quarta-feira, 22 de julho de 2015

PÉS NUS >> Carla Dias >>


Caminha pela casa, mãos colhendo vento, olhos embriagados por imagens inéditas, dignas do embaralhar memórias com sonhos. Sabe que não é assim, que veio do mundo das certezas, do tempo despendido em tarefas concretas, do preencher formulários, sair para almoçar com colegas de trabalho, guardar as roupas passadas pela diarista, ir para a cama antes da madrugada. Cinco horas de descanso, então, começar tudo de novo.

É do tempo oferecido ao conforto da companhia dos amigos, das gargalhadas e histórias de vida compartilhadas, da resiliência diante da presteza do desapontamento em provar que, quando quer, é ele quem manda na situação. Ainda assim, caminha cadenciado pelos cômodos da casa, nessa quase dança de coreografia extravagante, o corpo a movimentar-se como se não lhe pertencesse, rendido ao barulho do silêncio sufocante.

A casa abriga mais do que sua realidade. Ultimamente, tem sido palco da sua imaginação. Há quem diga que sua criatividade libertou-se do aprisionamento do cotidiano. Há quem aposte na loucura, que anda na moda a mente das pessoas falhar por conta de tantas informações: cartão de crédito, leitura do tarô, mensagens chegam pelo computador e telefone, são entregues pela vizinha. Tragédias noticiadas por telejornais e durante as conversas entre passageiros do trem, leitura de revista de fofoca, aumento na conta de água, luz, supermercado.

Passeia língua pela borda do copo. Sempre bebe água gelada, que natural não lhe mata a sede. Mas era assim antes, que agora a sede não lhe abandona. Passeia língua pela borda do copo, a mente computando sede por outras coisas: beira-mar, sol lhe tocando a pele, passeio pela cidade em dias de feriado. Aquela sensação de paz ao olhar pela janela do carro, enquanto dirige até o aeroporto para receber quem partiu há tanto tempo, que a notícia sobre sua volta ressoa feito surpresa.

À noite, mergulha nas verdades omitidas pelos desvarios do dia. A mãe ligou para saber como estava, e não disse palavra que abrandasse a preocupação dela. Não tem mais o talento de oferecer alívio ao outro se não o reconhece. Houve tempo em que fazia isso com certa naturalidade, só que não mais. Também ligaram o contador, para detalhes sobre o imposto de renda, e uma tia distante, por pura curiosidade a respeito da doidice que, ela tem certeza, abateu-se sobre outros membros da família. A assistente do médico sobre a consulta na qual deveria ter comparecido, que seu coração precisa de cuidados.

A verdade é que talvez sua tia esteja certa, e haja doidice nesse desamparo que sente. Há momentos em que parece lhe faltar o ar, demora-se a recuperar o fôlego. Sente como se a morte lhe beijasse a fronte, várias vezes ao dia. Talvez a assistente do médico também tenha razão, que seu coração, às vezes, silencia de um jeito que até lhe faz pensar que parou. Que já era.

Pode parecer aos que lhe observam — e esmiúçam motivos sobre o que se passa com pessoa antes tão centrada, agora um ser iludível — que o acontecimento é a loucura contemporânea, da que laça aquele que não tem força de vontade para continuar lúcido. Mas a verdade é que houve esse dia em que não quis se levantar no horário de sempre, tampouco se aventurar em jornada de trabalho. Em que não importava se as roupas seriam guardadas, se deixaria o dinheiro da diarista no lugar de sempre. Houve o dia em que se fascinou pela a ideia de existir de outra forma, em outro lugar. E enquanto não sabe como e quando, caminha pela casa, pés nus roçando chão dos cômodos, procurando por outros caminhos.

Imagem: The Swan © Hilma af Klint



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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, tantos personagens seus habitam tão dentro de mim que às vezes penso que você está bisbilhotando minha alma. :)

Zoraya disse...

Carla, eu desisto! Não tem mais como eu dizer o quanto seu lirismo bem escrito toca a alma. Fico sem palavras, e me espanto de você achar todas elas e colocá-las no lugar certo, mesmo que entre flores tristes.

Carla Dias disse...

Eduardo... Acho que é o jeito escorpiano de ser. A alma da gente se perde por aí...

Zoraya... Não sei mais como lhe agradecer por tal gentileza. Ler e ainda gostar? Obrigada! Obrigada! Obrigada!