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AOS LETÁRGICOS >> Carla Dias >>


Não despertar sentimentos incômodos. Mantê-los ressonando em tom de resistência profunda. Evitar barulhos dissonantes e palavras irreverentes. Paz na terra aos homens e às mulheres que costumam debulhar cansaços próprios. Permitir ao silêncio ser a canção das vinte e quatro horas de cada dia mergulhado em esperas.

Que os relógios se libertem de nós, amém.

Alhear-se das saídas de emergência, entregando-se ao balé das portas e janelas, eles já entregues – corpos e dobradiças –  à irreverência do vento. Coabitar salas interiores das quais os fascínios indesejados são os proprietários. Render-se ao escapismo pontual. Nublar diálogos complexos ao meditar sobre o episódio de ontem da novela.

Caminhar sobre o piso frio da indiferença, ignorando os abismos que ela tece com tanta elegância arrependida. Tatear a escuridão das presenças ignoradas, para sentir a frigidez de suas vontades. Acumular manuais de instruções e roupas que não cabem mais.

Silenciar desejos impróprios para letargia e ruminações. Estender insignificâncias nos varais das intensidades. Jamais se entregar aos devaneios ofertados por troca de olhares.

Crucificar esperanças teimosas e alegrias furtivas. Então, banhar-se em nostalgia sequestrada da biografia de outros. Cometer pequenos delitos emocionais e maldizer margaridas.

Deve-se estabelecer uma longa distância geográfica das flores, seja em vasos ou jardins, para que elas não inventem de inspirar suspiros e atos de rebeldia, como o de se enxergar beleza em fim de tarde, enfeitar-se com a companhia do outro, cantarolar canção que morava no esquecimento. Deliciar-se com perfumes e delírios. Emaranhar-se nos cabelos da esperança. Saciar-se com cores em buquês.

Acordar-se.

Imagem © Henri Fantin-Latour

Comentários

Anônimo disse…
Cuidadosa com as palavras, descuidada com as emoções: Atinge direto o nosso coração!
Zoraya Cesar disse…
Ai, Carla, tenho de ler essa poesia mil vazes, pra absorver toda a beleza desse texto! Obrigada!
Carla Dias disse…
Enio, mais uma vez, obrigada.

Zoraya, a poesia tem uma queda pela prosa, não? Gosto de pensar que sim.

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