quinta-feira, 1 de junho de 2017

O OUVIDO É O MUNDO>>Analu Faria

O livro daquele autor-que-todo-mundo-diz-que-é-ruim falava sobre uma viagem mística por um roteiro espanhol esquecido. Essa obra de você-sabe-quem acabou reavivando o turismo religioso no Caminho de Santiago, em proporções inacreditáveis: antes do livro, pouco mais de mil peregrinos faziam a rota por ano; um ano depois do livro "estourar", mais duzentas mil colocaram a mochila nas costas rumo à Espanha. É quase um "levanta-te e anda!"em escala global. Aquele escritor-sobre-quem-ninguém-fala-bem fez um milagre de dar inveja a santo. 

O fenômeno, porém, não é absurdo: "it's the words, stupid!"* Eu sei que literatura boa às vezes não vende e blá blá blá uma pena o fulano ter morrido miserável porque blá blá blá as massas não sabem o que fazem blá blá blá. Só que eu não estudei o suficiente para falar sobre literatura boa e literatura ruim com propriedade numa crônica. Estou tentando mostrar que alguém, em algum ponto do universo, soube que outros muitos alguéns gostariam de ouvir histórias sobre um mago que faz uma peregrinação cristã. 

Eu não sei se vale a pena escrever ou dizer o que as pessoas querem ouvir ou ler. O que eu sei é que é importante ouvir. Aquele-escritor-que-não-deve-ser-nomeado... será que ele estava atento a isso? Ao que as pessoas dizem, como dizem? Será que ele percebeu que o que as pessoas dizem revela o que elas querem ouvir? Será que foi assim que ele escreveu o livro? Será que entendeu que as pessoas precisavam ou queriam um mundo encantado? 

Não sei (muitos não-seis nesta crônica!) e nunca tive a oportunidade de conversar com o-escritor-que-quase-foi-linchado-quando-eleito-para-a-Academia-Brasileira-de-Letras. Só sei que as palavras certas na hora certa podem mover o mundo, talvez as palavras sejam até mais fortes que a economia! Quanto mais escrevo e quanto  mais fico calada, mais ouço coisa que deveria estar num livro. Isto, por exemplo (ouvido na rua,em Brasília): 

_ Eu posso te chamar de filis?
_ Como assim, mãe?
_ Ué, você me chama de mamis! Direitos iguais!




















*"São as palavras, seu burro!". Parodiei uma famosa frase de um estrategista de campanha de Bill Clinton. Originalmente, a frase é: "It's the economy, stupid!"



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Um comentário:

Carla Dias disse...

Ah, a grande questão sobre esse escritor. Às vezes, eu acho que a coisa é meio mística mesmo.O universo precisa que se volte a atenção a algo, a alguém, a determinado lugar e usa as ferramentas que tem. É o valor da palavra cabendo onde tem de caber no momento. Até porque não há como contestar o sucesso do escritor em questão.
Beijo!