quarta-feira, 14 de junho de 2017

DÁ TRABALHO SER >> Carla Dias >>


Nossas mazelas nunca foram tão populares, feito moda exposta em vitrine que, ainda que de fato não agrade, é consumida porque está no expositor mais importante da cidade. Aliás, essa importância nascida do bel-prazer, baseada exclusivamente no que um indivíduo pensa. Aplicada, escandalosamente, no coletivo, ela tem ajudado a deixar nossas mazelas com um verdadeiro spot apontado para elas.

Confesso que estou bem agoniada com o filme que ando assistindo. Ficção vem se tornando uma realidade moldada pela ignorância. Ele me faz lembrar de conversas que já presenciei, tendo de disfarçar o fastio, porque ainda era muito menina para expressar opinião sobre assuntos de adultos. Conversas nas quais eram desfiados todos os tipos de impropérios, alguns que acreditei terem sido banidos da nossa existência, em nome da evolução. Mas então, aqui estamos, revisitando alguns deles. Tomando-os como critérios e batizando cada um deles como ingredientes para se tornar um ser humano decente.

Enganando-nos.

Sinto dizer, mas a indecência anda de caso com a humanidade. Nem é a indecência dos prazeres consentidos, das que inspiram os poetas, das que fazem o mundo girar de um jeito que não o leve ao fim. É a indecência da miséria humana, daquele espírito ralo que já não se importa em observar e compreender o que é isso e o que é aquilo. Joga tudo em sua sacola reciclável, numa tentativa de bancar o descolado, e sai andando por aí, distribuindo intolerância.

Não, essa coisa de político corrupto desmembrando a nossa realidade é de deixar qualquer um acossado. Falam sobre milhões como se fossem troco de pão, enquanto a maioria dos brasileiros cata as moedas perdidas em bolsos esquecidos, tentando sobreviver, mês a mês. E não importa se na mesa de um o que falta é o pão, enquanto na do outro falta o champanhe. A desigualdade social apenas escancara com o que já sabemos: sobreviver é para os teimosos.

Há sim muito de positivo e transformador acontecendo por aí. A questão é que nosso olhar anda cada vez menos capaz de localizar esses acontecimentos. E não vale colocar nesse balaio aquele vídeo lindo que você compartilhou no seu perfil de rede social, que o emocionou por dois segundos e, depois, seu significado se perdeu no emaranhado de contravenções existenciais que você não consegue deixar de cometer. Não há nada tão letal – a si e ao outro – quanto se comportar como se ninguém mais importasse, além de você.

Em tempos de tantas conquistas pontuais, o retrocesso se abanca para assistir ao resultado de sua tempestuosa contribuição à nossa existência. Até anteontem, na lista de pecados moravam itens que não eram pecados, mas por falta de onde encaixá-los - ou ausência de empatia para fazê-lo -, lá estavam. Burocraticamente, impedimentos ridículos cerceavam direitos devidos. Tivemos um breve momento em que eles ganharam espaço, mas muitos deles voltaram para o exílio da burocracia que escraviza.

Não sei viver tranquilamente em um mundo onde um juiz julga se baseando no quão elástica é a reputação de uma mulher, porque ela pousou nua. Em que programas sociais são cancelados, porque há de se cobrir os rombos feitos pelos ladrões graduados e detentores do poder. E , e porque a disputa de poder não permite se endossar projetos de partidos opositores. No qual esses mesmos figurantes – porque políticos de fato eles não são, já que trabalham para si, não para o povo – tratam um problema de saúde pública da pior forma possível: com descaso, de olho no que pode ser positivo a sua gestão, não à vida das pessoas envolvidas. A culpa, essa sim tem sido bem elástica a esses senhores. Assim como a justiça.

Não há como se curvar a um cenário em que um indivíduo se acha no direito de julgar, sequestrar, tatuar a testa de um menor com a acusação escolhida, ou seja, torturá-lo. A matemática aí é das mais simples: e se fosse você? Seu filho? Seu irmão? Seu neto? Seu marido? Você realmente continuaria a bradar o bom, velho e completamente sem noção “bem feito”? Você não optaria pelos trâmites legais, pelo direito de seu afeto ser defendido? Direito a sua própria defesa? Porque, a meu ver, não há nada de bom em se tornar o algoz do outro, agir por conta, investir contra o outro a sua capacidade de cometer atrocidades.

Incomoda-me a aceitação que alimentamos sendo coniventes com o que já deveríamos ter compreendido. Mulheres negras sendo processadas, enquanto são vítimas que procuraram a polícia e encontram o preconceito. Crianças sendo espancadas por colegas de escola, que depois publicam os vídeos na internet. Indivíduos que propagam mentiras, simplesmente porque essas mentiras são agradáveis a seu paladar.

Amar dá trabalho. Compreender a situação de forma ampla, dá trabalho, e muito. Agir em nome do coletivo, dá trabalho que só. Manter-se positivo, diante de tantas atrocidades acontecendo, nada fácil, mas possível.

Dá trabalho ser humano. Melhor, então,  não sermos preguiçosos.

Imagem © Max Ernst

carladias.com



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2 comentários:

Anônimo disse...

A crônica que levanta a voz sobre essas mazelas do nosso cotidiano. Mazelas que a gente vai se acostumando e que nem percebemos que estamos indo rumo ao abismo.
Valeu. Carla Dias por acionar o alarme!

abraços,
Enio.

Zoraya disse...

Ainda bem que você se dá ao trabalho de ser, Carla, e nos presenteia, generosamente, com sua beleza interior. Obrigada!