quarta-feira, 7 de junho de 2017

MONSTRO >> Carla Dias >>


A pergunta reverberava pelos corredores da escola, pelas ruas da cidade, durante as reuniões de família. Reverberava em diferentes nuances, em tons venenosos, daqueles que machucam com a habilidade das cicatrizes que nem o mais talentoso cirurgião plástico é capaz de disfarçar. Machucam e eternizam a dor na memória do corte.

Esse falatório acerca de quem ele era o entristecia, mas ele nunca entrou em discussão por causa dele. Desde menino, sentia-se confortável com o desprezo e o susto do outro, porque era o que ele conhecia desde sempre. Diferente, consternador seria se lhe oferecessem uma atenção que não fosse das melindradas pela fealdade de sua condição.

Ele teve amigos. Durante a escola foi difícil lidar com a solidão, mas não havia quem resistisse aos encantos dele, após uma breve conversa. A essa chance ele sempre se agarrou, porque sabia da importância dela para que sua feiura fosse abrandada, e as pessoas permanecessem por perto, ainda que somente por algum tempo. Porque, eventualmente, elas se afastavam, já que não conseguiam lidar com as ofensas que acompanhavam a convivência com ele.

Não se importava com os olhares curiosos, com as perguntas atrevidas, com as piadas ofensivas. As pessoas eram inconvenientes de tantas formas, que já não conseguiam mais nem mesmo surpreendê-lo. Os pais se frustravam com a forma com que o filho lidava com sua condição. Sentiam-se tristes e sofriam com o tratamento que outros dedicavam a ele. Queriam que ele reagisse, pregavam que impor-se era necessário, para que os outros reconhecessem seu valor.

Há algo poderoso a respeito do hábito. Pensamos nele como algo que adquirimos com o tempo, por meio de escolhas que fazemos. Lidamos com ele, de acordo com as questões que ele levanta. Mas, e quando ele é imposto? Nada na vida dele foi construído sem essa imposição. De onde ele tiraria conhecimento e força para lutar contra, se não conhecia o significado do que era o “a favor”?

Ainda na adolescência, durante mais um episódio de chacota coletiva, um dos alunos de sua escola o chamou de monstro. Até então, as ofensas variavam, ele lidava com elas e as descartava. Não as remoía, porque acreditava mesmo que se tratava de uma percepção nublada sobre ele. Só que nesse dia, escutando a palavra monstro reverberando pelo pátio da escola, acompanhada por gargalhadas histéricas, ele finalmente entendeu a humilhação, a rejeição, o desafeto, o descabimento de quem era.

A dor do reconhecimento foi tão intensa que gerou um grito gutural e assustador. Todos se calaram diante dele, abismados com a amargura contida naquele grito, e com sua feição de dor. Ninguém gargalhava e os olhos esbugalhados mostravam que aquele grito mudara tudo.

Naquele dia, ele se tornou o Monstro. Todos passaram a chamá-lo assim, e, em determinado momento, esqueceram-se do nome dele. Houve dia em que, durante a chamada de alunos, ele não reconheceu o próprio nome.

Pegou-se a pensar sobre o que os monstros fazem. Abraçou os da literatura, escolheu características que coubessem em sua realidade. Não gostava de pesquisar os reais. Monstros reais o fazem sentir doente.

Em pouco tempo, ninguém mais o atormentava. Aquele grito foi a sua canção autoral, seu hit na parada de sucessos. Aquele grito foi a libertação de seus demônios, o escancaramento de suas angústias. Ele tentou a normalidade pela vida toda, ignorando o peso do que a versão de si, criada pelo outro, insistia em alimentar. Então, encarou tudo de uma vez, misturado a uma palavra que sempre o assustou, porque temia os monstros desde criança. Temia os monstros e se tornara um.

Ao menos no nome.

Décadas depois, o branco já lhe tomou os cabelos, ele ainda se espanta com o que uma palavra fez em sua vida. Ela veio com uma reputação que nunca lhe pertenceu, mas que o ajuda a seguir seu caminho. Até hoje, não entende o motivo de as pessoas preferirem se curvar ao medo do significado que pode viver nessa palavra, do que simplesmente compreenderem que aquilo que os faz desviar o olhar dele, em um primeiro momento, não é um resumo de quem ele é.

Quem ele é vive batendo de frente com quem as pessoas acreditam que ele seja. No seu bairro, muitos apostam que ele vive de dinheiro sujo, da lavagem desse dinheiro nas suas lojas de conveniência, espalhadas pela cidade. Mães fazem questão de ensinar a seus filhos que, se o encontrarem na rua, não olhem diretamente para ele e atravessem. Mas a verdade é que aquele grito, o que o libertou e lhe deu novo nome, deu origem a alguém mais íntimo da verdade que tantos teimam em negar: a vida não é linda feito uma vista que se gosta de guardar em fotografia. Às vezes, a vida é feia mesmo, e ainda assim, nessa feiura encontramos a beleza de sermos. Para ele, ser é sua missão. Viver a vida, sua jornada mais importante.

Quem realmente o conhece, sabe do que se trata. Mora ali uma afetuosidade digna de um Seu Monstro, patrão; avô Monstro, família. Ainda lhe espanta a covardia dos outros monstros, aqueles que, em uma rotina de indiferença e prazer pela violência, desnudam a vida dos outros de qualquer possibilidade de se superar o ocorrido. Empobrecer o espírito do outro, deixando-o agonizar de falta e injustiça, ainda é a arma mais poderosa que existe. Os monstros sabem disso.




Imagem: Boris Karloff | Frankenstein (1931)

carladias.com

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Um comentário:

Anônimo disse...

Que história! De mestre! cada pessoa tem a sua história que pode até ser interessante, existem segredos, existem sentimentos. Por trás de cada atitude existe algo a mais. E existe alguém que sabe escrever para contar, passar a diante. Valeu, Carla Dias!

Enio Ferreira