quinta-feira, 23 de julho de 2015

CHEIRO DE ALMA NOVA >> Mariana Scherma

Poucos cheiros me deixam mais feliz do que o de café. Abrir um saco novo de pó de café de manhãzinha me faz querer acabar logo com ele pra abrir um outro. Acordar na casa da mamis com cheiro de café funciona mais do que despertador barulhento ou despertador com música gostosa.

Esse amor todo deve ter a ver com aquela história de memória olfativa. A lembrança mais antiga que tenho de café é de quando era beeem piralhinha e fazia minha mãe me levar pra casa da vó Ana e tomar café com ela. Hoje eu sei que o café da vó era o mais forte que já bebi na vida. Perto do dela, o meu é quase forte. Perto dos outros, o meu é forte, sim.

Café fraco pra mim é coisa de covarde, de gente que não demonstra sentimento. Aqueles copos gigantes de café que a gente vê em seriado dos EUA é enrolação, ninguém tomaria um copão daqueles do café da vó Ana impunemente, sem ficar o resto do dia acordado – e animaaaado. Café fraco é tão ruim que, sério, não merece ser chamado de café, chafé mesmo.

Outra coisa que não combina é essa coisa de coffee-to-go. Pra mim, café tem que ser tomado na xícara, enquanto você se embola no jornal ou enquanto você aprecia a vista da sacada. Se estiver chuviscando e for domingo, então, a felicidade é plena.

Já vou avisando (momento estou me achando) que dizer que gosta de café e só misturar Nescafé no leite não faz uma pessoa ser apreciadora de café. Não mesmo, café solúvel não tem nada a ver com café. Assim como café misturado com chantilly, doce de leite, canela... Isso é quase um pavê.

Eu sinto vontade de um cafezinho toda hora, até à noite. Eu posso ter acabado de tomar o último gole, mas se vir uma propaganda (daquelas com família na mesa de toalha branca e o dito-cujo saindo de um bule de louça), vou ter que tomar café de novo.

Café combina com pãozinho crocante, com caneca velha ou nova, com lotação ou solidão em casa, com pijama, com dia de chuva, com John Mayer tocando baixinho no rádio... Café, pra mim, é oficialmente a bebida que faz o dia nascer feliz (beijo, Cazuza!) e que faz carinho na alma. Na minha, pelo menos. Café é meu pretinho básico e vital.


P.S.: Café é refeição. Capuccino é sobremesa ;)


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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Gosto mais da sobremesa, mas sua crônica me deu uma vontadezinha de refeição. :)

Alceu Rocha disse...

Excelente, não há nada mais prazeroso que um bom e velho cafezinho pela manhã e finalzinho da tarde, sem faltar é claro de uma boa conversa ou uma boa leitura para acompanhar. Parabéns pelo texto, sou novo no blog de vocês.

Carla Dias disse...

Mariana, você escreveu a declaração de amor ao café que eu gostaria de ter escrito :)