quinta-feira, 16 de julho de 2015

BRICOLAGEM, PALAVRÃO E HOMEOPATIA
>> Analu Faria

Eu gosto de umas palavras sem nem saber o significado delas. Tipo “bricolagem”. Quando ouvi essa palavra pela primeira vez, fiquei repetindo para mim mesma “bricolagem, bricolagem, bricolagem...”. Em seguida, criei diálogos imaginários com ela, tentando adivinhar o significado. Uma forma de artesanato? “Quero aprender bricolagem, minha tia é artesã e disse que bricolar [é claro que eu ia derivar um verbo disso] é superdesestressante.” Uma manobra política? “Os deputados usaram de bricolagem na aprovação do projeto de lei.” Ou ainda uma brincadeira irritante de criança? “Parem de bricolagem, vocês dois, ou eu chamo a diretora!”

Outras palavras eu trago comigo como remédio. Muitas são palavrões. Toda vez que estou acometida de alguma tristeza não requisitada, ou de raiva, ou, pior, de preguiça, valho-me de um deles. Bosta é meu favorito. Faz uma explosão na boca quando a gente fala, assim: b*OOO*sta! (Eu geralmente acrescento um “ô” antes: “Ôôôô b*OOO*sta!”). É terapêutico!

Está claro, pelo menos para mim, que um dos aspectos determinantes para que eu goste de uma palavra é o seu som, o aspecto fonético (que me corrijam os linguistas, se eu estiver usando o termo equivocado aqui): como eu disse, eu não sei o significado de muitas das palavras de que gosto e quanto aos palavrões, bem, eu sei que há algo de subversivo em proferir um palavrão, mas nem todo palavrão me parece interessante, nem todos soam “terapêuticos”. E definitivamente não posso dizer que gosto da palavra bosta pelo que ela significa. O negócio é que é bom falar — e ouvir — certas palavras e me afeiçoo a elas por conta disso.

Mas há uma outra “música” na comunicação verbal, que não tem nada a ver com o som das palavras ou com a cadência das frases. É uma música que se ouve na comunicação escrita e na falada. Eu não sei descrevê-la, mas aqui talvez minha percepção tenha relação com o significado. Por exemplo: Cecília Meireles, para mim, escrevia poemas que soam como "música instrumental para se ouvir tomando o chá das cinco". Acho até que não sou fã dela porque músicas de chá das cinco não são a minha praia. Aliás, nem chás das cinco. Clarice Lispector é Pink Floyd, o que me deixa incomodada — leio, ouço, me toca, mas transborda — e eu já transbordo demais em atividades cotidianas. Segundo minha homeopata, essa, aliás, é a causa da minha asma. Então, como tenho asma, leio Clarice com moderação. Hilda Hilst é Nirvana e Pearl Jam, ela e eles, alguns dos meus favoritos. Guimarães Rosa é jazz (hard bop, provavelmente): é a simplicidade inteligente que acelera meu coração e destransborda meus excessos.  Adélia Prado é a MPB de Caetano e Maria Bethânia — é impossível não gostar de Adélia Prado, se você for um brasileiro que gosta das coisas daqui e tiver um coração.

Machado de Assis e Shakespeare, eu não sei classificar. Não me vem à cabeça uma banda ou um estilo musical que se encaixe no que eles escreveram. Mesmo assim, a “música” deles me agrada muito. E minha homeopata disse que pode fazer bem para a minha gastrite. "Com exceção de 'A Mão e a Luva'", ela disse, "'A Mão e a Luva' pode ter um efeito contrário. Mas se quiser reler, toma um chazinho de Espinheira Santa junto."



Em tempo: segundo a Wikipedia, bricolagem é um termo “usado nas atividades em que você mesmo realiza para seu próprio uso ou consumo, evitando deste modo, o emprego de um serviço profissional."



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6 comentários:

Zoraya disse...

ótimo, Analu! Muito divertida a crõnica!Agora, na boa, essa sua homeopata merece uma crônica só pra ela, genial! Ler A Mão e a Luva com um chá de espinheira santa e dizer que ler Machado de Assis e Shakespeare podem fazer bem pra sua gastrite foi incrível! beijos

Anônimo disse...

Pena que só quinzenalmente você faz crônicas assim Analu...

albir silva disse...

Muito bom esse paralelo entre palavra e música, Analu. Agora vou ficar atento a essas equivalências, inclusive terapêuticas.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bela combinação de palavras e sons, Analu.

Analu Faria disse...

Obrigada, pessoal!

Zoraya, ótima ideia! Vou pensar numa crônica só sobre Dra. Cleonice.

Zena disse...

ôôô saudade de falar ô booooosta com você!!! Ah... dentro de mim repeti e senti, amiga, o prazer de proferi-la. Sucesso fofa!