sábado, 11 de julho de 2015

INUTILIDADES DOMÉSTICAS >> Cristiana Moura


Noutro dia, estava eu a espreitar a conversa alheia sobre compras feitas em viagens. O marido dizia aos que ali escutavam a conversa que ela e a amiga haviam comprado demais. Eles se hospedavam na casa de um amigo que muito consideram e o anfitrião já havia advertido previamente quanto ao excesso das compras.

Ela mesma confirmou. Eram sacolas e mais sacolas. Mostrou-me uma foto: as sacolas, ela e a amiga sentadas no chão do rol de entrada do apartamento onde estavam hospedadas. Na foto elas pareciam escondidas por detrás das compras. Estavam ali guardando as compras de lojas diferentes nas mesmas sacolas a fim de diminuí-las e assim parecer ser menor a extravagância das compras.

E a esposa foi contando em tom de animação dos diversos objetos e de suas utilidades. Foram tantos os objetos que se tornaram de consumo, sem talvez terem sido objetos de desejo, que me instigou. Um entre tantos me chamou especial atenção. Trata-se de um medidor de macarrão com a boca de boneco cuja função seria acertar a quantidade de espaguete para o número de pessoas para o qual se cozinha.

Ela descreveu o tal medidor e sua utilidade em tom de defesa.
— Você já usou?
— Ainda não.
— Quando foi mesmo que você comprou?
— Em setembro do ano passado.

Enquanto eu ouvia, fui me reportando a um dos escritos de Rubem Alves. Ele nos fala que o corpo carrega duas caixas — uma de ferramentas e uma de brinquedos. Na primeira carregamos ferramentas que são inventadas para tornar o corpo mais poderoso. As coisas desta caixa nos dão meios para viver. Na segunda, carregamos o que não é útil, não serve pra nada. As coisas da ordem do amor, aquelas que nos dão razões para viver. Nesta caixa ele colocou os poemas de Cecília Meireles, a música de tom Jobim. Aqui não se trata de utilidade, mas de fruição.

Fiquei sem saber em que caixa colocaria um medidor de macarrão. Por certo se trata de uma ferramenta. Entre essas, Rubem cita vassouras, papel higiênico — coisas úteis. Porém, no meu entendimento, o tal medidor é pouco útil. Inutilidade essa longe de ser a mesma da arte. Jamais ousaria guardar o tal objeto junto aos poemas de Cecilia ou à música de Tom. Pela minha cabeça passou uma lista de outras coisas, as que já comprei, as que ganhei, as que tenho e não desejei. Coisas que nem são úteis nem são da ordem do amor.

Como o corpo carrega as inutilidades domésticas?

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5 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Isso me lembra que preciso fazer um bota-fora aqui em casa. ;)

Cristiana Moura disse...

;)

Analu Faria disse...

Cristina, fiquei pensando nas inúmeras outras inutilidades que a gente compra, encontra, cria. Todas sem classificação. Será que a gente tem uma caixa de inutilidades? Será que a gente negligencia a caixa de inutilidades? E se a resposta às duas perguntas for sim, será que quando a gente negligencia a inutilidade, ela toma proporções que não deveria? Freudianizando as coisas aqui...

Cristiana Moura disse...

Pois é Analu... sem respostas. Mas vale um bota-fora em casa como pretende fazer o Eduardo



Zoraya disse...

o pior é que, se não somos muito conscientes das coisas, achamos mesmo q um 'medidor de macarrão' pode vir a ser útil, mesmo que nunca tenhamos feito um ovo frito sequer. Mas se eu encontrar um medidor de amor, juro que compro... Bom te ler, Cris!