sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

EU TE ODEIO PORQUE NÃO POSSO VIVER SEM VOCÊ >> Leonardo Marona

Estive recentemente à beira-morte, então decidi ir à beira-mar para me despedir de mim (faço isso semanalmente). Fiquei vendo as mulheres com seus biquínis de crochê cavados e os homens como focas jogando bolas para cima com todos os músculos enrijecidos ao mesmo tempo, sem saber o quanto isso fica ridículo quando não é você quem está fazendo o esforço. Rapidamente me esqueci de morrer, o que tem acontecido também semanalmente desde as últimas férias em Miguel Pereira, eu lá caindo da bicicleta e me fingindo de mendigo com um cordão bloqueando a estrada para ganhar uns trocados extras enquanto enterravam minha mãe e ela tinha apenas um resfriado, segundo me disseram.

Sempre me inclinei a inventar teorias idiotas para explicar assuntos que não conseguia compreender. Isso servia de alívio momentâneo quando a cabeça parecia a ponto de explodir, como agora, por exemplo, quando não consigo infelizmente usar as palavras que queria ter usado lá atrás, ao começar isso daqui. E parece tão tarde, às oito e meia da manhã, que não sinto sono algum. Talvez devesse ter me despedido melhor. É tarde. Na praia não foi diferente.

Para formular minha teoria sobre como se comportam homens e mulheres quando estão todos juntos num espaço específico, mental e fisicamente seminus, sentei na areia e tirei meu bloco de anotações da mochila, o que imediatamente alterou o gestual de dois garotos, ambos com franjas enormes, que me impediam de ver seus olhos, e muitas espinhas. Nenhuma menina, no entanto, mudou em um milímetro sua trajetória, nem mesmo desviou um olhar, absolutamente nada aconteceu nesse aspecto, o que logo me fez concluir que mulheres são menos suscetíveis do que meninos, até porque meninos continuam meninos enquanto mulheres já são mulheres antes dos meninos entenderem o que é uma mulher.

Procurei me concentrar nos jovens adultos da espécie e procurei, é claro, idades próximas de ambos os sexos para analisar friamente os comportamentos.

Uma menina entra na água: aos pulinhos. Ela é bem próxima da plenitude dos movimentos sincopados. Talvez fosse mais que a plenitude, afinal, da plenitude não se passa, e ela tinha passado correndo por tudo, deixando apenas delicadas marcas das pontas dos seus pés na areia. Cada deslocamento de músculos e ossos parece repicar em pausas fotográficas. No que aparece um cotovelo coberto de areia, logo atrás vem uma perna com uma pequena cicatriz na altura do joelho. E então, enquanto você observa uma perna, a bela cicatriz no formato de uma harpa, surge um tornozelo com fita do Nosso Senhor do Bonfim, mais uma covinha em cada nádega, apenas para que você derrame seu chá mate na toalha, veja tudo em tom sépia e invente uma nova bossa nova velha.

Ela tem os cabelos crespos, cheios e vermelhos. A pele curtida de sol, sal e iodo, do tipo exportação. Já está na idade em que os músculos, até então afilados e torneados como os de um filhote de gazela, começam a ganhar formas arredondadas e desajeitadas, quase exageradas. A menina ainda não sabe o que acontece à sua volta, quantos garotos enchem os pulmões de água salgada, erram o chute na bola, tropeçam nas próprias pernas e caem, são obrigados a se sentar e enrubescer, escondendo com as mãos a vergonha, quando ela passa com desleixo e indiferença os dedos pelos cabelos por detrás das orelhas que sustentam enormes penas coloridas presas em argolas de prata nos lóbulos. Mas seu sorriso sem dentes num traço de olhos baixos distante mostra que talvez seja tudo um jogo pensado. Ela começa devagar a entender que, de uma mulher linda, qualquer ato singelo, como ajeitar os cabelos atrás das orelhas e inclinar a cabeça, pode causar um cataclismo em quem ainda não sabe de onde realmente vem a asma.

Mas ela, apesar de ser toda mulher sem saber como usar tanto todo, tem ainda uma grande parte de doçura, de infantilidade desprevenida que derruba seus olhos no chão, sem saber para onde apontá-los já que todos em volta os têm para sempre aprisionados nas piores perversões. E eu mesmo me sinto envergonhado por pensar nela como uma mulher.

Detalhe interessante: ela não entra imediatamente na água, de corpo inteiro, num mergulho. “Isso é coisa para animais ou pescadores”, diz a uma amiga quando perguntada, enquanto o pente vermelho se perde derretido dentro dos seus cachos de lava. Primeiro se levanta sem usar as mãos, os pés cruzados servem de alavanca para o corpo. Bate com as mãos delicadamente nos dois sorrisos hipnóticos desenhados pela rigidez das nádegas, para tirar o excesso de areia e causar mais algumas arritmias respiratórias. Ajeita então a frente do biquíni. Sorri para uma amiga que também sorri – preliminares de duas vidas fadadas à eterna felicidade plástica. A amiga galopa ao seu lado, outro exemplo de generosidade genética. E já ninguém sabe mais o que fazer com os olhos. Os meus eu enterro na areia e os perco assim como perdi os chinelos. Mas de algum lugar eles ainda podem ver.

Ela joga água nas axilas, apanha um pouco para o próprio rosto. Gargareja e deixa a água escorrer sorridente pelo corpo. Mais quatro passos, deixa a onda lhe cobrir a cabeça. Com o dedo tampa o nariz. Sai correndo e sorrindo baixo para fugir de outras ondas mais fortes. Ainda não sabe que do seu corpo se forma a onda mais forte da arrebentação. Dispensável dizer que um homem vê esse conjunto de movimentos em câmera lenta. A menina volta no trote, corpo todo vapor, alma tordilha escoa pelas narinas infladas, torce os cabelos pelo lado direito dos ombros. Na impossibilidade dos olhos, posso ver sua omoplata sorrir. E então ela volta correndo para sua canga, seu noivo, um sujeito que, com todo direito, tem o semblante acabrunhado.

Minutos depois, a cargo de comparação, vejo um grupo de quatro rapazes: dois parecem irmãos porque gastam muito tempo batendo um no outro, cuspindo e jogando areia, rindo. Outro é um japonês bem baixo e magro, como um japonês costuma ser, mas sem queixo, com largas bolsas de gordura debaixo dos olhos, dentes confusos. Parece ser o mais velho, ou o mais carente, ou talvez o fato de parecer velho demais para sua sunga florescente o tivesse deixado melancólico, até mesmo histérico, porque permaneceu um bom tempo sozinho rolando na areia – enquanto os outros faziam cara bandida com seus óculos escuros e seus cordões de prata – até afogar subitamente o quarto deles: um rapaz cuja procedência eu não saberia determinar, possivelmente armênia ou turca. Com enorme nariz adunco, boca escancarada, talvez por causa de algum problema respiratório ou de ordem mental, como é o mais alto, e de relance parece também o mais brutalmente feio e desajeitado, quem sabe até o mais romântico, é também o mais violento. Revida o golpe jogando um coco na cabeça do japonês que, por segundos, gira os olhos em convulsão.

A certa altura dos acontecimentos, sem conhecer maneira mais civilizada de chamar atenção, os quatro começam a se atravancar uns sobre os outros com mãos e fundilhos cheios de areia e guinchos desafinados por causa da masculinidade ainda em processo de formação. Um força outro a engolir areia, outro puxa as calças de um terceiro, que grita mais alto, e um quarto rola na areia espantando as criancinhas em volta, que fogem aos prantos com seus baldes.

Em suma: são homens já feitos de corpo, assim como a menina, mas, mesmo assim, em grupo, parecem contentes ao se comportarem como animais selvagens. Isso não os incomoda e, afinal, por que deveria? Estão em grupo no seu habitat, agindo de acordo com seus costumes, comendo areia e rindo disso. Nada estranho.

Mergulhei em anotações digressivas:

Homens são animais que, na maioria dos casos, andam em grupo, pensam aquilo que um pequeno grupo influente determina e exercem força estúpida e patética, geralmente de fundo tragicômico e desesperado. Mulheres são animais que se desenvolvem fisicamente mais rápido – e talvez isso também influencie seu desenvolvimento mental prematuro, pois ao comprovarem a rápida evolução física diariamente diante do espelho, são obrigadas a compatibilizar seu raciocínio e até mesmo sua sensualidade com esta realidade orgânica mutante. Mulheres não andam exclusivamente em grupos. Não precisam de grupos para se sobressair. Inclusive, quando em grupo, mulheres tendem a ser mais críticas e competitivas que os homens, até mesmo mesquinhas e cínicas porque, ao tomarem mais cedo conhecimento da individualidade de um corpo em ebulição, entendem que atributos físicos levam à guerra, mais cedo ou mais tarde. Por isso alguns rapazes menos afeitos a sutilezas consideram as mulheres insensíveis e traiçoeiras, até entenderem que isso que sentem por elas se chama paixão e é tudo que existe de trágico e irreversível misturado de modo a gerar boa impressão aos inocentes românticos que têm medo de chorar.

Todos os movimentos femininos são mais sutis e delicados, porque bem antes elas percebem o quanto o corpo precisa estar em comunhão com o cérebro para funcionar satisfatoriamente. Mas é lógico, isso não significa necessariamente que sejam seres frágeis, e sim um progresso mental mais acelerado – é só perceberem que as mulheres mais vulgares também são as mais machistas. Além do que, as mulheres acabam sendo mais perceptivas porque, pela condição alienígena que lhes é imposta fisicamente desde bem cedo (culotes desastrados, peitos inchados e doloridos, corrimentos em meio a fiapos humanos ainda sem pêlos), conhecem antes a solidão.

Ou talvez isso signifique apenas o bom uso da fragilidade, enquanto que nós homens, com medo do fato de sermos fisicamente bastante ordinários, precisamos nos livrar da mediocridade física da nossa puberdade tardia para nos sentirmos competitivos e atraentes, o que implica luta física, em boa parte das vezes.

Trata-se do velho esquema “macho provedor que vai à selva atrás do maior antílope” enquanto as fêmeas se divertem com os machos mais sensíveis (entre poetas, rendeiros, ceramistas, profetas, vagabundos) que, portanto, são excluídos do grupo de machos da aldeia e – quando não morrem logo assassinados – adotados pelas fêmeas por sua sensualidade. As relações humanas podem ser facilmente resumidas neste esquema, em todas as classes sociais, se formos capazes de assumir nossa evolução animal desde o macaco.

***
Volto para casa confuso – acontece sempre que fico muito tempo debaixo do sol e vejo muitos corpos juntos que brilham – inutilmente tentando montar uma teoria ampla e definitiva que determine exatamente por que animais de mesma espécie, habitat e idade são capazes de se comportar de modo tão radicalmente oposto e, na mesma medida, se desejarem tanto.

Chego em casa e olho a foto dela na estante. Súbito, jogo a foto pela janela. E quando vejo estou com o telefone na mão, gaguejando.


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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Léo, você juntou duas coisas que gosto demais: descrição de mulher e teoria sobre a humanidade. :) Tudo muito bem inserido numa viagem cotidiana pessoal.