônia. Tampouco imaginei uma programação na tevê sem a indigesta interrupção das barras coloridas e sua trilha sonora chatinha, chatinha. Porém, antes de descobrir, eu encontrei os livros.

Livros são meus companheiros de insônia. O videocassete também foi, e durante um bom tempo. Livro eu trago comigo para a cama. Tevê no quarto eu dispensei. Computador, também.

Durante a insônia dessa noite, decidi conferir uma pastinha de documentos. Organizar, sabe? É que o guarda-roupa eu já tinha organizado na insônia passada.

Naquela pastinha, descobri muito sobre do que me esqueci.

Nasci no ano em que gostaria de ter passado a adolescência. E não importa a fragilidade desse meu sonho. Ele me acolhe e isso é mais do que muita realidade já fez por mim.

O documento do hospital diz que cheguei aqui por parto normal em 16 de novembro de 1970, às 3:30. Talvez por isso a noite me seja mais cara do que o dia. Fui aspirada e passei duas noites no quarto 20 do hospital. O número 20 não me diz nada. O número 2, diz. O número 7, idem.

Em 1989, eu me desapeguei do medo de desejar mais do que me era oferecido. Em 1994, experimentei a primeira significativa catarse. Em 2016, veio a catarse parte 2. No momento, aguardo a providencial e, por favor, interessante catarse parte 3. Quem sabe venha com uma boa noite de sono de brinde.

A certidão de nascimento de um dos meus irmãos me faz lembrar, com um pouco mais de clareza, daqueles que meu olhar nunca alcançou e a morte levou. Para mim, a consequência da morte atinge sempre a quem fica. A morte é um assunto da vida, ela que, com seus desfechos inusitados, desocupa espaços dentro da gente que passamos muito tempo tentando preencher.

O tempo brinca de pique-esconde com a gente. Quando o encontramos, entendemos que ele foi mais rápido do que os nossos planos e aconteceu.

Passei a distrair a insônia escutando música. Obviamente, evito cantarolar, no meu nada modesto desafinar. Sempre uso fone de ouvidos, porque os vizinhos precisam dormir, que amanhã eles têm de trabalhar. Quer dizer, hoje.

Já é hoje, novamente.

Primeiro registro na carteira foi em 1987. Não reconheço essa pessoa sobre a qual esse documento trata, mas agradeço a ela por ter me trazido até aqui, quase inteira.

Um quase faz diferença.

Antes que alguém sugira, não tomo remédio, porque tenho medo de não acordar e perder a hora da vida. Também tenho medo de lagartixa e de pessoas que acreditam que valem mais do que as outras. Medos não me faltam, mas isso eu sei que não falta a ninguém.

Passaporte: emissão em 1997. Expirou em 2002. Na ausência de carimbos, percebo-me inexperiente no exercício de colocar os pés em terras estrangeiras. Também me perco, por alguns segundos, na sensação de que é bom saber que há o que ser descoberto, geográfica, emocional ou imaginariamente. Parecem temas distantes, mas não são.

Tudo conectado, não é isso? Todos.

Assim, mantenho, na pastinha de documentos, um passaporte-fetiche.

Fim da organização. Eu poderia continuar a escrever, porque acabei de me lembrar daquele filme, daquele livro, daquela pessoa, daquela dúvida, daquela inquietação. Melhor mesmo seria dormir, mas a insônia, minha amiga íntima, que adora minha companhia, decidiu que, hoje, a noite será de balada. E então, vem essa música de som mais ou menos de mp3 no play do celular. Essa música...

Que fique claro: sempre haverá uma música.

Na impossibilidade de escorregar para debaixo das cobertas e aproveitar uma noite de sono tranquilo, de frio apropriado para, rendo-me à única coisa que uma insone feito eu pode fazer às 2:45 da madrugada, sabendo que o sono não virá:

Dançar na sala como se hoje já não fosse amanhã.



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