sábado, 26 de janeiro de 2008

RESQUÍCIOS [Ana Carolina Coutinho]


Conversando no MSN com uma amiga dia desses, ela me conta as novidades, e diz, pesarosa, que o ex-marido vai se casar de novo. Antes que eu pudesse escrever de volta, a tela em minha frente já piscou: “Já estou bem resolvida com isso, claro. Mas é que, poxa, se casar com ela?”. Ela se justificou, sem nem precisar.


Entendi. E entendi imediatamente. Nós, mulheres, somos todas assim. Ou quase todas. É raro, muito raro, uma mulher que consiga ser indiferente a um homem por quem nutriu especial amor e dedicação. Ela pode passar a ter carinho por ele, pode passar a odiá-lo até, mas dificilmente se tornará totalmente indiferente diante de notícias como essa. Vai fingir talvez, e nisso sim há mérito. Fingimos bem, às vezes enganamos a nós mesmas, mas, bastará um pouco de reflexão que a pergunta que surgiu à minha amiga Simone, surgiria em todas nós: Casar com ela? Em questão de minutos, o traste do ex-marido é lembrado como um homem divertido e inteligente com quem ela foi, não angustiada e sofrida, mas alegre e livre...

Ah, que bicho estranho somos nós, não é? Ou não? Ou seríamos estranhas, isso sim, se esquecêssemos de um tempo de desmedida dedicação e ternura, uma relação que tornou-se tão delicada e rara quanto um tesouro único feito da mais fina louça, e carregado com cuidado por entre maremotos e trovoadas, pelas suas hábeis e fortes mãos...

Não esqueceríamos, não esquecemos. Passamos sempre um longo e difícil luto, para conseguirmos, a duras penas, entender que esse homem não era certo, não nos faria feliz, não sabe ter compromisso, não sabe ser fiel, cúmplice, dedicado, não sabe ser um marido, afinal. E então, quando nos achamos refeita, chega a bomba. Ele, que é um crápula insensível, vai se casar mais uma vez...

Simone, minha forte amiga, estava desolada. Não pela nova esposa do ex-marido, nem mesmo pelo próprio ex-marido, mas por si própria. Se ele é um cara casável, por que não ficou com ela? Se ele é tão apaixonante como ela sempre achou que fosse, por que não permaneceu apaixonante com ela? Subitamente os questionamentos reapareceram.

Por que comigo não, e com ela sim? Será que eu deveria ter tentado mais, será que ela é mais calma, mais esperta, mais magra? Ou não, ele era mesmo um grosso? Mas então,
se era de fato tão emburrado, mesquinho, grosseiro, como foi possível deixar de ser, bem na vez da outra? Será que ele mudou? Será possível que os anos em que tentei mudá-lo, os infinitos discursos, as enormes provas que dei a ele de seus gestos e palavras enganados, agora, surtiram efeito? Mas bem na vez da próxima?

Simone sente-se como se tivesse tido seu tesouro roubado. Uma coisa é ter seu tesouro perdido, mala extraviada, sem novo dono nem novo destino, desapareceu no oceano e, talvez, nem valesse tanto assim. Outra, completamente diferente, é ter sua mala, aquela que você levou dias pra arrumar, uma noite inteira pra fechar, aquela onde está guardado sua necessaire com os melhores produtos, garimpados por anos, e sua calça predileta, entregue na casa de outra. E essa outra, que você nem conhece, abre um sorriso fresco, provavelmente mais fresco e jovial que o seu e, deliciosamente feliz, sai vestindo seu jeans usado, passando no rosto liso seus melhores cremes e perfumando o colo com aquele restinho que você tinha guardado da colônia que tanto adorava.

Simone, uma mulher linda, forte e inteligentíssima, sentiu-se absolutamente burra por um instante. Sentiu-se desolada, enganada, a vida lhe pregrara uma peça. Ele, o traste, deve ter se vestido de terno uma vez mais, para receber sua linda noiva num altar qualquer. As imagens perturbavam Simone dia e noite.

Enquanto ele refaz a sua vida, Simone também se vê como um disco riscado, repetindo o que já exercitou em outro tempo. Por mais uma vez, Simone vai viver um luto, de uma marido já perdido. Talvez agora dure menos, talvez não. Dessa vez Simone vai chorar calada, não vai se confessar a muitos amigos, vai resguardar a sua dor e, em seguida, cedo ou tarde, vai se refazer mais uma, entre tantas vezes...

O amor causa a nós, mulheres, maior encanto e perplexidade. Todas nós temos, como que impresso em nossas memórias afetivas, em um lugar doce e terno dentro de nós, lembranças tão livres e felizes, que os homens talvez nunca enxerguem essas cores e nuances que se dão em nossa vida, quando nos sentimos com a alegria leve de um amor bom. Mas talvez, por essa mesma razão, eles se levantem e se refaçam uma só vez, quando muito.

Enquanto isso, nós nos questionamos, nos revoltamos, nos maltratamos até, para sempre em seguida, nos levantarmos também, juntarmos nossos cacos e, daí sim, com maior empenho e maior mérito, andarmos de novo, não com muletas, mas com a força habitual das nossas próprias pernas.

Doce Rotina

Imagens: A Sweet Gentle Kiss, Annette Pierce/ Lágrima, Autor Desconhecido

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8 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Talvez seja o meu lado mulher, Ana... pois eu me identifiquei muito com essa sua crônica. :)

Analu Menezes disse...

Oi Ana,
é impossível não se identificar com sua amiga. Eu realmente nunca vou entender esses mecanismos de chegadas e partidas, de amores que eram pra sempre e que semrpe acabam...
Eu gosto mesmo de dizer que não sou daqui. E nao sou mesmo. Meus sonhos utópicos coloridos não se encaixam num tempo em que ir e vir, amar e deixar de amar, é tão fácil e natural...
beijocas! Parabéns pela crônica!

Debora Bottcher disse...

Pois é... O texto é ótimo e serve como reflexão, pois vê-se muitas mulheres (e homens) com essa sensação de perda muito tempo depois que tudo está terminado. Pessoalmente, não me identifico com esse 'mecanismo' porque costumo encerrar minhas relações de um jeito bem resolvido - daí, fico mesmo é desejando que o outro refaça a vida e siga seu rumo, como pretendo que seja pra mim...
Beijo, bonita. Sempre bom te ler...

Cris disse...

Ana, que mulher nunca foi "Simone"? Ah, se os homens soubessem o quanto dói... eles até sabem, eu acho, mas não sabem é ser diferentes da natureza que lhes foi dada. Como aquela história do escorpião e da rã: ele tinha que picá-la, era da natureza dele.

Excelente seu texto e tenho certeza que ainda vou lê-lo impresso nas páginas de um livro. E, com fé, estarei lá para pegar um dos primeiros autógrafos. =D

bises

Carla Dias disse...

Ah, Ana... Que essa coisa de amor nos coloca em xeque, é fato, não? Tudo o que julgamos alicerçado, bambeia em situações como esta, quando nos questionamos porque não deu certo conosco, mas sim com outra pessoa. A maluquice que a vida promove é que, quase sempre, também somos a outra pessoa na vida de alguém.
Enfim, vamos passando por isso da melhor forma possível, não é?

Amanda disse...

"A heart is a fragil thing! That´s why we protect them so vigorously, give them away so rarely, and why it means so much when we do. Some hearts are more fragile than others, purer somehow, like crystal in a world of glass. Even the way they shatter is beautiful!!"

Li sua crônica e me lembrei desse pensamento que li uma vez! Acho q é por isso que realmente nos marca o coração se separar de um grande amor, o amor não acaba de uma hora pra outra e isso é difícil de controlar. O coração nessas horas não parece entender que é mais fácil olhar pro lado e deixar o sentimento de lado do que ficar remoendo aquela esperança de que "poderia ter dado certo!"
um abraço!

Carol Barcellos disse...

Eu me orgulho de ser assim como essa Simone! Mas a tristeza maior reside em sentir que alguns (só pra não generalizar, caso haja exceções) homens não conseguem entender a profundidade e a sinceridade do nosso amor. Dói muito dar provas de amor durante anos e mais anos, e de repente, ouvir da pessoa a frase "Eu não sabia que vc me amava assim". Será que o amor feminino é invisível para os homens?

Enfim, amei o texto!!!

Beijos e pétalas de rosa cristalizadas!!!

Bruno disse...

Querida Petit,

vc realmente têm um dom enorme para lidar com as palavras e escreve com uma naturalidade...

Só tenho a lhe agradecer pelos ensinamentos que teno adquirido ao seu lado.

Te amo

Bruno