segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

QUANDO VOCÊ FOR MÃE >> Kika Coutinho

“Quando você for mãe, daí sim, você vai saber”. Ai que chatice, eu pensava — ou dizia — a cada vez que ouvia essa frase. Normalmente batia a porta e entrava no elevador, murmurando qualquer coisa como: “Ai, vou saber, vou saber, vou saber o quê? Vou saber que as mães são chatas e sem noção? Affe..." Eu terminava ligando alto o som do carro. Nunca entendi. E a verdade é que nunca entenderia.

O que havia, afinal, para saber? O que a vida me ensinaria de tão diferente quando eu fosse mãe? Por que tanta gente insistia nessa frase clichê, batida? Que tolice era essa afinal de contas? Não deveria ter assim tanta coisa pra saber...

Agora, exatamente um ano após dar à luz a minha menina, eu começo — devagar — a entender o que havia para saber. E, o pior, já sou capaz de soltar o clichezão: “Quando-voce-for-mãe-balblablá”.

É uma verdade. Você vai saber, quando for mãe, que a vida desembaça um bocado. Que a gente precisa de um pouco tão pouco, mas tão pouco, que às vezes até parece muito. A gente, de repente, não precisa mais salvar o mundo.

Não precisamos mais transformar o planeta, o país, a cidade. Não. Precisamos transformar pequenas crianças em adultos bacanas, felizes, seguros. Uau, que tarefa árdua. Muito mais árdua que ser herói. Muito mais gratificante também.

Você vai saber, quando for mãe, que não tem importância fazer a unha toda semana, não tem importância ter uma barriguinha molenga e, não, não tem importância o peito cair até o chão, desde que tenhamos parido e alimentados filhos saudáveis.

Você vai saber que um resfriadinho nunca é um resfriadinho e, sim, uma potencial pneumonia. E, mesmo sabendo-se ridícula, mesmo envergonhando-se, vai medir a febre de um bebê que não tem absolutamente nada, mas fará — talvez escondida. Porque qualquer possibilidade de que ela não esteja bem te dará um gelo na barriga muito, muito pior que qualquer dor de amor adolescente — e olha que eu entendo de dor de amor adolescente.

Mas, por outro lado, você só saberá quando for mãe o quanto é alucinante assistir a um pequeno alienígina mexer-se dentro da sua própria barriga. Nenhuma outra droga te dará efeitos parecidos. Ok, de drogas eu não entendo tanto assim. Mas posso apostar.

Você vai saber, quando for mãe, que os documentários sobre doenças raras em crianças que passa na Discovery são, na realidade, sessões completas de tortura que tirarão o seu sono e, cada vez que você assistir a uma criança que geme de dor, sentirá como agulhas dentro das unhas, só de pensar que aquele choro pode, ai, ser o choro da sua criança. Não, não pense. Pensar dói. Você saberá quando... já sabe, né?

É só quando for mãe que o valor da saúde, da alegria, da segurança, realmente terão uma dimensão razoável. Antes, era tudo vento e regata. Agora, um casaquinho não fará mal a ninguém.

Porque quando você for mãe, você também vai saber que a vida, há pouco tão resistente, valente e fantasiosa, é, na realidade, frágil e traiçoeira. Porque, antes, você só tinha a sua vida para cuidar. No máximo, a de um outro adulto. No entanto, quando Deus lhe entregar um pequeno bicho da mesma espécie que a sua, você temerá por ele infinitamente mais do que por você mesma. Não, você não é tão importante assim. Não, suas dores e gripes e resfriados nem são tão sérios. Você verá que sério mesmo é o nascer de um dente do seu pequeno banguela — “por favor, por favor, dê a dor dele para mim”, implorará aos céus, emocional e ridícula, tal qual uma novela mexicana. Sim, você será uma novela mexicana ambulante. Vai fingir que não é, vai fingir que acredita que seus filhos são iguais a todas as crianças, vai até ter de ensinar isso para eles, mas, amiga, você sempre achará, em algum lugar de você, que eles têm alguma coisa especial. Talvez saberão cantar uma música que ninguém sabe, talvez saberão falar mama e papa antes que os outros, talvez tenham um jeito de pegar na colher que você nunca, nunquinha, viu nenhum bebê fazer. Claro, esse meu filho é fera. “Né ferona, fofucha da mamãe?!?” Ridícula. Você nunca, jamais, foi tão ridícula quanto na maternidade. Espere e verá.

www.embuchada.blogspot.com

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7 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Um ano já?! Jura?!
Mas me diz uma coisa: vem com a maternidade também esse talento de transformar clichês em belos textos?
Parabéns pra Sofia!

vanessa cony disse...

Na verdade estou louca para entender esse amor tão,tão,tão...
Quando eu for mãe,talvez eu entenda.
Parabéns pelo texto bonito e sincero.A vontade de ser mãe até aumentou.rsrsrs

fernanda disse...

Kika, você escreveu tão bem que eu quase entendi a minha mãe. Hoje mesmo soltou uma dessas. A preferida dela é: quero que vocês tenham muitos filhos para entender que mãe gosta de todos iguais...rs
Beijos!

Marilza disse...

Que bonitinho...simples, claro, objetivo. Taí, acho que todos nós ja meio que sabemos o que é ser mãe!

Miss disse...

Vale a pena a demora em escrever, vc se supera sempre!
Me espantei, um ano, já? Acompanhei a gestação e sinto falta de notícias atuais sobre "nossa Sofia".Abçs,

albir disse...

Parabéns, Kika, pra Sofia e pra mãe dela.

Anônimo disse...

lindo mesmo e tbém pensava assim ... q era tudo clichê, aliás, mta coisa deixou de ser clichê para mim.
Lindo, parabéns pela ótima colocação das palavras.