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ALMOÇO NA TIA >> Sergio Geia




Mãe: “O que tem na maionese?”
Viva: “Batata, cenoura, ovo. E maionese, né? Tá boa?”
Mãe: “Ahan!”
Viva: “A coca-cola no ‘Dia’ tava na promoção.”
Neto: “Mas você viu a validade? Tá na promoção porque tá vencendo.”
Viva: “Eu não vi; veja aí.”
Neto: “Tá dentro. Vai demorar pra vencer.”
Viva: “Eu não enxergo, Neto, é muito pequeno!”
Robson: “Eles tinham que colocar uma letra maior.”
Neto: “Eles fazem tanta lei inútil, por que uma lei dessas ninguém pensa?”
Eu: “Você viu a lei do hino nacional?”
Neto: “Não.”
Eu: “Nas atividades esportivas. Agora tem que tocar o hino inteiro. Dizem que é pra aumentar o patriotismo do povo. Mas precisa de hino inteiro pra aumentar o patriotismo do povo? E num jogo de futebol? Ninguém dá a mínima, ninguém respeita, nem os jogadores. Toca só a primeira parte, cacete! Tá tudo muito chato. Eu acho que nem o hino nacional eles deveriam pôr. Tem jogo todo dia, caraio!”
Neto: “Pra isso eles fazem lei, mas lei que preste eles não fazem!”
Eu: “Tem que tocar na escola, a criança tá em formação. Agora num campo de futebol, uma turma chapada, outra nem aí pra hora do Brasil, é idiotice!”
Robson: “Na escola também tem lei.”
Eu: “Tem.”
Viva: “Vocês não vêm comer não? Tem lugar na mesa!”
Mãe: “Sabe que hoje eu senti saudade da mamãe, Viva, de conversar. Ela sempre queria saber com quem eu tava, com quem eu tava saindo, mesmo depois de eu véia, ahahaha, ela queria me dar conselho.”
Eu: “Mas você tem sentido saudade da vó nos últimos dias...”
Mãe: “Tenho mesmo...”
Viva: “A mãe do Robson trouxe doce de laranja, de abóbora, a Ná trouxe sorvete...”
Mãe: “Ai, eu adoro doce de laranja!”
Eu: “Este pernil tá o ó.”
Viva: “Tá gostoso?”
Eu: “Tá incrível!”
Pai do Robson: “Outro dia eu trouxe um doce de limão de Caxambu, só não devolvi porque é muito longe, senão eu voltava lá.”
Carlinhos: “Por quê? Tava ruim?”
Pai do Robson: “Ah, tem que saber fazer, senão fica amargo.”
Mãe do Robson: “O de laranja também precisa saber fazer. Eu deixo de molho uns cinco dias, troco a água três vezes por dia. E não pode ser em qualquer panela. O de figo, por exemplo, o meu fica verdinho, verdinho.”
Mãe: “Mas que panela você usa?”
Mãe do Robson: “Tacho de cobre. O figo fica verdinho por causa do cobre. Se fosse alumínio não dava. Eu pus cravo e canela.”
Viva: “Toma mais cerveja, Sergio?”
Eu: “Não, chega. Tô com infecção de urina, tô tomando antibiótico. Só vou tomar uma mesmo. O médico disse até que pode, mas a cerveja é diurética, vai me levar mais vezes ao banheiro fazendo com que eu elimine o antibiótico com mais rapidez, daí dá um curto-circuito na coisa toda.”
Viva: “Eu não bebi quando tava com infecção.”
Eu: “São sete dias.”
Mãe: “Viva, vou pegar o doce na geladeira.”
Viva: “Pega, Ná.”
Mãe do Robson: “Experimenta pra você ver.”
Mãe: “Nossa, só pela cara a gente vê que tá bom.”
Eu: “Eu vou de Napolitano. E essa reforma de previdência vai me foder... O governo tá fazendo a reforma com muito açodamento.”
Neto: “Eles não conversam com a sociedade. Decidem o que fazer e pronto. Isso é representatividade? Isso é democracia representativa?”
Eu: “É que nem a trabalhista. Até agora eu não vi a mídia entrevistar um juiz do trabalho pra falar da reforma. O Jornal Nacional só coloca economista pra falar da reforma. Mas um juiz trabalhista, que vive os conflitos entre patrão e empregado no seu cotidiano, eles não põem!”
Neto: “Não colocam porque vai desandar, Sergio; a maionese da reforma vai desandar. Ela foi elaborada de forma enviesada, olhando apenas um lado.”
Eu: “Outro dia eu li uma notícia que dizia que um dos arquitetos da reforma integra o Conselho de Administração da Brasilprev; dizem que com a reforma da previdência, essas entidades vão encher o cu de tanto vender plano de previdência. No mínimo, ele é suspeito e não poderia participar...”
Neto: “E esse negócio de previdência deficitária tinha que ser melhor examinado; tem aquela DRU, aquele negócio de desvinculação de receita, o dinheiro da previdência pagando juros pra gerar superávit primário...”.
Eu: “Nos últimos 10 anos a Odebrecht deixou de pagar pelo menos R$ 8 bilhões em tributos, graças a algumas medidas provisórias.”
Robson: “A reforma vai resolver o problema da previdência, claro que vai. O brasileiro não vai mais aposentar; vai morrer antes.”
Eu: “Me dá mais Napolitano?”
Mãe: “Eu vou experimentar agora o de abóbora.”
 


“Almoço com a família” Lapalu 2006, p.10

 

Comentários

Zoraya disse…
Amo cenas familiares! Que boa ideia,essa sua, Sergio! Pq vc descreve bem demais esses momentos! Nos sentimos sentados à mesa!
sergio geia disse…
Valeu, Zoraya! A turma lá dá casa da mia tia adorou rsrs viraram personagens
Analu Faria disse…
Hahahaha! Ótimo!

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