domingo, 12 de dezembro de 2010

PEPETA PEPETA >> Eduardo Loureiro Jr.

Estou desaprendendo a escrever. E não tem nada a ver com falta de inspiração. Continuo respirando bem — inspirando e expirando, inspirando e expirando — sem a ajuda de aparelhos.

O aprendizado da escrita foi um aprendizado de comunicação: uma desfeita para com a minha timidez. Mas agora as coisas que faço fazendo sentido para os outros não são feitas fazendo sentido para mim.

Hoje eu prefiro as palavras assim:

tanta coisa pra dizer e só me vem
pepeta pepeta
tanta coisa pra dizer e só me vem
pepeta pepeta
o que eu tenho pra dizer é o céu
és o céu na terra e a terra é o céu 
pra quem gosta de aventura 
a vida dura é feito mel 
tanto fala até que muda 
a vida à moda do céu
é preciso ser criança pra dizer
pepeta pepeta 
cada um pode sentir que quer dizer
pepeta pepeta


Não, não se trata da linguagem incompreensível dos excessivamente intelectualizados. É um desaprender da escrita que já é quase desaprender da fala. Música tendendo ao murmúrio. Dizer coisa sem coisa.

Qualquer temporada dessas, desaprendo o próprio som. E ressoarei somente o solfejo do silêncio.

Partilhar

7 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Eduardo, eu sempre acrditei que nossa existência vive em constante dinâmica. Então, às vezes, é necessário desaprender para reaprender ou aprender de uma outra forma. É preciso morrer para renascer.Se um dia, você tiver que desaprender o som, com certeza será para que seu silêncio diga mais que muitas palavras. :)

Marisa Nascimento disse...

Esqueci de dizer que adorei os versos de "Pepeta, pepeta". Será que o esquecimento é sinal que as palavras estão partindo de mim? :)
Bjs

fernanda disse...

Que lindo, Eduardo. Acho que preciso desaprender a escrever como você. Mas antes ainda preciso aprender...

Marilza disse...

Edu, a gente nunca desaprende. Pelo contrário, a gente aprende de outra forma, outra maneira.
Parabéns pelo texto. Quando eu chegar a esse estado seu de desaprender, ficarei feliz! rsrs

albir disse...

Edu,
eu também prefiro as palavras assim. Seja assim como for.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Gente querida, espero que nunca ocorra a vocês a vontade de desaprender a gentileza que vocês têm comigo. :)

Carla Dias disse...

Desaprender é uma coisa tão interessante, porque depois lidamos com o aprendido e depois desaprendido com muito mais delicadeza...