domingo, 19 de julho de 2015

UMA ALEGRIA >> Whisner Fraga

Quarenta semanas de gestação (não estou certo quanto a esse número, pois sou do tempo que a gravidez era computada aos meses) e chegava o dia. Meu irmão arruma a tralha (duas ou três malas) e ruma para o hospital com minha cunhada. Lá se lembrarão que deixaram muito para trás, pois um bebê é imprevisível, a começar pelo dia que vai nascer e precisa de tanta coisa que não sabemos! Estão apreensivos, ansiosos. Tanto tempo de preparação e parece que a teoria se transformaria em prática. Meses de desenvolvimento (não evolução) e uma vida de transformação para descobrir, enfim, que nunca passará de casulo.

Chega como chegam todos: aos prantos. Um choro que será seu vocabulário por alguns meses. Utilizará desse expediente quando tiver fome, frio, dor. Crescerá em uma sociedade violenta, inóspita, competitiva, mas também compreensiva, acolhedora, fraterna, como era há cinco ou dez mil anos. Perceberá que não se muda nada da noite para o dia, mas que é nossa obrigação tentar a mudança. Repito: não a evolução, a mudança.

Meu sobrinho João Vitor, que ainda não conheci pessoalmente. Tem os olhos acinzentados dos primeiros dias de convivência com as leis deste mundo, tem os cabelos ralos que cairão para dar lugar a outros igualmente negros e arrepiados. Segue, portanto, todos os padrões de comportamento da raça e é bom que seja assim, para a tranquilidade de todos. Não gostou do primeiro banho, aquele líquido morno que bateu em ondas em sua barriga sensível. Não gostou e gostou: é assim o mundo da experimentação.

Agora mesmo posso vê-lo, graças ao século XXI, com uma touca azul na cabeça, saindo para o passeio. Posso assisti-lo se debater na banheira enquanto lhe esfregam o cabelo. Tenta reconhecer nessa nova realidade algum lugar seguro, algum ruído confortador e quando encontra algo que reconhece como bom, se acalma e volta a dormir. Nasceu em Uberlândia e lá deverá passar sua infância. Lembro-me da missionária “Santa”, do filme “A grande beleza”, ao explicar a Jep porque só come raízes: “Porque as raízes são importantes”.

Ontem mesmo mando uma mensagem ao meu irmão: “o pior ainda está por vir: as festinhas de crianças”. Antecipo algumas noites sem dormir, que em breve chegarão para eles. Não importa, ele perceberá. Os aniversários infantis também o divertirão, sei disso. A infância tem o seu tempo. O que importa agora é nos planejarmos para uma visita, em breve. Os primeiros dias devem ser a solidão dos pais e o aprendizado. Trocar uma fralda, interpretar um choro, dar o banho, fazer o bebê arrotar após uma refeição, tudo é novo e, no entanto, tudo tem milhares de anos.

Meu sobrinho João Vitor tem os olhos acinzentados e aprendeu a sugar o leite e a remexer os pés em busca de apoio. Gira a cabeça à procura de um som que reconheça. Só por isso eu sei que será feliz. E é bom que assim seja.



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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

João Vitor já está se revelando um bom muso inspirador. :)

Zoraya disse...

Que linda crônica, Whisner! Sempre que João Vitor sofrer algum revés na vida, ele poderá encontrar forças nessa linda homenagem do tio. Lindeza.