sábado, 26 de agosto de 2017

#AGROTÓXICOS >> Sergio Geia

 

Estava numa livraria procurando coisas interessantes. Já tinha encontrado uma, moça interessantíssima, morena, pernas longas, grossas, lábios carnudos, cabelos compridos, grandona, uma deusa que, sentada no sofá, folheava um livro. Percebi que, vez ou outra, ela se dirigia a um homem chamando-o de “meu bem”, e juntos trocavam ideias sobre questões relacionadas a agricultura, lavoura, alimentos, agrotóxicos etc.
Eu estava de pé, absorto, ao lado da estante, procurando um livro pra comprar. Aliás, eu e Chiara temos esse hábito: estando em Ubatuba, sempre passamos numa livraria ou sebo pra comprar alguma coisa pra ler. Eu já tinha terminado o livro do Rubem Fonseca que trouxera, e queria um novo. Depois de muito olhar, separei outro de contos do Fonseca, “Calibre 22” (o que eu queria mesmo era “Feliz Ano Novo”, mas não tinha), e “Lavoura Arcaica”, esse clássico do Raduan Nassar, aquele mesmo que disse coisas inamistosas num evento do Ministério da Cultura que desgostou profundamente o então Ministro da Cultura, Roberto Freire. Peguei os dois e me sentei próximo à morenaça.
“Calibre 22” traz 29 contos, curtos, superficiais, que retratam assuntos afetos à obra do autor, como violência, morte, sexo, homofobia, desigualdade social. Dei uma googlada e achei uma crítica duríssima do Sérgio Rodrigues sobre o livro. Do Raduan, li o primeiro capítulo, e me senti realmente adentrando num monumento da nossa literatura contemporânea. Falei pra Chiara sobre Raduan, ela não o conhecia; disse que “Lavoura Arcaica” é uma das nossas obras-primas.
Enquanto folheava os dois livros e me decidia se levava os dois ou apenas “Lavoura Arcaica”, eis que a morena se levantou, dirigindo-se ao seu bem:
“Meu bem, acho que eu não vou dar meu dinheiro pra esse cara, não!”
O comentário atravessou a minha leitura; afinal, quem seria “esse cara”? Fiquei curioso. Esperei que ela se afastasse e peguei da mesinha um livro verde que ela tinha deixado e que antes folheava: “Agradeça aos agrotóxicos por estar vivo”, de Nicholas Vital.
Deu pra perceber que ela era bem natureba. Na certa, sua alimentação era supersaudável, produtos orgânicos, dieta à base de alimentos naturais, muita saladinha e frutas. Óbvio que não iria comprar um livro que a mandava agradecer aos agrotóxicos pela sua vida. Dei uma folheada, e o deixei na mesinha. Fui até o caixa, paguei, e trouxe Raduan e Rubem pra casa.
Depois de alguns dias, me vi pensando no tal livro sobre agrotóxicos. Qualquer pessoa, por mais ingênua ou ignorante que seja, é capaz de formular o raciocínio de que um alimento produzido sem agrotóxicos só pode ser mais saudável para a saúde humana do que um produzido com esses tipos de defensivos, não? Por mais saudável entenda-se que possua quantidade de nutrientes maior que os alimentos convencionais; que proporcione ao corpo uma funcionalidade adequada; que previna doenças etc. Como pode haver um cara defendendo exatamente o contrário? Instigado por essa curiosidade, resolvi pesquisar.
Nicholas Vital tem passagens em diversas revistas como Exame e IstoÉ Dinheiro. Venceu o prêmio Abril de Jornalismo na categoria Economia em 2012 e ficou entre os finalistas na mesma categoria em 2011. E, como ele mesmo diz, não é médico toxicologista nem engenheiro agrônomo e, também, como pode parecer num primeiro momento, não é contra os produtos orgânicos.
E como não sendo médico toxicologista nem engenheiro agrônomo, pode falar com tanta propriedade a respeito desse assunto?
Seu livro é um contraponto ao discurso dos adeptos da linha orgânica, que ele entende como nicho, uma vez que representa apenas 1% do mercado mundial de alimentos. Não há alimentação orgânica pra alimentar 7 bilhões de pessoas no mundo, ele diz. E continua: não há comprovação científica de que o alimento convencional traga algum prejuízo à saúde humana; tanto o alimento convencional como o alimento orgânico podem fazer mal se forem mal manejados; se bem manejados, nenhum deles faz mal; não há comprovação científica de que o alimento orgânico é mais saudável e saboroso do que o alimento convencional (aliás, os estudos realizados por instituições sérias, inclusive nos Estados Unidos, demonstram que esse argumento é mentiroso).
Sua teoria é embasada em mais de 50 estudos científicos, pesquisas, conversas com especialistas. Segundo Nicholas, somente vendendo esse tipo de sofisma, digamos, a indústria dos orgânicos conseguiria convencer alguém a comprar uma alface, ou um tomate, ou batatas, pagando 3 vezes mais.
Talvez esses sejam os pilares de sua tese. No livro, o assunto é esmiuçado e certamente vai render calorosos debates. Os adeptos da alimentação orgânica já estão mostrando as armas: que nojo esse livro sobre agrotóxicos; que a indústria pegou pesado; que as mortes são ao longo do tempo; que a pesquisa é superficial etc.
Como eu estava em Ubatuba, curtindo coisas mais interessantes que mergulhar nesse debate natureba, preferi Raduan, e sua “Lavoura Arcaica”.  

P.S.: Seria desonesto de minha parte não informar a você que dias depois, não resisti a uma passadinha na Nobel, da rua Guarani. De forma que, encabeçando a pilha de livros que tenho aqui pra ler, destaca-se um reluzente e polêmico livro verde. Lembrei-me da morenaça. 

Ilustração: www.fecesc.org.br


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