sábado, 4 de julho de 2015

CÉU, EU TE AMO! >> Sergio Geia




Tenho mania de ficar escutando música ativamente em busca de preciosidades poéticas. Quando eu falo escutar, eu falo escutar mesmo, me jogar de corpo e alma na canção e me deixar emocionar. Ponho o CD no aparelho, encho o copo de uísque e viajo.

Achei muita coisa boa no último CD do Chico. Na música Sem você 2, por exemplo: “Pois sem você o tempo é todo meu / Posso até ver o futebol / Ir ao museu, ou não / Passo o domingo olhando o mar / Ondas que vêm / Ondas que vão”. É melancólico, tá, eu sei, mas acho bacana. Acho que ele consegue captar um instante mágico – o cara se separou, tem o tempo todo pra ele (era o que queria), mas parece não estar feliz. Em Nina: “Nina diz que fez meu mapa / E no céu o meu destino rapta / O seu”. Acho isso maravilhoso: no céu o meu destino rapta o seu. Em Sinhá, Chico dá um show. Ele conta a história da sinhá que se envolve com um escravo. Será que se envolve mesmo ou é cisma do senhor de engenho? O escravo se defende: “Se a dona se banhou / Eu não estava lá / Por Deus Nosso Senhor / Eu não olhei Sinhá / Estava lá na roça / Sou de olhar ninguém / Não tenho mais cobiça / Nem enxergo bem / Para que me pôr no tronco / Para que me aleijar / Eu juro a vosmecê / Que nunca vi Sinhá”. No final, Chico desvenda o mistério: “E assim vai se encerrar / O conto de um cantor / Com voz de pelourinho / E ares de senhor / Cantor atormentado / Herdeiro sarará / Do nome e do renome / De um feroz senhor de engenho / E das mandigas de um escravo / Que no engenho enfeitiçou Sinhá”. Sacou? Simplesmente maravilhoso.

“Eu vim, vim parar na beira do cais / Onde a estrada chegou ao fim / Onde o fim da tarde é lilás / Onde o mar arrebenta em mim / O lamento de tantos ‘ais’”. Essa é de João Donato, letra do Gil. Lindo. “Quatro da manhã / Dor no apogeu / A lua já se escondeu / Vestindo o céu de puro breu / E eu mal vejo a minha mão / A rabiscar, esboço de canção”. Teresa Cristina e Pedro Amorim, canção interpretada por Roberta Sá, em Braseiro, na companhia pra lá de especial de Ney Matogrosso.

Amigo, preste atenção. O cancioneiro popular tem cada preciosidade. “Subo nesse palco / Minha alma cheira a talco / Como bumbum de bebê”. Como bumbum de bebê é ótimo. “Sou eu que vou seguir você / Do primeiro rabisco /Até o beabá / Em todos os desenhos / Coloridos vou estar / A casa, a montanha / Duas nuvens no céu / E um sol a sorrir no papel...”. Do Toquinho, essa pra mim é simplesmente mágica, dar voz a um caderno é um barato louco, e com uma poesia refinada dessas. Pra mim, um instante singular, superior, divino. “Nhonhô bebeu um gole de cada poro meu. E feito vinho de caju, amarrei-lhe a boca. E nosso amor foi todo a prova de Ebó. Não teve um só que separou eu de Nhonhô”. Céus, isso é Céu! É Muito bom! Olha a estética, amigo! Quando ela fala que o Nhonhô bebeu um gole de cada poro seu feito vinho de caju, eu piro. Quem afinal é esse Nhonhô?

Pois descobri que sou apaixonado pela Céu. Eu sei que é facinho, facinho de se apaixonar, afinal, ela é musa, mas não é disso que estou falando. É algo superior, meu jovem. Muito superior. É coisa visceral, de outras vidas, entende? De som, poesia, misturas. Não é um simples estado momentâneo de excitação, passageiro como o trem da estação. É algo maior, muito maior. É infinito. Eu ponho o Caravana, fecho os olhos, bebo algum uísque e vou. Ah, isso é Chico.

Ilustração: Céu – Revista Afro

P.S.: Sou fã de carteirinha da Cristiana Moura e de suas crônicas maravilhosas. No próximo sábado ela volta, para a nossa alegria.


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12 comentários:

Zoraya disse...

Sergio, que viagem, essa sua crônica!Maravilha. Li com xícara de café quentinho e subi junto com a fumaça. 'A paz' é de longe, uma das músicas mais lindas que já ouvi, tanto na voz do Gil como na da Zizi Possi, é de chorar. E da Céu eu amo de paixão é Bubuia. Obrigada por já começar bem o meu dia!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bonito, Sergio.
As mús(ic)as brasileiras são mesmo muito amáveis. :)

sergio geia disse...

Obrigado, Zoraya, pelo comentário gostoso. Valeu, Eduardo! Eu já conhecia a Céu, já tinha visto ela se apresentar no Metrópole, mas não conhecia o seu trabalho. O “Caravana Sereia Bloon” eu comprei e pensei: “porra, que disco é esse!”. Não só pelas letras (a primeira coisa que me arrebata), mas pela voz, as misturas instrumentais, as influências musicais também, tem muito de música jamaicana que eu acho uma delícia. A crônica veio dessa ideia, de falar da Céu, da sua poesia, e da poesia de outros artistas também. O CD “Chico” é maravilhoso. “O caderno” me deixa pirado. Ah, tem muita coisa boa...

sergio geia disse...

Eu quis dizer Metrópolis, claro, da TV Cultura. Metrópole é o nome de um teatro aqui em Taubaté.

Anônimo disse...

Com esse friozinho, a chuva caindo, as letras de cada canção lembrada nesta crônica dançando na mente e uma boa taça de vinho para aquecer... é o Céu, é a Céu!
Um brinde a essa maravilhosa crônica que desperta desde o início até seu fim todos nossos sentidos. Pena que acabou, ficou assim, um gostinho de quero mais.
Lu Ribeiro

Roseli disse...

Crônica maravilhosa como você é, sempre foi.

Roseli disse...

Crônica maravilhosa como você é, sempre foi.

Darci Antonio Siqueira disse...

Boa goitei mesmo!

sergio geia disse...

Agradeço aos amigos Lu Ribeiro, Roseli e Darci. Receber comentários, positivos ou não, é sempre muito bom. A gente às vezes erra a mão e a crônica não sai lá essas coisas. Em "Céu, eu te amo!" eu abusei da poesia dos grandes compositores. Fala sério, aí fica fácil rsrs

Analu Faria disse...

Vontade de passar a tarde deste domingo no sofá, ouvindo Céu!

Analu Faria disse...

Vontade de passar a tarde deste domingo no sofá, ouvindo Céu!

sergio geia disse...

Delícia de programa, Analu. Sugiro que ouça "Amor de antigos", é linda, linda, linda. Bem vinda ao Crônica do Dia. Às quintas estarei aqui espiando você e a Mariana. Gde abraço!