sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

PINOS SOLTOS NUMA MÁQUINA DE MOER SENTIMENTO >> Leonardo Marona

Não tenho como falar de mim mesmo, como escritor, o que me é bastante difícil fazer, sem falar da minha geração como um todo, da maneira mais generalizada possível. Acredito que o principal problema da minha geração é que perdemos o sentido de viver para o novo. E o novo perdeu o sentido da sua existência: se tornou uma batida inorgânica num compasso pobre. Nascemos numa época em que tudo já foi feito, tudo já foi absorvido devida e indevidamente por oportunistas e gênios. O que mais vejo por aí são idéias muito velhas maquiadas de novas. Os jovens desaprenderam a gritar, o grito hoje, quando sai, sai torto, rouco, um pigarro. E existem três tipos de jovens: os resignados, que eu prefiro chamar de calmamente desesperados, na maioria suicidas em potencial; os artistas, que preferem muito mais falar sobre sua intensidade e suas rupturas flácidas do que fazer alguma coisa de fato para o mundo (são os maiores umbigos do mundo. Vivem por aí nas rodas de café com seus cachecóis e seus livros debaixo dos braços); e os sufocados, os da corda no pescoço, aqueles que se acumulam de si próprios ao tentarem abraçar o mundo com todo o seu lixo e sua beleza e sua mediocridade, mas que não podem simplesmente se afastar. São espíritos antigos que nasceram em corpos contemporâneos. E são estes últimos os últimos também a serem reconhecidos pelos críticos e órgãos de cultura em geral. Simplesmente porque não se adaptam a regras e tendências. Não vendem, justamente porque ninguém mais sabe o que comprar. Primam por uma liberdade estética e de conteúdo porque sabem que ali, no elástico, está o novo, que é um germe antigo no fim, a possibilidade. Mas são os que morrem de fome também.

Se tivesse que falar por mim mesmo, que escrevo, teria que começar por um paradoxo tremendo: o processo da escrita, o que chamam de “processo criativo”, é pra mim um movimento semelhante ao da golfada de um nenê. Eu me volto totalmente a mim mesmo, esqueço por um tempo tudo que não seja eu, me engrandeço da melhor forma possível com isso, justamente para conseguir me expulsar de mim mesmo e de tudo o mais que seja categórico ou convencional; para me afastar das tendências e das quebras de tendência, que são tendências da mesma forma. Acho que comigo esta fórmula funciona, senão muitas vezes em termos formais e de conteúdo – porque se não temos do que falar não adianta termos a escrita de um Hemingway –, pelo menos no que diz respeito à sinceridade e à emoção. É quando me exponho sem ser eu mesmo. Quando toda a carga cotidiana que me sufoca sai de mim na forma de letras uma depois da outra. São tijolos que ficam durante uma ou duas semanas me esfolando os ombros, para depois se tornarem o meu casebre. Eu tenho que fazer dessa forma, ou então seria apenas mais um apertando botões ou fazendo gordas doações para uma instituição da consciência geral de aceitação própria. Não preciso realmente ser aceito no mundo da forma convencional. Não preciso de nada. Tenho o que comer, onde fazer minhas necessidades, onde dormir, o que beber. Com isso tenho tudo o que mais da metade do mundo não tem. Portanto, como se diferenciar? Como limpar uma camada suja e grossa de conformismo e calmaria? E, vejam bem, este conformismo é muito bem disfarçado com camisas rasgadas, bebedeiras intermináveis e cantos de revolução, por jovens como eu em bares, festas e em grupinhos fechados para uma mútua aprovação. A única maneira é andar pra trás para olhar por cima da montanha de lixo. Picasso fez isso. Foi lá atrás, veio com suas máscaras africanas e com suas linhas deformadas, e até hoje continua sendo o que há de mais moderno e, acredito eu, será moderno ainda por muito tempo.

Eu falo sobre mim falando sobre os meus contemporâneos apenas porque não consigo me excluir, não corro, abraço, boto a cara pra bater e apanho bastante com isso, é claro. E é claro também que dessa forma corro os mais perigosos riscos de morte fulminante num domingo à tarde, mas me parece que o agrupamento das pessoas em pequenos nichos – os punks, os escritores, os cineastas, os fanfarrões – é o que há de mais acachapante, o que nos atrasa em relação às outras épocas, nos traz de volta à era medieval. Acredito num futuro prático e num passado criativo. Tento levar minha vida assim. Temos a tecnologia a nosso favor, mas simplesmente parece que perdemos o fervor, a dúvida, aquilo que aquece a barriga, enfim, somos cada vez mais como pedras, mas sem mais nenhum João Cabral de Melo Neto passeando por aí.

Dessa forma, deveria haver uma completa reciclagem da massa produtiva. A ruptura vem exatamente da troca de valores. Vejam como pode ser bom e revigorante: não precisamos mais recorrer às armas. Não precisamos ser Alexandre O Grande para erguer civilizações. Precisamos do contrário disso: saber pensar, nos colocar nos nossos devidos lugares. Os órgãos de cultura precisam voltar a privilegiar a tentativa, o escape, precisam se mexer, observar melhor, aprender a dançar e escapar da caretice do que é retrógrado sendo apenas explosivo ou desesperado. Isso fatalmente estimularia os jovens a se mexer também e a mudar seus discos na vitrola. Esse clima mundial de repartição pública que precisa ser revisto. A melancolia, a resignação, precisamos andar no tempo. Quando quem não tem muito o que dizer diz muito, forma-se um vácuo na cultura, cria-se a ilusão de progressão para um nada maior. Claro, ouvi histórias de tempos heróicos, de grandes passeatas, punhos cerrados por uma causa qualquer. E isso hoje é motivo de piada em bar. Os jovens passam hoje por uma tremenda paralisação dos sentidos. Até as drogas mais atuais são as mais paralisantes, como anestésico para cavalo. Ninguém quer ver mais nada, ouvir mais nada, nos trancamos nos nossos quartos e ligamos nossos aparelhos de som. Fugimos de nós mesmos e da nossa completa falta de atitude. Somos os jovens mais velhos que o mundo já teve. Viveram por nós e agora vem nos dizer que nada mais precisa ser feito. Uma pinóia! Precisa existir alguém, algum órgão público seria o ideal, que diga não à banalização. Precisamos dar um ponto final às antigas regras e teorias e antigas maneiras de se viver e aceitar. O cansaço vem delas. Elas são velhinhas de 100 anos puxando uma carroça com porcos em cima: nós, os jovens, que deveriam fazer alguma coisa. Mas preferimos dançar de olhos fechados ou representar tipos excêntricos: os literatos tímidos, os micareteiros deslumbrados, os suicidas tragicômicos e por aí vai...

Temos que deixar a representação pros palcos e sets de filmagem, ou então estaremos confinados a um mundo como um set de filmagem, apertado demais pra tanto flash e maquiagem. Eu me sinto como um pino solto da máquina do mundo. Hoje são os velhos que dizem novamente o que fazer. Ontem éramos nós que dizíamos ao mundo o que deveria ser feito. Existe o medo de errar, é claro. Mas não tentar me dá muito mais medo ainda. E, pensando bem, com a mediocridade instalada inclusive pelos órgãos de cultura e autorizada por governos, editoras, gravadoras, museus de arte moderna e qualquer outra fundação que estimule a produção comercial de arte para uma massa de cegos, surdos e mudos, eu certamente tenho mais chances do que Van Gogh teve.


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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Muito importante essa discussão, Léo. Mas tem alguma coisa estranha na sua proposta: "Precisa existir alguém, algum órgão público seria o ideal, que diga não à banalização." Para mim, não existe órgão público, existem pessoas em órgãos públicos. E, entre os três tipos de jovem que você definiu (resignados, artistas e sufocados), não vejo quem possa entrar no serviço público para dizer não à banalização: ou não terão energia para dizer o NÃO ou não terão espírito público. Então esse alguém que precisa existir é normalmente que está puxando a discussão. É você. Sou eu. O que poderíamos fazer? :)