terça-feira, 22 de janeiro de 2008

BEM GUARDADO -- Paula Pimenta

Sou saudosista. Talvez essa seja uma das minhas características internas mais marcantes. Não sei se herdei isso geneticamente, se é do meu mapa astral, se foi da criação... mas o caso é que eu não consigo me desligar do passado, por mais que o presente seja muito melhor.

Até hoje tenho todas as minhas agendas-diários da época do colégio e volta e meia recorro a elas para ver o que eu fiz em tal dia de tal ano... e então me pego em uma viagem no tempo, de risos e de lágrimas, que às vezes dura dias.

Cartões de aniversário eu tenho aos montes, por mais que eles digam a mesma coisa ano após ano. Simplesmente não consigo jogar fora algo carinhoso que alguém escreveu para ou sobre mim.

Por esse motivo, outro dia assustei quando meu namorado me contou que não guarda nada. Eu disse que nunca teria coragem de colocar no lixo algo que ele tivesse me dado, até o papel que embrulha os presentes dele eu tenho dificuldade de me desfazer, mas ele acha que o que eu escrevo ou digo hoje, vale apenas para hoje, que ele guarda tudo apenas no coração, que aquele conteúdo pode não significar a mesma coisa amanhã, que as pessoas mudam dia após dia.

Pensei muito a respeito. Realmente têm pessoas mais desprendidas que as outras, que não acumulam nada, desapegadas. Acho que essas pessoas devem ter também mais facilidade para se libertar das emoções. Porque eu simplesmente não consigo concordar que um sentimento possa mudar de um momento para o outro. Concordo que as pessoas ficam diferentes, mudam de opinião, mas isso não é de repente, leva tempo. Se eu escrevo – por exemplo – uma carta de amor hoje, com certeza vou continuar sentindo o que a motivou por bastante tempo, os meus sentimentos não são efêmeros, eles duram muito, até que apareça uma outra emoção mais forte para colocar no lugar, seja ela de raiva, de paixão, de indiferença ou do que for. Mas certamente enquanto o amor durar, eu não terei a menor intenção de me desfazer das lembranças “palpáveis” e elas ficarão guardadas em um lugar bem acessível, que eu possa rever na hora que der vontade.

Guardo meus discos de vinil da infância, os livros da coleção Vaga-Lume que eu colecionava, bilhetinhos trocados com minhas amigas na escola, um chumaço do pêlo da minha cachorrinha que morreu, cartas à mão da época que ainda nem existia internet, declarações de amor, e-mails, scraps, retratos e mais retratos... e dou valor a quem faz isso também. Outro dia encontrei, por acaso, o meu melhor amigo de adolescência, e ele falou que ainda tem todas as cartas que eu escrevi para ele quando fiz intercâmbio. Fico tão feliz de saber coisas assim, dá a sensação de que você foi importante para alguém a ponto dessa pessoa guardar uma lembrança sua, por menos que você faça parte da vida dela atualmente.

Claro que não é pra ser radical, como a minha avó, que guarda até as caixas de sapato, ou a mãe de uma amiga, que diz que nunca vai fazer plástica porque aquelas rugas são parte da história dela. Eu conservo apenas o que me fez feliz algum dia. Minha vida não é só o presente, mas também o que já vivi e o que ainda viverei. Tudo fica bem guardado no coração, mas coloco também na gaveta, as recordações do passado. E na cabeça, os planos para o futuro.


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2 comentários:

Monica disse...

Oi Paula,
É sempre muito bom ler suas crônicas.
Sempre me achei muito apegada, saudosista mas vi agora, lendo sua crônica, que guardo bem menos coisas que você e que aos poucos estou conseguindo me desfazer de coisas e sentimentos que hoje não têm mais importancia e cujo "espaço" poderia ser ocupado por sentimentos melhores e mais atualizados. Desapegar-se é um bom exercício também.
Um abraço,
Monica

Carol Barcellos disse...

Paula, também tenho todas a sminhas agendas-diários guardadas desde 1996. Guardo tantas coisas quanto você, fotos, então, são coisas que guardo com o maior cuidado e carinho! Não sou desapegada de forma alguma, tb acredito que as emõções não são efêmeras, mas já estou começando a acreditar que para os homens tudo seja mais efêmero. O que é horrível, claro! Mas há as exceções, felizmente, como o amigo que vc encontrou, que bom!!!
Somos mesmo resultado do que já se passou. E vc está certíssima em tb guardar coisas para o futuro!

Gostei tanto de ler seu texto! Me fez lembrar de muitas coisas que tenho guardadas, e de uma poucas que me desfiz, e até hj, me arrependo amargamente...

Beijos e pétalas de cristal!!!