quarta-feira, 16 de agosto de 2017

DEVAGAR COM A DOR >> Carla Dias >>



A lembrança interrompe a trilha sonora interna do momento. Porém, a música tema sendo tocada – ininterruptamente e há horas – no jukebox da minha cachola é conversa para outro dia.

Nesse momento, tudo silencia, porque há lembrança que só se manifesta se todos os sons se calarem em sua homenagem. E esse filme toma minha memória, assim, mudo, porque o suspense é necessário.

Mas o que fazer com uma lembrança que não vem inteira? Cadê o som que sei que ela tinha? Havia diálogos ali, não apenas movimentos. Havia verdades nela, que sinto que eu apreciava escutar: ritmo e emoção. Que pena que não as decorei para declamar mais tarde, feito poema raptado de autor desconhecido.

Resta-me, então, feito ser humano escolado em versões, criar um diálogo novo para uma velha lembrança. Sabemos quantas mudanças as lembranças sofrem com o passar do tempo. Algumas delas se tornam outras. A verdade se perde, dando lugar às interpretações que se guiam pelo humor do seu interlocutor, de acordo com o que ele sente naquele momento.

Naquela lembrança eu estava feliz. À frente, o mar. Era tanta vista, que meu olhar vagueava sem pressa. Pés descalços na areia, uma das raras sintonias entre mim e o sol. Aquela música que tocava no jukebox da minha cachola, antes de tudo se calar, ela até que combinaria bem com o cenário.

Sou eu há mais de duas décadas, com muitas histórias para viver, mudanças para sofrer. E aquela beleza toda...

Praia, para mim, tem de ser para assistir pôr do sol. Eu tenho medo de mar, de água a perder de vista, viva. Tenho medo que enfrento botando os pés no mar, morrendo de amores pela água. É um encantamento misturado a um contínuo arrepio que indica cuidado.

É lembrança de quando fui tocar no litoral norte de São Paulo. Eu tinha comprado a bateria que desejava tanto. Foi estreia e encantamento. E ainda tinha aquela vista.

Aos desavisados, meu sonho de consumo é uma vista na qual eu possa me perder. Apenas um lugar de onde o olhar possa partir, para transitar sem esbarrar na janela do vizinho. E aquilo, era tanto céu e mar que eu juro que perdi o fôlego.

Inventei umas histórias para meus companheiros de vista dizerem. Dominei a lembrança como se a tivesse criado. Não importavam mais os diálogos, mas só até aquele momento. Nele nunca consegui mexer. Dele me esqueço para ruminá-lo na crueza da sua verdade, quando a lembrança volta ao original.

Um dos meus companheiros de jornada, uma figura muito lógica e direta, respondeu a uma pergunta que fiz ao universo. Perguntei a ele, ao universo, tomada pelo arrebatamento da visão e dos atrevimentos inspirados pela combinação areia, mar, sol e céu; inspirada pelos desmandos da poesia que abraça reflexões, por que diabo as pessoas eram capazes de cometer tantas tragédias num mundo de tantas belezas. E essa pessoa entrou no meu espaço delirante para responder, de forma certeira e intrometida, que é do ser humano doer e causar dor, e que nem todos param para observar. Eles escolhem neutralizar o perigo, mesmo que ele ainda não esteja ali. Antever a desgraça, prever o desencantamento, ameaçar a dor.

Quando menina, depois de escutar pela primeira vez “devagar com o andor, que o santo é de barro”, passei as procissões seguintes – e foram muitas – a temer pelos seres humanos, que esse negócio de derrubar santo não me parecia boa coisa. Os santos poderiam até se espatifar no chão, mas o preço para o espírito do ser humano que os derrubasse, era sobre ele que eu pensava.

Depois, aprendi que a expressão era mais ampla.

Hoje, na lembrança concluída, pós deslumbramento geográfico, permito-me reformular: devagar com a dor e com o desamparo. Aquele dia, um dos meus raros na praia, não consegui discordar do meu companheiro de jornada. Hoje, muitos tombos depois, tantas mudanças infligidas e amores cultivados, eu posso me dizer mais corajosa. A lembrança vem e vai embora, mas sem me atormentar como antes. Fico com a versão-deslumbramento dela. Fico com a parte em que o ser humano observa aquela beleza como um meio para aliviar os conflitos internos, abrandar os dissabores, inspirar-se para alcançar soluções. É beleza que se aprofunda no que temos de melhor, modificando o pior de nós para algo mais justo. Ela molda nossa vida, feito o barro do qual é feito os santos.

Lembrança passa. Ligo meu jukebox interior e a música continua. Há dias em que a trilha sonora é que nos escolhe e nos manda de volta para casa.

Imagem © Hermann Seeger

carladias.com



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6 comentários:

Anônimo disse...

Prezada Carla, esse texto é um verdadeiro alento nessa minha hora de ócio. Surto com o aperto no peito.

Abraços,
Enio

Denise Odara disse...

Carla querida...minha trilha silenciosa está aflita a me avisar: "Não ouse comentar, não ouse!". Permito-me apenas te agradecer a beleza da crônica. Odara.

Carla Dias disse...

Enio, muito obrigada pela gentileza da leitura e no trato com os meus escritos. Beijo!

Denise, minha cara, ouse sempre que ousar vale a pena. Nesse caso, sua ousadia me deixou muito feliz. Obrigada. Beijo.

Zoraya Cesar disse...

Que lindeza, Carla, só você mesmo, para ter uma jukebox interna a lhe acolher e aquecer nos momentos mais duros. "A beleza molda a vida, feito o barro do qual são feitos os santos'... lindo!
Beijos de oleiro.

albir silva disse...

Você me ajuda a compreender uma porção de coisas: agora sei que também tenho uma jukebox que vai inundando com trilha sonora as situações. Beijo, Carla!

Carla Dias disse...

Zoraya, esse jukebox já me ajudou tanto. Todo mundo deveria ter um desses. Beijo.

Albir, sempre às ordens para ajudar na compreensão de coisas meio malucas. Beijo.