sexta-feira, 3 de julho de 2015

A REZADEIRA - 1a PARTE >> Zoraya Cesar

Os joelhos estavam duros pela artrose, mas a musculatura era ainda rija, os tendões esticados como a corda de um arco antes do tiro. A mulher era franzina e seca como um gafanhoto, não havia uma gordura, peso, barriga, nada excedente. Seu semblante era severo; as orelhas, grandes; a boca, uma linha fina e sem lábios, como a de alguém acostumado a ouvir muito e falar pouco.

Era idosa, muito idosa, certamente, mas sua idade era indefinível. Podia ter 70, 80, 90 anos, impossível precisar. A pele negra contrastava com os cabelos brancos aqui, amarelados ali, cortados rentes à cabeça. Usava um vestido muito simples, de cor clara, sem enfeites, e andava devagar, compassadamente, apoiada num grosso cajado, que parecia mais pesado que ela, tão raquítica.

Perdera a conta dos anos, mas sabia que desde pequena estava na labuta, a pele áspera e as mãos calejadas comprovando o duro trabalho na roça. Nem se lembrava mais quando deixara de ser a Menina Dinda para ser conhecida como Velha Vó Dindinha. Mal sabia ler ou escrever, mas isso nunca lhe fizera falta. Era quituteira e doceira por profissão, e gerações de famílias abastadas não abriam mão de seus serviços nem pelo chef de cuisine mais badalado da cidade.

Ela possuía, no entanto, outra especialidade, pela qual era ainda mais afamada. Uma especialidade que exigia visão além das aparências e dos corpos opacos; audição para ouvir vozes que não pertenciam mais a esse mundo; olfato para diferenciar o ponto em que um chá de ervas deixa de ser um remédio para se transformar em veneno.

Rezadeira, benzedeira, bruxa, feiticeira. Dindinha nascera com um dom. Tirava quebrantos, curava espinhela caída, afastava mau olhado, quebrava as forças dos inimigos, expulsava demônios, sarava diversos males com suas garrafadas de ervas, fazia partos e dava simpatias para curar bebedeira, amansar marido, trazer esposa de volta, colocar filho na linha. E tudo funcionava.

Se ela conhecia magias negras? Sim, muitas, maléficas e letais. Mas, por mais que pedissem, ameaçassem, oferecessem fortunas, ela jamais cedeu. Desde que descobrira seu dom, decidira que seguiria o seguinte lema: fazer o bem, mesmo que difícil; não fazer o mal, mesmo que possível. De forma que Velha Vó Dindinha nunca amealhara riquezas, apenas o necessário para uma velhice tranquila. Estava aposentada e sua pensão pouco mais que modesta dava para todas as suas necessidades, nunca precisara de muito. Não tinha folga, sábado, domingo ou feriado; nunca tirara férias. A qualquer hora que dela precisassem, estava a postos.

Enquanto morara em Salvador, era a primeira das iabás a se apresentar para lavar as escadas de Nosso Senhor do Bonfim. Quando veio para o Rio de Janeiro, em vez de lavar escadas, limpava a sacristia e fazia a comida do padre da paróquia, sempre de graça. Ia à missa todo domingo, e tinha duas grandes devoções: Nossa Senhora do Desterro e São Cipriano.

Mesmo para os fortes, contudo, a face feia da velhice um dia bate à porta, e com Velha Vó Dindinha não foi diferente. Seu corpo todo doía incessantemente, e os sentidos, antes perfeitos – até então ela mesma colocava o fio na agulha! – se apagavam aos poucos. Revolta, não sentiu, sabia que não nascera para semente.  A afilhada foi morar com ela, para ajudar na lida da casa e nos outros afazeres. E como Deus não desampara quem trabalha em seu Nome, a afilhada, além de excelente pessoa, também recebera o dom, e assumira o lugar da madrinha como quituteira, benzedeira e outras ‘eiras'.

Velha Vó Dindinha estava doente e cansada, mas enquanto estivesse sobre a Terra cumpriria sua missão sem se queixar e ajudaria quem dela precisasse.

Foi num domingo chuvoso que ela recebeu um telefonema...


Continua no dia 17 de julho.


Partilhar

12 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Aí vem coisa... :)

Anônimo disse...

Faltou colocar o endereço da rezadeira e da afilhada, porque estou precisando, hehehe...

Erica disse...

Como assim continua dia 17 de julho? O aperitivo estava bom, mas cadê o prato principal? Eu me recuso a tecer comentários sobre histórias sem final rsrs

Analu Faria disse...

Meu Deus, como Vó Dindinha se parece com a minha avó!!!
Meu reino (se eu tivesse um) pelo dia 17!

albir silva disse...

Acho que ela vai precisar quebrar a própria regra de só fazer o bem. Aguardemos...

José Antonio Advogado disse...

Zô, ainda não deu para saber o final do conto, mas essa vó dindinha dava um romance, de tão rica

Carlos disse...

Essaas rezadeiras deviam ser tombadas pelo Patrimônio Histórico e consideradas uma das maravilhas do mundo pela Unesco. Aguardo o dia 17.

Zoraya disse...

Pessoal, obrigada. Velha Vó Dindinha agradece! E mais não fala, pq ela ouve muito e fala pouco... até dia 17!

Rosana Ortega disse...

Louvo sua forma de explicar que ela era negra só a partir da segunda linha do segundo parágrafo. Relevante era tudo o mais, sua cor era elemento secundário e você soube tratar essa informação com excelência.

André Luiz Ferrer Domenciano disse...

Preciso dessa bruxa do bem. Dizem por aí, que o meu texto precisa de mais ternura. Será que existe magia para isso Zoraya?! Abraços!

Anônimo disse...

ih caramba ... essa velhinha vai aparecer no ID ...

aretuza disse...

deixou todos nós curiosos!!