Pular para o conteúdo principal

OS DESSEPULTOS - 1a PARTE >> Zoraya Cesar

O ‘laboratório’ ficava a alguns quilômetros do vilarejo, afastado de qualquer cidade grande. No meio de uma floresta, acessível apenas de carro. Quando o professor Barain Samd se instalou ali, causou um certo rebuliço nas pessoas simples do lugar. 

Ninguém sabia coisa alguma ao certo, mas dizia-se que fora expulso de uma prestigiosa faculdade de Medicina, onde era titular da cátedra de Anatomia, por práticas pouco ortodoxas. Sua fama como professor, no entanto, não feneceu com o banimento e, ao contrário, pareceu crescer com o opróbrio. Era um chamariz irresistível para os futuros médicos que desejavam fama e conhecimento de qualidade inquestionável – e que não tivessem grandes pruridos morais para consegui-los. Uma dezena de alunos fieis frequentava o laboratório, e cada um deles tinha um cadáver para chamar de seu. Um cadáver periodicamente renovado. 

Os alunos formavam uma irmandade unida por rituais de sangue e morte, na qual imperava a lei da omertà – a lei do silêncio da máfia italiana dos velhos tempos. Pagavam muito dinheiro por essas aulas exclusivas, mas, para eles, valia a pena. Os alunos “especiais” do professor Barain Samd formavam-se com conhecimentos extensos e profundos sobre o assunto, tornando-se exímios legistas, respeitados catedráticos, doutores de renome. 

As aulas extracurriculares eram totalmente ignoradas pela sociedade médica, um segredo passado à socapa, para poucos. Nenhum desses estudantes jamais denunciou a fonte de seus vastos conhecimentos nem os estranhos métodos do professor. Apenas um aluno, não se sabe o motivo, um dia surtou, gritando ‘estavam vivos, estavam vivos’ e atirou-se pela janela do apartamento onde morava, morrendo junto com o significado daquelas palavras. 

E os habitantes do vilarejo, o que tinham a dizer sobre o taciturno professor, sobre seus alunos de olhos sagazes, suas práticas inconfessas? Nada. Eram gente pobre e humilde. Viviam longe de hospitais, escolas, postos de polícia, nem cemitério tinham, seus mortos eram enterrados na cidade vizinha. O professor se ofereceu para levar os corpos em seu próprio carro, dando carona aos parentes chorosos, o que lhes economizava um bom dinheiro – dinheiro que, diga-se, não tinham. Por que se importariam com o que era feito no meio da floresta? Se o dinheiro em excesso tende a tornar as pessoas indiferentes, a necessidade tende a torná-las práticas. 

Por cínico que fosse, de vez em quando
Farley sentia um certo tremor
quando vislumbrava, saindo da noite,
a luz dos faróis da caminhonete.
Mas era seu trabalho  e ele recebia
muito bem para aguardar as encomendas. 
E Farley era muito prático. E endividado. E amoral. E tanto fez que conseguiu ser contratado como assistente do professor. Sua tarefa era manter o laboratório impecavelmente limpo; o material – facas, serrotes, bisturis – afiado; as macas e cadáveres arrumados; os pós e líquidos em ordem. E receber, na inquieta madrugada, o homem que trazia, na caçamba de uma Ranger, cadáveres novos, embalados em plástico. Farley pagava pelas encomendas, arrumava os recém-chegados nas macas e aguardava o amanhecer para ir embora. Ele sabia que os corpos descartados eram dissolvidos numa das misturas ácidas e corrosivas que o professor guardava no sótão, mas a técnica só era ensinada aos alunos; ele mesmo nunca vira. Isso, no entanto, não o agastava. Era interesseiro, não curioso. Amoral, não indiscreto. Desde que continuasse a receber em dia e houvesse o suficiente para pagar mulheres e jogo, tudo bem. Provavelmente os corpos eram de indigentes, roubados de algum necrotério ou cova rasa, ninguém os reclamaria, era melhor que tivessem uma utilidade. Afinal, pensava, cinicamente, melhor um cadáver na mão que dois no caixão. 

Cínico e feliz, realmente, viveu os primeiros meses de sua nova função. 

Até que numa noite sem lua ou estrelas, o homem da Ranger trouxe um pacote que Farley percebeu diferente. Não havia restos de terra úmida, grudados tenazmente no plástico que envolvia o corpo, como se protestando para levá-lo de volta ao lugar que, por direito, lhe pertencia, desde que a alma o abandonara. Não havia, em volta, aquele estranho cheiro de éter. Não parecia, portanto, tirado de alguma cova ou necrotério.

E, por entre um rasgão no plástico, ele percebeu algo mais. 

Continua dia 30 de junho. 
Foto: Sai-Kiran-Anagani - 7490 in Pixabay

Comentários

Ana Luzia disse…
nããããoooo! não vale, isso é maldade!
Anônimo disse…
Mais defuntos, brincadeira!
E esse assistente ainda vai acabar virando cobaia, hehehe...
Erica disse…
Aaaahhhhh... fala sério... não sabe brincar, não desce pro play.. Como assim, continua dia 30 de junho? Ele comprava defuntos vivos?
Anônimo disse…
Torcendo para q o Farley descubra alguma ética dentro de si e faça uma reviravolta nesta história!
Clarisse Amador disse…
No melhor estilo walking dead, rsrs

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …