quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

MEMÓRIA {Anna Christina Saeta de Aguiar]

Quantas pessoas a gente encontra e perde ao longo da vida? Pessoas que um dia fizeram parte da nossa rotina, e de quem hoje lembramos apenas o nome ou o apelido. Gente da nossa infância ou adolescência, tempo bom em que quase todo mundo vira amigo, mas que hoje poderia dançar sem roupa em cima da mesa na nossa frente que não reconheceríamos nem que a nossa vida dependesse disso. Com quanta gente eu já dividi um chocolate, um cigarro, uma ida ao cinema e que, por uma circunstância qualquer, sem nenhuma briga ou rompimento, ficou para trás, enquanto a vida seguiu?

Algumas dessas pessoas que perdi pelo tempo devem também se lembrar de mim, espero. De algumas, lembro histórias, casos, situações. Todas elas foram de tal forma perdidas que seria impossível reencontrá-las se quisesse. Não há sobrenomes ou pistas que permitam qualquer busca. E, para falar a verdade, não sinto qualquer simpatia pela idéia de resgatá-las, pois estão tão bem situadas na minha história passada que prefiro manter a intocada a lembrança, sem releituras. São personagens quase poéticos de um tempo que parece não ter existido de verdade.

Como a Rosinha, que tinha lindos cabelos lisos. Rosinha morava na mesma rua que eu, no bairro do Cambuci. Eu tinha 6 anos quando a conheci. Lembro que era uma menina delicada, muito carinhosa e que tinha um pai italiano muito bravo, que mantinha um armazém na parte de baixo da casa. O pai da Rosinha só a deixava brincar de vez em quando, desde que ficássemos na garagem ao lado do armazém, sob as vistas dele. Para chegar à casa dela, era preciso passar pela garagem e subir a escada. Então, com ajuda da mãe dela, eu me esgueirava pela garagem, passando rápido pela porta lateral do armazém, sem fazer nenhum barulho, para poder subir e brincar com ela em casa sem que ele soubesse. Lembro que o quintal era enorme e que eles tinham uma criação de coelhos. Eu nunca tinha visto um coelho de verdade antes de ir à casa da Rosinha. Coelhos têm olhos vermelhos!

Na mesma rua, numa casa bem perto daquela em que morávamos, ficava o salão de beleza de uma japonesa. A japonesa tinha um filho chamado Carlinhos, que era da minha idade e estudava na mesma sala que eu. Íamos para a escola todos os dias juntos, às vezes levados pela D. Abgail - que era a merendeira da escola e sempre me separava bolachinhas extras na hora do almoço! - e outras vezes pela minha mãe. Um dia, Carlinhos queimou a mão brincando com fogos de artifício. Lembro-me da mão enfaixada, da pomada amarela visível na ponta dos dedos e de que me incumbiram de ajudá-lo a abrir a lancheira na hora do recreio. Um dia minha mãe me contou que Carlinhos tinha dito que eu era namorada dele. Mas eu já tinha um namorado...

O meu "primeiro namorado" foi o Ricardinho, filho de um casal que meus pais conheceram na lua-de-mel. Ele tinha a mesma idade do meu irmão, ou seja, era dois anos mais velho que eu. Brincávamos muito, brincávamos de tudo, brincávamos os quatro - meu irmão e eu, mais Ricardo e o irmão dele. Um dia, estávamos brincando de "mês", aquele jogo em que uma dupla sai da sala e escolhe um mês, para ser adivinhado por um outro jogador que, então, poderá escolher "o que quer da vida". Sei que uma hora fizemos dupla e lá fomos nós, para um quarto escuro, onde ele declarou que me amava para sempre e que iria se casar comigo quando crescesse. Doce lembrança... Colamos os lábios e juramos que jamais contaríamos para ninguém sobre o nosso namoro, demos três beijinhos nos dedinhos cruzados e cumprimos para sempre nossa promessa: nunca contamos para ninguém.

Tem gente que encontrei e perdi durante a adolescência, como um garoto chamado Glauber, que estudou comigo durante alguns meses e uma vez me mandou por correio uma foto dele tomando banho de espuma numa banheira quadrada. Um moço chamado Mauro, que trabalhava num supermercado e por quem nutri avassaladora paixão platônica. Soube depois que esse rapaz morreu afogado numa represa. A Marta, que trabalhou comigo num escritório e que, um dia, ao me ver com um arranjo de flores nas mãos, pediu para eu jurar que não eram para ela, pois era dia de seu aniversário e ela detestava flores... e não eram mesmo para ela as flores. Leni, Fabio, Renata, o Tom e o Caco... A lista é enorme.

Outro dia, não sei por que motivo, comecei a pensar nestas pessoas que encontrei e perdi, relembrando estas histórias que, para mim, são preciosas. Se é verdade que a vida inteira passa diante dos nossos olhos antes da morte, foi uma prévia do que pode acontecer. Penso em quantas pessoas mais eu lembraria se fizesse um esforço intensivo para isso. De todos, espero que, estejam onde estiverem agora, estejam bem. Tenho por eles um grande afeto. Fazem parte da minha história e da minha vida da forma mais definitiva que existe: na memória.

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5 comentários:

Eliana disse...

Chris, querida minha, não é só na hora da morte que a vida passa diante dos nossos olhos... quando precisamos lembrar o quanto fomos privilegiados por ela com a presença de pessoas especiais no nosso caminho, ela faz a mesma coisa. Pelo texto, que adorei, diga-se de passagem, percebe-se que essas pessoas somam com você até hoje e que contribuiram para a formação da pessoa especial e querida que você é. Seu texto me fez pensar em muitas pessoas queridas que cruzaram meu caminho e deixaram marcas igualmente importantes no meu coração. Me fez pensar em uma, especialmente, que é a melhor e a mais doce de todas e que se orgulharia da neta que produz crônicas com tanta sensibilidade e competência.
Beijos,
Tia

Mirinha disse...

Chris, minha doce Chris, nossa. :)

Eu me torno repetitiva cada vez que penso em comentar o que escreve.
É uma delicia te ler e reler e o que conta traz sempre algum sentimento que a gente guarda no fundo do coração e só se lembra dele nessas horas.

Obrigada por resgatar tantas coisas boas.

Anônimo disse...

foi aqui neste site que te encontrei.estava com saudades de a ler. Beijinhos Flora

Anônimo disse...

Tinha saudade de te ler, Chris.

Adoro seu texto e viajo com ele.

Beijos

Virginia

Alessandra disse...

Ahhhhhh então é aqui que se esconde né? Acheiiiiii!!!!