Pular para o conteúdo principal

PAIXÃO CRÔNICA >> Fernanda Pinho

Suspeito de que eu estava flutuando, e não andando, quando deixei o auditório da Cemig, em Belo Horizonte, na noite da última quinta. E só fui trazida de volta à consciência (ou ao chão) porque, do outro lado da rua, um flanelinha não se conteve e gritou: “Tá feliz, hein, moça”. E aí eu me dei conta de que, além de provavelmente estar flutuando, eu estava também rindo de canto a canto. Confesso, fiquei tentada a guardar o riso para que não me achassem uma boba pela rua afora. Mas não deu. Eu estava feliz demais para conseguir disfarçar ou para preocupar com o que os outros iriam achar. Continuei flutuando, rindo e falando até. Repetindo para eu mesma as únicas frases que trocamos. “Gosto do seu nome, é o nome da minha filha”. “Eu também gosto do seu, é o nome do meu pai”. Fiquei orgulhosa por ter conseguido responder mesmo estando com o coração na boca. E mais orgulhosa ainda por ele, com fama de ser tão econômico em suas falas, ter dispensado uma frase a mim.

Pensei em sair ligando para todo mundo mas, possivelmente, muita gente não entenderia minha euforia. Então deixei para contar tudo aqui. Porque se você é leitor de um blog chamado Crônica do Dia, certamente conseguirá ter noção de como eu me senti estando diante de Luis Fernando Verissimo.

Costumo ser pontual, mas esse era um dia para exageros. Cheguei, portanto, com uma hora de antecedência. O auditório ainda estava fechado, mas nem liguei. Matei o tempo folheando alguns dos seus livros que estavam expostos num estande. “Comédias da vida pública”, “Comédias da vida privada”, “O analista de Bagé”, “Comédias para se ler na escola”, “As mentiras que os homens contam”. Os mesmo slivros que me despertaram para a leitura por prazer – e não para ganhar pontos na prova de literatura. Os mesmos que me fizeram descobrir o que eu gostava de fazer e o que eu queria fazer. Livros que determinaram praticamente tudo em minha vida, a partir daquela época, entre a infância e a adolescência: minha escolha profissional, as relações que construí, os outros livros que li e até os mil e um textos bobos que escrevi.

O que seria, então, uma hora de antecedência para quem esperou, sei lá, quinze anos? E, de repente, aquela figurinha gordinha e simpática desenhada na capa de seus livros surgiu no palco, diante de mim – devidamente grudada na primeira cadeira - e de uma plateia lotada. E ele não estava sozinho. Minha referência literária veio acompanhada de minha referência jornalística: Zuenir Ventura – assustadoramente parecido com meu avô, falecido em 93. Meu queixo tremelicou e eu amparei a lágrima com o dedo indicador.

Eles estavam ali para falar do livro “Conversa sobre o tempo”, no qual os dois, amigos de longa data, dialogam sobre vários assuntos, com mediação do jornalista Arthur Dapieve. Mas falaram sobre muito mais. Veríssimo sucinto. Zuenir prolixo. O falso tímido e o falso extrovertido, como eles contaram que são chamados por um amigo. Veríssimo falou sobre sua amizade com Clarice Lispector – era 9 de dezembro, aniversário de 23 anos de sua morte. E eu quase chorei. Zuenir contou sobre o dia em que ele foi dado como morto. E eu quase chorei de novo. De rir.

Cada palavra que eles diziam provocavam uma reação em mim – como fazem cada palavra que eles escrevem. Eu havia convidado algumas pessoas para irem comigo mas que, por diversos motivos, acabaram desistindo. Com todo amor que eu tenho por essas pessoas, naquele momento, achei foi bom. Não tinha ninguém para conversar comigo, para me tirar daquele estado de plenitude. Na minha cabeça, era como se existisse apenas eu, Veríssimo e Zuenir naquele auditório.

Tanto que não resisti e fiz uma das poucas coisas que me deixa tímida nessa vida: encarnei a tiete. Tirei foto, peguei autógrafo no meu livro. Fiz tudo o que as pessoas costumam fazer diante dos seus ídolos. Acho, aliás, “ídolo” uma palavra muito forte, que em minha vida se aplica em casos raríssimos. Como este.

Quanto ao livro, um deleite. Todo mundo deveria ler. Só não me peçam emprestado porque meu exemplar autografado eu não empresto nem para minha mãe (desculpa, mãe).



Comentários

vanessa cony disse…
Que delícia,então!!!
Parabéns.Pessoas que influenciam nossa vida de uma forma positiva devem ser encaradas com todo o carinho,né?
Beijo Fernanda.
Fernanda, se o Luís Fernando lesse sua crônica, acho que o flanelinha dele também diria que ele está muito feliz. Quando a gente se encontrar pessoalmente, eu lhe conto do tempo em que eu fazia imitação do Verissimo. :)
Jujú disse…
Concordo com o Eduardo, se o Veríssimo lesse sua crônica ficaria pra lá de orgulhoso e feliz!

E eu tb estou amiga, porque sei como é bom estar perto do seu ídolo, poder dizer algo, receber uma palavra, um olhar...

E vc mereceu cada momento, o seu momento!

Beijos

P.S - Fiquei me imaginando conhecendo a Fernanda (dos Montenegro!rs), acho que gostaria de estar sozinha tb! E choraria... (não apenas uma lágrima, aposto!rs)
Otoniel Falcão disse…
Lindo o texto. Acho que por ser tão sincero... Senti falta das fotos :(
Os criadores com sua doce criatura. Eu não vou me surpreender quando seu nome estiver junto ao deles. Aliás, espero ansiosamente por esse dia! BEIJO.
albir disse…
Fernanda,

inveja a parte, parabéns!
fernanda disse…
Vanessa: pois é, menina, quase apertei o moço de tanto carinho!

Eduardo: me lembrarei de te perguntar sobre isso. Pode apostar!

Jujú: é isso mesmo, amiga. O Verissimo está para mim assim como a Montenegro está para você.

Otoniel: fiquei com vergonha de colocar as fotos aqui (:

Thatha: meu nome e o seu, né?

Albir: eu também invejava quem já tinha passado por isso antes...rs

Beijos!!!
Carla Dias disse…
Que delícia, Fernanda! Nada como encontrarmos nossos ídolos e os apreciarmos assim, de perto, de coração aberto.
E concordo com o Eduardo... Luis Fernando Veríssimo ficaria muito feliz ao ler a sua crônica : )

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …