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ELA E O MAR >> Carla Dias >>


estarei eu um desalguém,
ou não haverá mais eus sem fartas sombras
e eu é que deliro de mim
- ou não haverá mais reflexão
senão formatada de sombra do que emana
por acolá?!
Zeh Gustavo, do poema Desespaço


Ela é moça direita, e sabe que cobiçar é pecado dos grandes. Porém, não é somente ela que permite o olhar vaguear pelo horizonte. Cobiçar uma jornada lá pra mais adiante é cobiça ‘despecaminada’, como costumava dizer a tia, quando queria cometer pecadinhos com o aval dos deuses.

Gastou um bom tempo observando a lonjura, o mar a sua frente, tão largo que não cabia na janela do olhar. Gastou esse tempo também torcendo a barra da saia, como se trançasse a trilogia das expectativas sobre a mudança. Ao seu redor, pessoas assanhadas com o feriado, clicando suas câmeras fotográficas, ansiosas por chegarem a suas casas e jogarem o horizonte nos seus computadores. E então, assistir ao mar em forma de pixels, inerte, congelado. Depois esquecê-lo num diretório com nome do qual jamais se lembrarão, e que acabará na lixeira na próxima limpeza virtual, sem que seja conferido o seu conteúdo.

Sempre foi fascinada pelo mar, por encará-lo de frente. Durante as horas em que costuma passar diante dele, ela escreve uma autobiografia silenciosa e criada apenas para suprir os seus desejos. Nas autobiografias desveladas em pensamento, no afã da sua criatividade, ela já foi guerreira ganhando batalhas, uma Joana D’Arc ainda mais destemida, defendendo uma crença, um sussurro em seu ouvido, uma voz escancarando o seu dentro. Também viveu seu quê de desbravadora, de menestrel, de estrela das artes, assim como compartilhou a refeição única do dia com aqueles que compartilhavam da sua condição de itinerante.

Fossem capazes de lê-la de dentro pra fora, as pessoas não fotografariam lembranças para colecionarem já com a pretensão de esquecê-las. Usariam sim este tempo para a compreensão de que as mudanças são constantes, às vezes tão rápidas, que tatuar momentos na alma da gente é uma forma eficaz de mantê-los vivos. Não fabricariam memórias esquecíveis em computadores ou papel fotográfico, mas sim viveriam essa memória inteiramente, até que ela fizesse parte deles como faz parte dela agora. Não há como subtrair da alma de uma pessoa a beleza de uma lembrança.

Saiba que ela nada tem contra computadores e fotografias. Ela mesma comprou notebook e câmera fotográfica em várias prestações. Pagou a antepenúltima ainda ontem. Não é a tecnologia que a incomoda, mas sim como as pessoas depositam nela o dever de ser a extensão segura de suas vidas. Há coisas que devemos viver de acordo com o nosso pulsar, que precisam ser experimentadas sem apego à facilidade. Às vezes, é preciso sentir, ao invés de registrar. Mergulhar em algo, ao invés de colecioná-lo no álbum de fotografias.

Como esse amor que ela sente... A cobiça que considera pecado por acreditar que não merece que a amem de volta. Pensa que alguém que vive as suas aventuras mais ricas, enquanto o seu olhar se afoga no mar; enquanto se perde na imensidão do seu dentro, nesse jeito onde não cabe outro senão os seus inventados, alguém assim não pode merecer que lhe toquem as mãos em conforto, demonstrando apreço e oferecendo companhia. Numa das suas autobiografias inventadas, ela consegue apenas olhar esse amor como agora olha para o mar.

E enquanto ao seu redor as pessoas angariam imagens ao clicarem suas câmeras, e falam todas ao mesmo tempo, criando um burburinho ritmado, ela esquece a si no horizonte, na imensidão do mar, na impossibilidade de mostrar a eles o que, dentro dela, acontece: desejo cingindo mudanças, uma sinfonia de acontecimentos, ora dóceis, ora tempestuosos. Tons e semitons, rupturas e aconchegos. O amor dado e recebido, horizontes fora de diretórios, mar em movimento.

A vida acontecendo.


carladias.com

Comentários

fernanda disse…
Que lindo, Carla. Me lembrou a música Ana e o Mar do Teatro Mágico, conhece? Beijos!
"Não há como subtrair da alma de uma pessoa a beleza de uma lembrança." Eia a pérola que encontrei nesse seu lindo mar, Carla.
vanessa cony disse…
É Carla,as palavras ditas em tom de poesia é privilégio para poucos...
Lindo seu texto,belas palavras.
Beijo no seu doce coração.
Fernanda disse…
"Não há como subtrair da alma de uma pessoa a beleza de uma lembrança"

que coisa mais linda !!!
albir disse…
Que beleza, Carla! Dá vontade de mergulhar.
Lindo, Carla! Profundo e envolvente como o próprio mar...
Bjs
Juliêta Barbosa disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Juliêta Barbosa disse…
Carla,

Ler você é um eterno aprendizado sobre sensibilidade e delicadeza.

Obrigada, pela partilha de tão belo texto.
Carla Dias disse…
Fernanda... Conheço sim a música. Linda, não? Beijos!

Eduardo... Que bom que encontrou algo nesse mar meu. O que encontrou é seu!

Vanessa... Obrigada pelo gentil comentário. Beijos!

Fernanda... Tem certas coisas que ninguém nos tira, não? Nem mesmo nós mesmos...

Albir... Mergulhe! Sinta-se em casa-mar.

Marisa... Obrigada. Beijos!

Juliêta... Obrigada a você por me permitir partilhá-lo
Juliana Évylin disse…
Seu texto é magnífico, tem conteúdo, tem beleza, dar prazer de ler, é simplismente espirituoso, expressa com clareza os sentimentos da personagem, faz com que você não só leia,mais mergulher com a personagem nos pensamentos mais profundos. Parabéns! suas crônicas merecem prestígio.
Carla Dias disse…
Juliana... Fiquei muito feliz com o seu comentário. E me faltam palavras para agradecê-la. Beijo!

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