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E EU QUE TINHA MEDO DO DIABO >> Albir José Inácio da Silva

- O meu nome é Legião – respondeu a Jesus uma matilha de demônios que infestava um pobre gadareno.

Nem sabia que diabos eram capazes de suplicar, mas esses humildemente suplicaram para entrar numa manada de porcos. Além de arrebentar algumas correntes, arrancar a roupa do gadareno e deixá-lo viver no cemitério, esse foi o grande feito daquela súcia de espíritos malignos. Onde fica a arrogância do Príncipe das Trevas?

Poderiam possuir Pilatos, César, o Faraó e outros governantes da época para começar a primeira guerra mundial com dois mil anos de antecedência – o que seria um trabalho digno de uma legião de demônios – mas preferiram induzir ao suicídio um bando de porcos que pastavam alheios à batalha entre o bem e o mal.

Outro exemplo da mediocridade diabólica foi a influência sobre Judas, que depois, arrependido da traição, suicidou-se - a exemplo dos corruptos japoneses que cometem haraquiri - e foi execrado pelo resto da história.

Bem diferente de traidores nacionais que são exaltados e viram tatuagem no lombo de parlamentar.  Aqui esses Judas conseguem cooptar lideranças religiosas que, além de se fazerem representar por bancada temática, os abençoam em nome de Deus, desejando longa e profícua permanência no poder.

Hoje assistimos a exorcismos na televisão, que se resumem a pobres diabos pobres, alcoolizados, com os braços presos às costas pelo poder sobrenatural do exorcista ou por alguma reverência própria dos endemoninhados, voz gutural, dizendo tratar-se de entidade oriunda de outras mitologias. Uma esquizofrenia que não expulsa os próprios demônios, mas ataca com ferocidade os deuses dos outros em meio a aleluias e améns.

Como se vê, continua canastrão o Lúcifer, um menino peralta se comparado com alguns humanos. Teria muito que aprender com os governantes brasileiros.

O diabo sempre distribuiu doenças, principalmente para os mais pobres, que têm péssimos hábitos alimentares, mas nunca pensaria em acabar com a saúde pública em benefício dos planos privados.

Ele sempre foi capaz de fazer um cristão perder o emprego, mas nunca se atreveu a eliminar garantias trabalhistas e previdenciárias conquistadas ainda no século passado.

Atrapalhava menino passar de ano e derrotava alguém no vestibular, mas que diabo pensaria em desmontar universidades públicas, acabar com o Ciência sem Fronteiras e comprar deputados com recursos da iniciação científica?

Satã sempre espalhou aqui e ali uns preconceitos, mas nunca sonhou em ouvir atores pornô para transformar escolas em centros de fundamentalismo, impedindo a livre manifestação do pensamento.

Provocava alguns incêndios, já que gosta de labaredas, mas esteve sempre muito longe de oficializar o desmatamento da Amazônia.

Possuía este ou aquele político para espalhar suas maldades, mas nunca pensou em infestar os três poderes da república de um só golpe.

Um principiante esse Mesfistófeles. Seus grandes feitos nunca passaram de bravatas.

Os de nós que sobreviverem a esse governo vão adquirir uma vantagem sobre os demais humanos. Terão superado o medo ao diabo e a seus truques ridículos, já que enfrentaram inimigos muito mais perigosos.


Belzebu servirá apenas para assustar crianças insones e será chamado de bicho-papão.

Comentários

Zoraya Cesar disse…
Excelente texto, Albir, escrito com maestria. E, além disso, pertinente. Maravilhoso. (só não acho que haverá sobreviventes para se vangloriarem de vencer algo pior que o Demo.)

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