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A PRIMAVERA DOS CADÁVERES
>> Leonardo Marona

“Estar mortalmente doente é não poder morrer”
(E. M. Cioran)



O embate cresce na carne por dentro das unhas, longe da filosofia. É claro que caímos de duras quedas, e os holofotes não são mais os mesmos: desbotam a cor. A vontade de viver é diariamente compensada com presságios de fim de mundo, de fim dos homens. Mas nós permaneceremos, justamente porque foi dura a queda.

A conclusão patética: compartilhamos diariamente nossos neurônios com a terra que, em troca, não nos esclarece nada. Somos, em suma, desprezíveis, com a nossa interioridade revoltada, com nossos órgãos expostos, com nosso aspecto amoroso. Mas somente o que é desprezível pode ser santificado. E só um louco seria um santo. Acreditamos em pragas irreversíveis, carregamos flores entre os dentes. Estamos aqui, estamos em lugar nenhum. Somos o que é enquanto é apenas, e trata de ser pouco.

E não teremos empregos, ou teremos qualquer emprego: e não será por falta de habilidade prática, bem mais será porque a ocupação profunda (e ao mesmo tempo intangível) de nossos dias nada terá que ver com a progressão de um falso estado de conforto de uma profissão decente, passível de carreira e méritos. E isso poderia ser grandioso, talvez o seja para alguns ingênuos (e que sorte a deles!), mas para nós é a confirmação tácita de uma patologia corrosível, do não-fazer devido à dúvida sobre a existência, quando giramos a seta das ações para um questionamento diverso de tudo: estou fazendo isso para chegar aonde? E o clichê do não-lugar se estabelece como um fardo, então nos escondemos em quartos escuros e compensamos nossa terrível situação de demência motivacional com divertimentos e rezas, e então nos tornamos bêbados ou santos, ou os dois. Porque o que está oculto: é isso que nos amedronta; e quão ridícula pode ser uma existência sem asas enormes, da qual não colhemos senão as memórias sensíveis de fragmentos incoerentes, e não sabemos, a cada passo, se devemos dar o próximo, porque os passos contradizem-se com seu próprio mérito: não nos levam a lugar nenhum, e não seriam necessários, mas pensamos nisso com asco. E como a completude ilimitada da infância se tornou uma caixa de remorso dentro do esquecimento, atrasamos essa infância o quanto pudermos, e nos tornamos infantes terríveis, que são os adultos de coração frágil aprisionados no espanto, porque sabem que só há felicidade no espanto, e os adultos auto-afirmados são pessoas que já não se espantam com nada.

A angústia – que fica mais poética e, portanto, falsa como o dasein de Heidegger – é saber que não demos nem meio passo a frente. Quer reconheçamos as nossas responsabilidades como ativos no planeta segurando a batata quente de fazer a função de deus, quer contemplemos novos paradigmas andando de casa até a cafeteria. O grande sarcasmo da existência humana: seja lá o que nos criou, não é responsável por nós. Portanto, nascemos com essa fissura, esse espaço de difícil preenchimento que é o espaço entre existir e ser.

Pensando em para frente e para trás, andamos milênios para os lados. Pusemos abaixo os impérios e as crendices, e para o sangue gasto inutilmente demos o nome de justiça. Duro é saber que a justiça real precede os homens, que a um terremoto fulminante não se pode convencer com idéias. Pusemos no chão as paredes mais sólidas, as paredes que nos impediam de pronunciar nossos próprios nomes. Mas agora que temos nomes, não sabemos pronunciá-los. Mais difícil seria admitir a comicidade dos atos monstruosos, a forma como a calamidade que nos cala mais fundo faz rir forças externas a nós, no sentido de que somos marionetes manuseadas por matemáticas funestas – e estão aí muitos exemplos dos mais bizarros para acreditar nisso mais do que em qualquer outra coisa. E depois de derrubarmos tanto, por tanto tempo, o que faltará ser derrubado além de nós mesmos, inchados e esterilizados com nossas filosofias? Na ânsia de legitimar uma luta impossível, entramos num picadeiro com algumas cartas na manga.

Da Síndrome da Fonte da Juventude ou Uma Leitura Imprudente de Bergson:

O tempo é a nossa sereia. Somos apenas capazes de acreditar naquilo que o tempo, através da nossa percepção, não atinge: dinheiro, um diploma, um retrato – essas coisas demoram anos e continuam imutáveis, ou melhor, são voláteis, expandem-se, mas sempre retornam a um certo estado comum. Daí o drama humano: com honestidade, teríamos que admitir que não acreditamos uns nos outros, independentemente de qualquer boa vontade, simplesmente porque mudamos com o tempo, porque, ao contrário das coisas nas quais acreditamos mais profundamente, somos corrompidos pelo tempo, nos absorvemos dele até nos tornarmos o próprio tempo, num movimento crescente e irreversível. O tempo é a sereia, o agiota. E fomos adestrados para nos mantermos distantes de sereias e de agiotas. Assim nos ensinaram nossos pais e assim ensinaremos nossos filhos. Uma farsa do princípio ao fim. Ao menos, uma farsa toda nossa. Porque somos a memória aleatoriamente acumulada do que seremos.

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