sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

INEVITABILIDADE >> Leonardo Marona


O ideal seria poder gritar para nunca mais olharem para mim daquela forma. E que não lessem isso como lamentação irada. E que meus dedos parassem de se mexer à toa. E eu de fato grito. E eu do grito faço a porra. Aquilo que vai e fica no pau dependurado. Mas o grito sai mudo e ninguém escuta nada. Porque tudo que é mudo muda tudo e rega a muda morta do bem e do mal. Enterro a dúvida para sempre debaixo da vala, faço da vida a morte da fala. Então somos capazes de sorrir. Mas os sorrisos de agora vivem da morte do entusiasmo. Porque esquecemos do que realmente se trata o entusiasmo. Afinal, quem se trata é paciente e eu tenho pressa em saber que doença é essa que pode desmentir meus olhos. E a morte é só aquilo que me dizem enquanto sangram os porcos. Então duvido de mim mesmo, dos ouvidos, dos sinônimos, do dilúvio, do desprezo. E penso: e peso: e meço as conseqüências. É isso enlouquecer? A balança não responde, está enlouquecida. E continuam me olhando de cima a baixo. Uns tentam entender, se aproximam sem pressa, outros entendem bem mais do que tentam. Faço a mim mesmo de capacho e gosto do gosto da terra molhada amassada na gengiva rasgada durante alguns sonhos. Sara, sua saia sacia! E eu continuo aqui sem cria, sem credo, sendo que aqui pode ser lá, noutro lar, debaixo de outro teto, mas continua sempre sendo aqui, como se o aqui fosse o passo paralisado. E continuo sem saber de onde vem aquilo que não encontro. E uma pessoa me diz ao telefone que sou amargo demais. Que rio pouco, que sou calmo demais, rabugento demais, irritado demais, que tenho um ótimo humor, que hesito demais, falo demais, contradigo rápido demais, e de que adianta então saber? Não se decidem sobre mim. Apenas se livram com seus nomes e dedos nos olhos. Eu gosto assim. Calmamente triste é quase feliz. E o que me faz parar é a continuidade daquilo que abala as bases sólidas da dúvida eterna: a pressa pelo fim / a demora pelo começo. Não havia mais pelo que gritar. Não havia grito por que fazer. Não havia fato por grito feito. Eu mesmo tento ouvir direito, mas fico ali com meus pequenos barulhos. Minhas lufadas asmáticas. Procuro me guiar pelo que se aproxima do silêncio. Os cabelos caem a passos largos, a barriga incha a olhos vistos, os olhos murcham e se avermelham, a cabeça incha e a paz some. Mas os ponteiros não param nunca, o instante permanece em movimento, o que se chama eternidade, os carros, as pessoas, as promessas, o futuro, passam todos sem deixar rastros, mas deixam marcas substitutas. E não posso evitar que me olhem. Não posso evitar olhar. Os olhos sempre percorrem aquilo que nunca esteve lá. Algo que está sempre me abandonando: o tal maldito e devido lugar. As coisas se fecham sem ao menos se mexer. Eu me mexo sem ao menos me fechar. Duro trinta segundos a cada minuto e com isso tenho mais muitos anos pela metade. A cada minuto humano, para mim é sempre momento de baixar os panos. Eu não posso mais dizer eu não posso mais dizer eu. Queria escrever como a rosa é bonita e que isso significasse mais do que a velha falou em Paris. Queria sorrir sem precisar dar a mão. Queria saber quem foi Debussy. Mas preciso não ver para permanecer aquilo que de mim se faz você. E, vejam bem, você quer dizer vou ser, no minuto em que você – ou vou ser – fizer de mim o outro da vez. No minuto que durar apenas um minuto, soltaremos fogos e não vou querer mais baixar os braços. Riremos juntos do tempo e vou recolher meus trapos numa sacola e vai ser a primeira vez que o vento vai me ajudar a andar em vez de me encher a cara de poeira. Agendar a tristeza para o próximo dia útil. Apostar com o diabo nos cavalinhos. Beberemos cerveja, eu e o diabo no prado, e quanto ao resto, ficaremos calados. Felizes e calados como o primeiro segundo depois do amor. Daí, vou calçar os sapatos, na mão em riste vai meu dedo polegar, com Jack London em qualquer vagão, para qualquer lugar onde esteja escrito vá com exclamação. Guardarei nos olhos a mostra morta da paixão, nos bolsos o que se falou até aqui sobre a vida, do perdão e do que não pode mais ser perdoado. Melhor não falar mais nada. Lá fora pedem que eu ande mais rápido. Lá fora até as árvores têm pressa. Até os que voam sentem fome. E quanto mais fundo se mergulha, maior a sede. E quanto maior a sede, maior a mentira por um copo cheio. E mesmo os bêbados perdem o nome, mas mantém o corpo alheio. Arrasto-me pelas calçadas coçando a cabeça e olhando para o chão. Um dia saberei o que me faz coçar tanto. Essa frase é tão desnecessária quanto um ponto-vírgula. E nesse dia a coceira será ferida. A ferida será aberta. E não vai mais coçar porque vai arder. Porque o pus do silêncio será mais violento do que os cascos de uma cavalaria em chão de pedra. A preguiça, mais agitada do que mil perdizes rasgando o céu. Porque entender será sempre julgar. E julgar será sempre culpar alguém por aquilo que não se pode evitar em nós. E culpar será sempre magoar o que não se pode mais tocar. E magoar será sempre projetar. Aquilo de ti que ainda não foi embora e me habita, me escorre pelas canelas.


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