sábado, 17 de junho de 2017

ENVELHECENDO >> Sergio Geia



Pois não é que fui parar num pronto-socorro? Meio sem vontade, claro; aliás, quem vai com vontade a um pronto-socorro? Mas imaginar aquela parafernália toda, a demora, e, geralmente, o resultado, que é quase sempre previsível, pelo menos pra mim, já me serve como um bom desestimulante ou uma boa terapêutica, vai, remedinho da hora pra me deixar novo em folha. No entanto, o dia foi passando, o sol mudando de lado e eu nada de melhorar. De café da manhã, uma maçã; de almoço, uma pera.
No caminho fui fazendo o diagnóstico (eu sempre faço isso): vômito + diarreia + calafrio + desânimo + dor abdominal = intoxicação.
A minha única dúvida era saber a causa. Primeiro pensei nuns salgadinhos que eu tinha comido numa festa sábado à noite. Depois, num frango à parmegiana que tinha comprado no sábado, pra comer no domingo. Por fim, o excesso de estrogonofe do almoço de domingo. Tem também aqueles que falam que não foi a comida, mas eu mesmo que não estava num dia bom, pois é. Mas a vilania mesmo, depois de pensar muito, eu entreguei a esse chocolate dos deuses da indústria brasileira: o Ouro Branco. De quinta a domingo, se não errei a conta, comi uns 25.
Comentário 1. Tá bom, eu reconheço, foi demais. Acontece que hoje, com 48, qualquer coisa que eu coma fora de contexto, e fora de contexto quer dizer tudo o que não seja um arrozinho, feijão, grelhados, saladas, legumes, já causa um terremoto na minha barriga. Antigamente eu chegava meia-noite em casa, comia um x-tudo, depois dormia como um anjo. Não precisa dizer. Eu sei. O tempo passou.
Pois não é que fui fazer xixi e a urina saiu vermelha? Sangue. Parecia uma cerveja bock. Primeiro pensei se tinha comido beterraba. Pensei em hepatite (eu já tive hepatite na infância), infecção de urina, pedra nos rins. A recomendação que dei a mim mesmo naquele momento (eu sempre faço isso) foi beber água, muita água, um caminhão-pipa. E a urina foi clareando, clareando, clareando, até normalizar. No dia seguinte, pela manhã, ela voltou vermelha. Fiz a mesma coisa. Ela normalizou, e já faz dias que está normal. Mesmo assim, procurei um médico. Tô fazendo exames. Já vi que na urina, as hemácias estão elevadas; leucócitos também. Amanhã faço um ultrassom dos rins e das vias urinárias. Hoje estou sentindo um desconforto na bexiga que vai e vem.
Pois não é que acordei com uma mancha nas costas? Assim do nada, de coisa nenhuma, tal como aparecem as dores, o torcicolo, o espirro. Dormi com as costas limpas, acordei com ela manchada. De repente, a mancha se instalou na omoplata e lá ficou; gostou das minhas costas. Uma nuvem escura no céu da minha costela. E como o PSDB, não há nada que a faça desembarcar.
Meio arroxeada, ligeiramente escura, e coça. No começo não liguei. Fiz pouco caso, mesmo porque o incômodo era risível. Achei que fosse como mais uma dessas insignificâncias que aparecem, e tão rápido como aparecem, somem. Não foi o caso. Já fui a três médicos, até biópsia quiseram fazer. O diagnóstico que deram é que não é nada, apenas uma inofensiva manchinha. É da idade, disse-me um deles. No máximo uma pomadinha pra aliviar a coceira e, quem sabe, dar uma ligeira clareada.
Pois não é que outro dia eu não arriei o cóccix? Não conseguia fazer yoga, nem andar de bicicleta, uma simples encostada na parede eu já tremia de dor. Nos exames, nada. Segui as prescrições e nada. Com o tempo a dor sumiu. Misteriosamente. Só que eu já tinha ido num clínico geral, num urologista, num proctologista (não me pergunte o que eu fui fazer lá, ok?), nuns dois ortopedistas, muitos exames pelo caminho até chegar ao cóccix.
Comentário 2. É triste, amigo. E inexorável. A não ser que as ideias do Aubrey de Grey comecem a vingar logo, as visitas a médicos, hospitais, laboratórios, clínicas, farmácias, ocuparão cada vez mais um espação na nossa corrida pela vida.
Pois não é que fui comer um amendoinzinho e o dente quebrou? Enchi um copo de cerveja...

Ilustração: Vincent van Gogh


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4 comentários:

Cristiana Moura disse...

É, meu amigo, inexorável.
Mas preciso confessar um prazer em me identificar em seu texto, em não estar só ;)
beijo

Anônimo disse...

Muito bom Serginho! Sem contar as letrinhas que líamos antes e hj nem com óculos! Abraço Ricardo Azeredo

sergio geia disse...

Esqueci, Ricardo. Tbem tô nessa. Que Legal, Cris rsrs. Tamo junto. Bjs

Zoraya disse...

hahaha, Sergio, acho q vc precisa visitar também os Capuchinhos...