quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

CADA UM TEM O CHICO QUE MERECE >> Fernanda Pinho

Eu sei que de nada adianta ficar tentando entender o mundo, a vida, o imponderável, mas há dois questionamentos que não me sossegam: por que Maracugina se escreve com G e por que Chico é apelido de Francisco? Para minha primeira dúvida cruel eu até cogito a hipótese de haver algo de numerologia nisso mas, para a segunda, nada me convence. Nem pensem que, por isso, eu tenho antipatia de Chico. Não mesmo! Acho simpático, sonoro e já até cogitei batizar meu filho de Francisco só para poder chamá-lo de Chico. Mas eu não quero ter um filho chamado Francisco, eu quero ter um filho chamado Davi e por que eu não posso chamar o Davi de Chico? Por que Chico, por alguma razão sobrenatural, é apelido de Francisco. E nem me venham falar em derivados. Bené é derivado de Benedito. Tião é derivado de Sebastião. Mas Chico não é derivado de Francisco! Cisco seria um derivado de Francisco – embora eu ache que Cisco Buarque não emplacaria.

A verdade é que minha implicância com o assunto vem de uma certa inveja que eu tenho dos Chicos. Chico tem muito estilo. Chico tem força. Os Chicos têm cara de Chico. Chico faz parte de duas categorias de apelidos: aqueles que estão naturalmente ligados a algum nome (tipo Léo, Bia, Gabi, Mari) e aqueles que se incorporam a seu dono de tal maneira que passam a representar toda a sua personalidade sobressaindo-se, inclusive, ao nome de registro (tipo Macarrão, Bola e, sei lá, só me ocorreram nesse momento os amigos do goleiro Bruno).

Esta segunda categoria de apelidos, aliás, é muito amada por mim. Defendo que todo mundo deveria ter o seu – registrado nos documentos e tudo. Por um apelido você já é capaz de traçar um perfil do seu dono, afinal, foi uma alcunha imposta depois dele já ter nascido – diferentemente dos nomes que são escolhidos quando ainda não se sabem nada sobre nós. É por isso que eles se fixam e se tornam maiores, a ponto de ignorarmos o nome verdadeiro. Um dia desses, por exemplo, falávamos sobre os apelidos das pessoas que conhecemos e minha amiga Calypso (nome, não apelido) solta espontaneamente, para logo em seguida cair na risada: “Na nossa turma, só o Cotô não tem apelido”. Um ato falho de quem nunca se lembra que um dia os pais do Cotô o batizaram de...como é mesmo o nome do Cotô?

Não importa, o que importa é que desde criança eu invejo pessoas que, como o Cotô, têm um apelido tão marcante. Lembro-me de, aos cincos anos, questionar minha mãe sobre por que eu não tinha nenhum apelido. Ela me explicou que as pessoas não eram obrigadas a ter apelidos mas que, em todo caso, eu tinha sim. Meu apelido era Nanda. Achei bobo. Que sentido existe em se chamar Fernanda e ter o apelido de Nanda? Achei nada criativo e decidi, eu mesma, me impor um apelido. No dia seguinte, chamei meus colegas de turma – me lembro da cena: eu sentada em cima da merendeira vermelha contando a novidade em tom solene – e expliquei: “Gente, eu queria contar para vocês que eu tenho um apelido e eu prefiro ser chamada por ele. A partir de hoje, me chamem de Batatinha”. (Não, não sei por que Batatinha. Eu tinha cinco anos, lembrem-se!). Melhor foi a cara da minha mãe quando foi me buscar na escola e ouviu uns três coleguinhas gritando: “Tchau, Batatinha”. Mas não durou muito. Criança tem a memória curta, a professora insistia em me chamar de Fernanda e rapidamente Batatinha caiu no esquecimento.

Mas não desisto fácil. Mudei de tática e resolvi trocar de nome. Assim eu teria um nome qualquer e Fernanda eu assumiria como meu apelido. Passei, então, a me apresentar como Loló. E querem saber? Emplacou! Mais de vinte anos depois ainda sou chamada de Loló pelos meus tios e primos. Tudo bem, as mulheres da minha família me chamam de Nanda e meus amigos de Ferdi. Mas Loló é Loló. Loló tem uma essência. Loló é o meu Chico.




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11 comentários:

Calypso disse...

Os textos de Loló são sempre impecáveis.

Jujú disse...

Êeeeeeeeeee...pelo menos agora eu posso conentar sua crônica do mesmo dia! Algo bom nessa mudança da faxina! kkkkkkkk

Amiga, a gente tem realmente muita coisa parecida. Eu tb amo apelidos, mas eu amo mais apelidos vindo dos nomes. Eu sempre achei chato ter o nome que tenho, porque Juliana é tão simples. Não é nome duplo, não rende apelidos diferentes além de Ju, Juju, Jujuba (e eu nem como jujubas)...E assim como vc (eu ainda não acredito) decidi que queria ser chamnada de LIA (afinal minha prima era Fabiana, e era chamada de BIA, eu como Juliana podia ser chamada de LIA), mas como vc bem sabe não pegou. Simplesmente, me diziam, eu tinha cara de Juliana, e não de Lia!


Mas quando tiver uma filha resolvo isso! Ela chamará Maria Luiza (por N motivos, inclusive por causa da Luiza de Chico, e por ser nome composto, que acho lindo!), pq ela será minha Malu! Um apelido digno, fnalmente!rs

(desculpa pelo post, o sono me deixou "meio falante")

P-S - E amiga, Ferdi é uma apelido criativo, não conheço nenhuma Fernanda que têm esse apelido! MAs Loló??? Nãaao...rs!

Paula disse...

E Loló implacou mesmo... Muito embora vc será sempre Pudim para mim.
Bjos

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Crônica perfeita, Loló! :)

Fernanda disse...

Eu já sou o oposto, nunca me engracei com apelidos, mas é que quando criança tinha um tio que insistia em me chamar de 'zangada' e eu odiava aquilo, me deixava mais zangada ainda... rs

Hoje muitos me chamam de Fer, já quando me chama de Nanda eu vou logo dizendo: aiiii, Nanda não, tudo menos Nanda. Sei lá pq, mas Nanda me lembra Nada kkkkk

Neuras e neuras...

Bjs Loló :)
Fer

albir disse...

Leve e divertido, Fernanda. Ou Loló, ou Batatinha, ou Ferdi, ou Nanda.

Anônimo disse...

Tenho um amigo chamado Tiago, mas o chamo de Chico há pelo menos cinco anos. Sem problemas! Chame o Davizinho de Chico também!

Kika disse...

Loló,
eu já nao curto tanto essa coisa de apelido. Me sinto com identidade dupla, as vezes sou Ana, as vezes Kika, tem gente que nao sabe d eum, outros que nao sabem do outro, é um pouco confuso.
Mas, mesmo se voce assinar Loló, ou Batatinha, vou atrás de voce ler suas excelentes crônicas!
beijos!

Fernanda Gonçalves disse...

Ótimo, Loló. Amo seus textos, sempre levinhos.

Nunca tive um apelido mesmo. Me chamam de Nanda e me chamavam de Fernandinha. Mas eu gosto mesmo é de Fê.

Beijos, xará.

fernanda disse...

Muito obrigada pelos comentários, gente! Me chamem como preferirem. Mas deu para perceber pelos comentários das outras Fernandas que Nanda é o menos querido por nós, né? rs
Acho Nanda muito Malhação...rs
Beijos!

Vinicius Machado disse...

Putz!
Quando você descreveu os dois tipos de apelidos, me veio a cabeça um causo! XD
Estava eu(Meu apelido sempre foi Vini...então) e dois amigos, o Marcos e o anão(outro vinicius, mas como ele era baixinho ficou anão) Jogando RPG. O Marcos tinha a fama de por apelidos que pegavam nas pessoas e nessa noite, quanto estávamos jogando o Marcos, meio com sono, Falou:
Pô cara, a gente tinha que arrumar um apelido pro anão!
O apelido tinha crescido tanto, que anão já nem servia mais xD rimos muito esse dia xD
XD
é não tinha nada para comentar...muito bom o texto! =D