Pular para o conteúdo principal

UM TODO DE MÃOS DADAS >> Leonardo Marona




Estou lendo - e ando por aí feito um adolescente, de bandana em volta do pescoço, com ele embaixo do braço - o livro que Patti Smith escreveu sobre a sua vida e, principalmente, sobre a sua relação com o fotógrafo e artista múltiplo Robert Mapplethorpe. Ainda estou na parte que descreve uma ansiedade juvenil que ambos tinham sobre o que fazer com sua própria sensibilidade; e foi por isso que pensei em ti, com muita força, de uma forma estranha, como se, depois de tanto tempo sem te ver e tendo te visto tantas vezes, fosse a primeira vez que te visse claramente nos meus pensamentos.

Tem um trecho em especial - que martelou o teu nome na minha cabeça - que me emocionou muito. É quando Patti pede que Robert se demita de um emprego chinfrim para dedicar-se exclusivamente à sua arte. É lindo, fraterno, e me lembra muito nossas longas conversas sobre o meu emprego de editor de imagens, que tanto me entediava e do qual você vivia dizendo, em nossas longas conversas no meio da tarde, para eu me livrar. Reproduzo aqui:

"Implorei para ele se demitir. Aquele emprego e o cheque magro não valiam o sacrifício. Depois de noites de discussão, concordou mesmo relutante. Em troca, passou a trabalhar com afinco, sempre ansioso para me mostrar o que havia feito. (...) Não me lamentei por ter aceitado o emprego que nos sustentaria. Meu temperamento era mais resistente. Eu ainda conseguia criar à noite e fiquei orgulhosa de propiciar uma situação que lhe permitisse fazer seu trabalho sem nenhuma concessão".

O mais incrível é que, mesmo transportado confusamente para essa relação de dois irmãos siameses espirituais, como nós dois também somos, acima de tudo, eu não saberia dizer quem somos ali: se você é Patti Smith e eu Robert Mapplethorpe ou vice-versa. Tenho obsessões parecidas com as dele, um catolicismo arraigado e uma ternura muitas vezes violenta e não exprimível, por falta de autoconhecimento. Você é muito parecida com Patti, no que ela tem de melhor, que é o charme um pouco desajeitado de quem muitas vezes não sabe que é charmoso, e também uma compreensão meio a contragosto do que seria a Humildade do Homem na Terra, diante dos piores percalços. Um coração imenso e uma cintura estreita. Talvez você me diga que não reconhece nada disso em si mesma. Acho que Patti faria o mesmo.

Estranho que, quando duas pessoas cosmicamente ligadas passam muito tempo juntas, elas quase não precisam falar. Isso aconteceu com eles, isso aconteceu conosco também, e mal entendíamos como um silêncio muitas vezes incômodo teria força para nos ligar para sempre. Imagino, acima de tudo, as manhãs que passávamos fazendo picnic no Aterro do Flamengo, conversando monossilabicamente sobre um tipo de fruto que chamávamos de cacau, mas não sei realmente que fruto era.

Nós nunca estivemos no famoso Chelsea Hotel como eles, mas tínhamos aquele seu quartinho em Copacabana, e ríamos juntos da sua notória filosofia copacabanense, enquanto almoçávamos ao lado de velhinhos esquecidos, mas felizes e até mesmo patéticos, num imenso restaurante a quilo, todos se aceitando mutuamente como algo mais amplo que mera aparência. Éramos velhos e tínhamos o espírito infantil. Em Copacabana aprendemos a gostar do que chama atenção naturalmente e, ao mesmo tempo, aprendemos a não nos importar com isso. Dormíamos vendo filmes suecos, e me lembro do dia em que cheguei de baixo de chuva com uma garrafa de vinho que você renegou, dizendo que não beberia mais e que eu deveria fazer o mesmo, pois estava me tornando um alcoólatra. Você tinha essa incrível voltagem, era capaz de mudar completamente de vida de um dia para o outro, várias vezes na semana. Isso sempre me pegava desprevenido, e me deixava atônito, sem saber direito como me comportar. Muitas vezes fizemos birra, e muitas vezes era eu a criança mimada, outras vezes você. Esse revezamento silenciosamente estipulado entre nós era o azeite da nossa relação, e o que poderia atrapalhar muitas pessoas, sempre os que buscam a paz e o tédio, nos ajudava a não nos impressionar com mudanças repentinas e até mesmo a reconhecer a própria essência misteriosa da vida nestas mudanças.

Quando nos conhecemos você tinha o coração apertado e eu tinha oitenta anos. Nos encontramos pela primeira vez no hall de um edifício no Leblon. A cena serviria para uma música da Marina Lima, mas, sem deixar perceber, nós éramos pássaros feridos em pleno voo, e não íamos além do meio-sorriso. Primeiro você me ofereceu uma carona, afinal, tínhamos amigos em comum. Na porta da sua casa, me convidou a entrar e, engraçado, em momento algum estivemos flertando, era tudo muito sério, um ritual que seria a quermesse do nosso afeto.

Dentro da sua casa não olhei para nada, a não ser algumas caixas de papelão pelo chão da sala. Havia uma reza feroz por dentro da pele, aquele silêncio faria de nós cúmplices eternos. Você sumiu para dentro do quarto, eu olhei para minhas mãos nos bolsos, um pouco cambaleante. Quando você voltou, trazia um livro: queria me dar seu livro, e tinha me dado uma carona. Agradeci um pouco envergonhado e até mesmo invadido, e agora me deparo com este livro sobre invasões e delicadeza e um pouco de sangue de cetim, quando leio sobre Patti Smith e Robert Mapplethorpe, o marinheiro de Genet e a Joana D’Arc da Abissínia, andando de mãos dadas e olhos fechados enquanto o mundo se esfacela diante dos seus olhos, e as camadas vulcânicas se deslocam enquanto passa o casal, que é todos os casais como nós, “que só a nós entendemos”, com nossas miçangas indígenas em volta dos nossos corações urbanos, e quantas vezes não dissemos “vou embora”, para no outro dia medir nossos pertences, para ver que existe um retrato feito numa máquina lambe-lambe, que existem as lágrimas que procriam em estrelas, e as estrelas decaídas somos nós: um todo de mãos dadas.

Comentários

Bela leitura do livro e da parceira, Léo!
Leonardo, você é surpreendente! Sua descrição de fatos enriquece demais sua escrita e, consequentemente, nossa leitura!
Obrigada por esse belo presente neste sábado pela manhã!

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …