quarta-feira, 28 de junho de 2017

ONDE ESTÃO OS PÁSSAROS? >> Carla Dias >>


Parada no meio da rua, enlouquecendo motoristas e atiçando buzinas. Quem é essa que se coloca dessa forma em uma avenida?  Não importa a aparência dela, mas a de seu gesto. Em menos de um minuto, muitas são as teorias a respeito dessa insana a atropelar a rotina das pessoas, a sujeita-las à possibilidade de terem de pagar franquia no caso de uma avaria em seus automóveis, e de atraso cumulativo, que atrasados todos sempre estamos nessa metrópole. Quanta dor de cabeça por causa de uma mulher qualquer cometendo a loucura de ficar assim, parada, à mercê dos possantes e dos olhares dos frequentadores de calçadas.

Nas avenidas, as línguas não são domesticadas, tampouco educadas. São bichos soltos, desavergonhadas com a benção da propriedade. Ninguém pode julgar aqueles que estão em suas casas de duas ou quatro portas. É propriedade ambulante, e há daquele que se coloque em seu caminho. Dependendo do desânimo, do grau de complexidade do sentimento vigente, nem mesmo o mais cuidadoso transeunte escapa de um possível acidente. Não importam os semáforos. Não importa o cuidado dos sem-carro. Transgredir em avenidas, às vezes abraça o sentido de fuga, e fugas são estopins de imprevistos.

E essa mulher? O que diabo ela faz ali, parada no meio da avenida, via de mão dupla, um vai e volta enlouquecedor, típico de cidade desvairada?

Chamem o resgate que o estrago vai ser dos grandes.

E muitos já escutam, imaginariamente, o som dos ossos dela sendo quebrados no impacto dos carros com seu corpo. Da carne sendo esfolada ao deslizar com violência na tez do asfalto. Muitos já formulam seus monólogos da hora do almoço, quando, alvoroçados e excitados, irão relatar aquele acidente lá na avenida, dos quais foram espectadores Vips. Falarão do sangue espalhado, ainda quente, sobre o cinza estriado do asfalto.

Ela caminha a passos ralentados pela avenida, ziguezagueando, colocando-se em perigo em ambas as vias. Os pés descalços, alguém os percebeu? Os pés descalços sangram alguma tragédia anterior. Contudo, ninguém está preocupado com tragédias anteriores. A que importa é a vigente, aquela que os telejornais alcançam em minutos, com a ajuda de dedicados informantes-espectadores e seus celulares dinâmicos, parcelados em dez vezes ou importados por dez salários mínimos.

Não demora e os helicópteros tomam conta daquele pedaço de céu.

As buzinas enlouquecidas, uma sinfonia de desespero sendo amplificada pelos gritos. Os gritos enlouquecidos, uma sinfonia de intolerância sendo amplificada pela incapacidade de se observar, antes de se render ao desejo desenfreado de criar enredo para a história que não nos pertence.

Logo ali, alguns carros adiante, uma senhora assina a autoria da biografia da mulher, enviando mensagens a um amigo que trabalha em um site de notícias. De acordo com ela, a mulher está atrapalhando o trânsito, colocando a vida dos motoristas em risco. Provavelmente, é uma dessas aí que gostam de uma boa bebida e um sexo selvagem com direito a cachê no final da performance. Essas sempre endoidecem, se dão mal. Ela fecha seu depoimento ao suposto repórter com o que se tornará a manchete do artigo que ele publicará daqui a cinco minutos:

Mulher insana desfila na marginal para enlouquecer motoristas do bem.

A questão é simples, ao menos nesse caso. Ninguém sabe por que a mulher se colocou em tal posição. Talvez, nem mesmo ela saiba, porque os distraídos, com a excitação e o deleite de presenciar um absurdo, sequer atentaram para o fato de que os cabelos dela estão coloridos pelo sangue vindo de um ferimento causado por uma pancada na cabeça. Que seu vestido está rasgado, de tal forma, que nem mesmo a moda contemporânea pode explicar. Os olhos dela? Um deles está fora de órbita.

Os pés descalços sangram de um jeito que não há como entender como ela ainda caminha.

Longos artigos foram escritos sobre a insana da avenida. Ela ficou famosa nos meios de comunicação como aquela que se impôs ao trânsito. Dizem por aí que foi protesto, que ela queria mostrar a imprudência dos motoristas e dos transeuntes. Porém, a versão da amiga do suposto jornalista é a que prevalece.

Alguns dias depois, foi inaugurada uma estátua da mulher insana na calçada da avenida onde ela se atreveu a caminhar. O artista concedeu várias entrevistas para elucidar a inspiração que o tomou ao ver aquela cena na tevê, captada em vários ângulos, por vários helicópteros. O prefeito da cidade se mostrou compadecido por aqueles que tiveram de assistir a tal espetáculo.

Antes que o resgate chegasse, que a polícia intervisse, que aquele meio de comunicação sempre atrasado soltasse uma nota a respeito, a mulher foi atingida não por um, mas por dois carros. Alguns escutaram o som dos seus ossos quebrados no impacto. Alguns viram a cena de sua carne deslizando com violência no asfalto. Alguns observaram o sangue quente dela se espalhando pelo cinza estriado do asfalto.

O corpo foi retirado e o trânsito voltou a fluir na sua anormalidade rotineira, aquela que todos reconhecem, da qual reclamam, mas com a qual convivem em paz. Helicópteros tomaram outros espaços do céu.

Uma hora depois, o auê era pelo ator de novela que entrou nu em um shopping center para comprar roupas novas em uma loja de puro requinte.

Para os não tão distraídos, sim, houve tragédia anterior. Não vamos debulhá-la, que já passou do momento. Mas fica a curiosidade sobre como tudo teria ocorrido se, antes de tomar para si a autoria da história daquela mulher, alguém a tivesse observado e perguntado:

Como posso ajudá-la?

Há uma pergunta que um astuto transeunte escutou a mulher fazer, um pouco antes do seu último suspiro. Ele se sentiu atormentado com aquele questionamento e comentou sobre sua agonia a um dos repórteres que chegaram, pouco depois. Qual será o significado de tal reflexão às margens da morte? Afinal, por que ela perguntaria:

Onde estão os pássaros?

Após um longo e confuso debate, eles concluíram que ela morreu com o desejo de voar de helicóptero.

A insana da avenida tinha um sonho.

Imagem: The Pretty Bird © Bernardus Johannes Blommers

carladias.com

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3 comentários:

Anônimo disse...

Emocionante!

O suspense foi crescendo, crescendo e... O final foi surpreendente!

Estilo Carla Dias.Sensacional!

Abraços,
Enio

Zoraya Cesar disse...

Só posso repetir o dito acima! Estilo Carla Dias: sensacional.

Carla Dias disse...

Enio e Zoraya, vocês são mesmo muito gentis com meus escritos. Serei sempre grata pelo tempo que dedicam a eles. Beijos!