sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

UMA CARTELA PARA O DIABO
>> Leonardo Marona

01:30 h

Entrei no ônibus 172 bem na boca da Voluntários da Pátria, muito perturbado. Tinha acabado de assistir à Dama de Xangai pela primeira vez, tinha revisto cenas, mas não conseguia entender por que Elsa, ou Roselinda, induziu Mike a tomar aquelas pílulas todas no tribunal. Foram seus olhos? Queria que fugisse para depois liquidá-lo? Queria que ele mesmo se matasse sozinho? Ele estava desesperado de amor e engoliu? E que diabo de tribunal era aquele? Eu estava dividido entre este tipo de pensamento e três ratazanas, que namoravam dentro de uma construção abandonada, em frente à parada, quando subi.

Logo na roleta, a trocadora, uma morena de cabelos crespos num chumaço a frente da tiara violeta, e com muita pele em volta dos olhos remelentos, dormia placidamente. Atrás de mim vinha um senhor muito magro, com as calças rasgadas no fundilho, segurando as calças com uma das mãos e, com a outra, tentando equilibrar uma enorme caixa de isopor, que invariavelmente era arremessada na minha nuca a cada buraco na pista. “Sim, claro, o marido corno e aleijado mostra que sabe que foi Elsa quem matou Grisby, quando diz e ela: ‘eu não confiaria a ele minha mulher’. Ele é Mike O’Hara, o bode expiatório, primeiro de Grisby e de Elsa, depois só de Elsa...”, e deng-deng-deng, a enorme caixa de isopor se encaixava no meio dos pensamentos. Sacudi a trocadora, que apenas levantou um pouco a cabeça, esfregou a palma da mão de cima a baixo no rosto e voltou a deitar sobre os braços. “Porque quando Grisby matou Broome, pôs tudo a perder... E não era mais um parceiro confiável, segundo Elsa, que teve de encontrar um jeito de apagá-lo imediatamente... O que não seria problema, afinal ela tinha O’Hara na sua ratoeira, o que livraria sua cara...”. Parado em pé na frente da trocadora, olhei pela janela, mas já não vi mais nenhuma ratazana namorando.

Uma mão muito firme e grossa, a palma toda como um calo, me sacudiu pelo ombro, e eu senti perdigotos sendo despejados no meu pescoço, enquanto uma voz velha, falha e nasalada murmurava algo como “como é, filho, não vai andar, cacete?”. Dessa vez sacudi com os dois braços a trocadora, que se levantou assustada num pulo, olhando para todos os lados como se estivesse sonhando com o supervisor da empresa de ônibus, um barrigudo de sobrancelha pontuda e bigode de demônio, dando-lhe um flagrante. Passou seu cartão na tarjeta magnética da roleta e liberou minha entrada. Depois voltou a dormir pesadamente, ignorando o velho maltrapilho que vinha logo atrás de mim com sua caixa de isopor.

Ele já vinha resmungando e comendo a própria bochecha constantemente, mas dessa vez soltou um ganido tão violento para acordar a trocadora, com um murro na bancada de apoio, que ela lhe sentou a mão na cara, assim, “por instinto”, como disse ao velho, mas sem pedir desculpas. Em seguida, o motorista parou o ônibus a fim de desgrudar as unhas do velho do rosto da trocadora que, por sua vez, quase arrancava fora seu dedo mindinho com os dentes. O pobre velho era curvado demais e não conseguia olhar para frente muito bem, de modo que foi arremessado fora do ônibus pelo motorista, um gordo oleoso de mangas dobradas numa camisa encardida azul celeste, bigode largo e desalinhado, cabelos enrolados em volta da calva e um chumaço perdido em cima da testa, que o fazia um pouco mais ridículo do que o padrão, mas de qualquer forma, um troglodita continua sendo um troglodita, por mais ridículo que seja.

Quando jogou o velho para fora do ônibus, o motorista beijou duas vezes um medalhão muito dourado que trazia pendurado no pescoço, arrancou com o ônibus e gritou, olhando para a trocadora pelo retrovisor:

- Nossa Senhora da Aparecida que me perdoe, mas deus sabe que aquilo era um vagabundo bêbado... Um sem dono! Não tive escolha... Lanhou o rosto, sua desgramada? Fica farreando e depois dorme no serviço... Deus vê tudo! Dele não escapa nada...

A trocadora limpava um pouco de sangue que lhe tinha escorrido pelo rosto sem reclamar nem responder aos berros do motorista, enquanto este se atracava com o volante como se tivesse muita fome, sede, sono e cansaço, as quatro únicas sensações que ainda lhe restavam, fora um amor incondicional pelas causas religiosas e uma certa inclinação a acreditar nas pessoas, desde que elas saibam mentir. Ficou rindo da cara da trocadora quando viu que ela tinha novamente tombado de sono. Dessa vez com o queixo caído sobre o peito, o lábio inferior lhe emprestando as feições de um babuíno com prisão de ventre.

O velho ficou no meio-fio juntando as latas de refrigerante e cerveja que haviam se espalhado pelo chão, algumas estouradas, tentando ao mesmo tempo manter as calças no corpo, sem conseguir nem uma coisa nem outra muito bem. Grunhia de dor e resmungava, mas não se distinguia uma coisa da outra. O motorista olhou de lado rapidamente e, vendo que o velho não era exatamente um vagabundo bêbado, mas só um bêbado, não encontrou mais que pudesse fazer senão o sinal da cruz três vezes e um beijo no seu medalhão. Houve um minuto de silêncio. Eu ainda estava com Rita Hayworth e Orson Welles na cabeça, o que me parecia bom enquanto pudesse durar, quando subiu no ônibus uma velhinha muito baixa e barulhenta, de cabelos manchados de cinza e branco espatifados para os lados e com meias altas, daquelas de cor bege, para ativar a circulação das pernas.

- Boa noite, motorista, que deus o guie. O senhor, pela graça divina, conhece o bingo que tem logo mais adiante, à esquerda, no final da Voluntários da Pátria? – perguntou a velha com a cabeça inclinada e um sorriso aberto demais para ser sincero.

- Sim, senhora. Conheço o lugar.

- Pois então, meu jovem. Queira me deixar em frente – disse a velha com o mesmo sorriso, mas dessa vez com os olhos fechados, se acomodando em seguida no banco.

- Sim, claro... Mas a senhora tem o cartão para passar a roleta? – perguntou o motorista.

Imediatamente a expressão da velha se alterou drasticamente, fechando numa carranca doentia, e então ela arregalou os olhos e fulminou o motorista, em seguida a trocadora, depois eu, já que só havia mais eu ali.

- Foi deus que me trouxe até aqui, pecador infeliz! – a velha gritou voltando-se mais uma vez para o motorista, com um dedo apontado para cima. – Ele me tirou a visão e me deu uma perna manca, mas eu sou guiada por ele e ninguém pode impedir a guia de Jesus...

Quando vi os olhos no rosto da velha, me deu a impressão de que a qualquer momento deus pudesse aparecer para dizer qualquer coisa a seu favor, já que a velha era o próprio diabo.

- Deus vai aliviar a alma de vocês se me deixarem onde ele me manda estar... Jesus vai resolver o meu problema... Logo mais, na sua esquerda, motorista... Ali no bingo, por gentileza...

- É Jesus ou é deus afinal? – resmungou o motorista entre beiços, depois de muitos segundos de tsc, tsc, tsc. – Velha maluca, safada...

A trocadora olhou para mim e fez cara de tédio, com a cabeça apoiada na mão. Depois ficou mexendo a boca como se estivesse dizendo bla, bla, bla e virou os olhos o máximo que pôde para cima. Então voltou a dormir.

O motorista, muito irritado, dava um jeito de transbordar sua irritação passando por cima de todos os maiores buracos do asfalto. De vez em vez mirava a velhota – que seguia faceira sem dar muita atenção – e resmungava alguma coisa sobre qualquer santa e qualquer pecado universal, sobre usar o nome de deus em vão quando quase tudo de bom é em vão, que não seria mais tão bondoso como sempre foi, que não valia a pena, e por aí vai.

A velha era a única faceira. Manteve um sorriso monalísico no rosto até que o ônibus chegou perto do bingo e ela se levantou bruscamente, reclamando de um jeito na coluna.

- Eu fico aqui, com a graça de deus – e começou um sinal da cruz – meu pai e também de vocês, pecadores sem destino – depois fez o mesmo movimento da cruz para o motorista, a trocadora e para mim.

O motorista não se segurou. Largou o volante e começou a arrastar a velha pelo braço, para fora do ônibus.

- Sai pra lá de agouro, satanás! – gritou o motorista de cara amarrada. – Tu já fez tua malandragem, velha macumbeira... Agora chispa, vai!

Nesse instante, algo estranho aconteceu. O motorista de repente se petrificou e deu dois passos vagarosos para trás. Certamente estava embasbacado por algum motivo e seus olhos pareciam hipnotizados. A velha levantou as duas mãos acima da cabeça e começou a girar uma por dentro da outra, em círculos, enquanto sussurrava numa língua que parecia latim. O motorista e a trocadora, ao mesmo tempo, levantaram os dois braços esticados na altura dos ombros. Os olhos como dois ovos estalados.

A velha se virou na minha direção, mas sem me olhar. “Shalam, shalam, shalam, shalum, shummm... Shalam, shalam, shalam, shalum, shummm…”, ela dizia sem parar, agora com uma voz grossa e rouca e com os olhos rodando muito rápido. Seus cabelos estavam em pé e seu rosto parecia derretido por ácido. Salivava bastante e não parava de mexer as mãos no ar. Parecia ter mais dentes do que antes, e eles pingavam por debaixo de um sorriso indefinível. Não tenho certeza se vi uma cauda. Chifres certamente não tinha. Acho que senti cheiro de enxofre mas, afinal, estávamos na rua mais imunda de Botafogo. “Por que diabos o diabo viria até aqui como uma velha?”, pensei. “Tudo bem que quisesse ir ao bingo... Imagino o diabo no bingo... Agora, como uma velha... Bom, as velhas vão ao bingo... O diabo vai ao bingo... Será que o diabo é sempre uma velha que vai ao bingo?”. Mas eu via tudo muito mal, primeiro porque havia fumaça, depois porque resolvi fingir que estava dormindo para ver se conseguia tapear o diabo, já que não havia mais dúvidas quanto a isso e dado que já era tarde para comprar mais uma briga com ele.

Sendo assim, a velha seguiu no seu Shalam, shalam, shalam, shalum, shummm, primeiro na direção do motorista, que permanecia de pé com os braços esticados para frente. Então ela se aproximou da cabeça do homem e sugou com força algo pela sua orelha. O gordo se dobrou como um saco de batatas vazio e ficou no chão, feito papel sujo. A velha fez a mesma coisa com a trocadora, mas esta continuou exatamente como estava: já era um saco vazio antes. Então vi o diabo descer do ônibus e entrar no bingo, depois de enfiar uma nota de dez no bolso do terno do vigia noturno. “É um mundo belo e culpado”, lembrei das palavras de Mike O’Hara no filme, quando ele já estava encrencado demais para mentir. Assim como eu.


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