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EU E ELE NUNCA SEREMOS NÓS >> Carla Dias >>


O mundo se tornou um lugar para poucos. Pensei que isso nunca aconteceria... Que haveria uma saída que nos levasse para longe desse destino. Ainda assim, aqui estou: sentado em uma cadeira, próximo à porta que dá para o jardim. Perfeitamente vestido, corpo na postura correta, olhos o acompanhando, enquanto ele faz o seu monólogo matutino, andando de lá para cá.

“Sabe como é difícil conseguir um exemplar como você?” Ele se refere ao fato de eu ter cabelos negros e bem lisos, pele branca, olhos azuis, mais alto do que a média e corpo atlético. “Exemplares como você não dão sopa por aí”.

Esse lugar para poucos...

Respondi ao anúncio, após compreender que não havia outro jeito e eu precisava sobreviver. Todos os meus recursos haviam se esgotado, e eu já tinha perdido emprego e casa, não tinha mais como comprar comida. Eu olhava nos olhos daquela miséria sobre a qual, até então, eu só ouvira falar. A miséria que se oberva de longe, lamenta-se como se tal compadecimento pudesse colaborar de alguma forma. A miséria dos ignorados.

Anúncios do tipo se tornaram comuns. As redes sociais oferecem materiais mais visuais, o que facilita a compra de passe, mas também oferece mais risco. Eu escolhi os anúncios de jornal, e somente para nutrir uma falseada sensação de privacidade. Não queria alardear minha sucumbência.

Foi assim que o conheci, um dos remanescentes membros do grupo dos que mandam no mundo. Esse mundo que levou o termo “lugar para poucos” ao cúmulo do literalidade. Nem todos são respeitosos como ele. Então, aceito que tive sorte, que talvez a ideia de escolher pelo anúncio de jornal não tenha sido assim tão ruim. Se bem que não sei dizer o que poderia ser pior do que fazer o que faço hoje.

Lembro-me do início do que hoje temos. Não foi de repente, que pensando bem, o mundo já caminhava para isso. Não foi sutil, mas a maioria de nós — aqueles que não ocupavam tempo a pensar sobre o mundo e as pessoas que nele viviam — escolhemos não prestar atenção ao processo.

Eu era filho do mundo. Não tinha família, meus amigos eram poucos e nem tão amigos. Eu era um homem de posses, mas que não fazia bom uso do bom senso. Hoje eu sei bem de cada defeito que me colocou nessa posição. Porém, engana-se quem pensa que lamento somente por mim. Se há algo que a sucumbência oferece, ao menos aos que aceitam sua condição de reles ferramenta para facilitar a vida de outros, é a capacidade de lamentar pelos outros; por aqueles que se encontram na mesma situação.

Ele olha para mim e sorri. Figura triste vestida em caros tecidos, designada a assumir posto de rei, quando nem mesmo imagina como comandar a própria casa. Pede para que eu me levante e eu o obedeço. “Chegue mais perto...” E eu me aproximo dele, meus passos na cadência que ele determinou, anteriormente. Coloca a mão sobre o meu ombro e me encara: “o que você acha?”

O que tenho de achar — e digo isso porque tenho mesmo de achar, independente do que acredito — é o que ele me passou por e-mail, ontem à noite. Todas as noites eu recebo uma lista de coisas a serem feitas no dia seguinte, assim como recomendações sobre como me comportar diante do que acontecerá.

O mundo e a sua geografia de imensidão que quase conheci. Sim, eu viajei muito, estive em quase todos os países do mundo. Apaixonei-me por diferentes culturas. Havia diversidade nas pessoas e nas realizações. A pluralidade me encantava. Apesar de todos os problemas sociais, religiosos e pessoais, nós vivíamos em um mundo onde cabiam nossas jornadas. Mas foi até ali... Até se estabelecer essa nova ordem. Até poucos se tornarem tão poderosos a ponto de serem capazes de reescrever a história de milhões, sem a participação deles.

Ele continua o seu monólogo, lançando-me olhares curiosos, vez e outra. Tenho por certo que ele nunca se interessou pelo o que realmente penso sobre suas aventuras amorosas ou conquistas financeiras e profissionais.

Aquela miséria sobre a qual eu escutava falarem a respeito já não existe mais. Mas também deixaram de existir muitos países, culturas. Não existe mais problema de superpopulação. Esse também foi resolvido ao se reduzir o número de pessoas no planeta e aplicado um severo controle de natalidade. Sim, falo sobre algo que foi cogitado por muitos e que fez parte da literatura de importantes escritores. Tivesse ficado na intenção e na ficção, talvez a história fosse outra.

Quem diria que eu acabaria aqui, justamente na casa do mais poderoso do círculo que hoje abriga aqueles que regem o mundo, fazendo da vida das pessoas o que bem entendem, suprimindo-lhes desejos e sonhos. A miséria de hoje não é como aquela que eu conheci de longe. Esta tira homens e mulheres de seus ambientes seguros, do dinheiro e do pálido poder que os mantinha, lançando-os a um mundo de necessidades que jamais imaginaram que poderiam ter.

“Deixe-me ver...” Enquanto ele analisa minhas unhas, uma a uma, com rigor, olho para o adiante, engolindo o choro. “Limpas... Muito bem. Agora...” Abro a boca para que ele analise meus dentes. “Perfeito”.

Essa nova ordem tornou o ser humano mais solitário do que nunca. Os que mantêm relações de afeto honestas, das correspondidas, são invejados profundamente. Foi por conta dessa solidão que muitos dos poderosos adotaram a prática dos anúncios. No início, eles não queriam se revelar, temendo que o poder adquirido fosse fragilizado por tamanho desejo de se conectar ao outro. Depois, compreenderam que somente o poder lhes daria um mínimo de amparo emocional.

Antes de responder ao anúncio, chorei como se fosse criança e por horas. Adulto, sabedor que a vida de uma pessoa deveria lhe pertencer, tive de entregar a minha a alguém incapaz de se conectar naturalmente com outro ser humano. Eu atendia aos requisitos, e a ideia de poder voltar a dormir em uma cama, de contar com três refeições ao dia, trouxe à tona a minha fragilidade.

Verguei-me.

Ele diz que tenho de me dedicar um pouco mais, que devo assistir a todos os vídeos que ele deixou separados na sala de tevê. “Quero que aprenda cada gesto, a entoação das palavras... Perfeição.”

Tento acessar a memória, mas ela anda mais frágil que nunca. Por alguns instantes, esqueço-me completamente do meu nome. Quando ele me volta à memória, emociono-me, como se reencontrasse um velho amigo. Um deles me disse, há muitos anos, quando eu ainda era um indivíduo, que não há nada mais cruel do que roubar de uma pessoa o direito de ser, a sua identidade. Na época, eu satirizei a reflexão. Hoje, eu gostaria de dizer a ele que finalmente entendi o que ele disse.

Ele sorri com dentes completamente estragados, por conta de uma doença que seu dinheiro e seu poder não podem curar. Eu me vejo nele. Eu me vejo sendo a versão melhorada dele: as mesmas roupas, o mesmo perfume, mesma altura. Cabelos penteados da mesma forma. Olhos igualmente azuis. É como olhar para o meu reflexo no espelho.

Invade-me essa tristeza imensa. Enquanto ele continua a me adestrar, percebo a ironia: o poderoso, o capaz de mudar o mundo e decidir o destino de outras pessoas é um ser que sofre de solidão profunda. Ainda assim, do topo de sua prepotência, prefere pagar com casa e comida para que outro, alguém fisicamente parecido com ele, possa interpretá-lo em um enredo salutar e sedutor. Na solidão, em vez de buscar quem possa lhe oferecer afeto, ele coloca anúncio no jornal e encontra quem possa lhe fazer companhia como se fosse ele mesmo.

Bebemos chá no fim da tarde. Xícaras levadas à boca ao mesmo tempo. Às vezes, eu me esqueço de que sou eu mesmo. Às vezes, ele acredita que sou ele. Vivemos nesse mundo que se tornou um lugar para poucos.

Imagem: Brothers Bruckman © Karel Bruckman

Comentários

albir silva disse…
Assustador, Carla, esse mundo "que fez parte da literatura de importantes escritores" e parece tão próximo e inevitável.
Zoraya disse…
Carla! Seu lado ficção-realista aflorou de maneira assustadora! No bom sentido. Li roendo as unhas. Tensão psicológica total. Muito, muito bom mesmo!
Fiquei curioso: você se inspirou no quadro ou depois achou o quadro para combinar com o texto? São tão feitos um para o outro.
Carla Dias disse…
Albir... É realmente assustadora essa proximidade. E temos de compreender que há vários mundo nesse mundo que chamamos de nosso.

Zoraya... Que bom que gostou! Adorei o ficção-realista :)

Eduardo... Escrevi o texto e depois encontrei o quadro, que, aliás, também me surpreendeu pela sintonia com o texto.

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