segunda-feira, 6 de julho de 2015

SABE, QUEM MASCA FUMO >> André Ferrer

Quando criança, fui aos galos. Um amigo do meu avô, aficionado por rinhas, levou-me.

Tratava-se dos anos de 1980 e é interessante pensar que inúmeras coisas e atitudes daquele tempo agora são ilícitas. Hoje em dia, também, muito do que é e sempre será hediondo — bem, pelo menos, para algumas pessoas — já começa a ser considerado — assim, na boa, como se diz por aí — o suprassumo da virtude.

Enfim, a minha primeira e única experiência no universo do MMA galináceo veio à tona em plena semana em que o Zeca Camargo decidiu pintar a nossa cultura. Foi surpreendente porque, durante anos, achei que a única lição aprendida naquele recinto barulhento e esfumaçado tinha a ver com náusea e cheiro de fumo de corda. 

Abraão Batista (xilogravura - 1977)
A verdade é que o tempo dá novo significado às coisas. Ele cria metáforas. Transforma livros para colorir e brigas de galo em lentes de aumento ou, dependendo do caso, em trave para os olhos. 

Agora, os administradores das apostas atiram as grandes questões do nosso tempo nas redes sociais e aguardam. A sociedade, que sempre foi uma rede, tem cada um dos seus pontos monitorados e, na medida do possível, transformados em "vendas convertidas". Hoje, qualquer infeliz ostenta o direito sagrado à portabilidade de tudo o que há de mais ignóbil e acredita ter o mundo inteiro nas mãos. Entretanto, a rinha do Zuckerberg só é fumacenta para quem se acomoda. Enxergar com clareza, dentro ou fora das caixas de comentário, pode engrossar um pouco os números de uma resistência cada vez mais desmoralizada. Pouco, afinal, é melhor do que nada.

Os tempos líquidos de Zygmunt Bauman já chegaram e estão na forma de torrente. Chegaram para carregar os imbecis. A opinião — bastante apartada do ato de pensar —  é coisa de quem se apega à primeira tábua de salvação. Ordinariamente, a tábua tem alguém no controle. O dono da banca de apostas. O CEO.

A ideia é tão antiga que envergonha. Trata-se de criar a ilusão de autonomia no maior número de pessoas. Quem masca fumo sabe: "Os bobos rareiam, mas nunca acabam!"


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