sábado, 5 de janeiro de 2008

CARTA PARA O ANO NOVO [Debora Bottcher]


Ok. Eu sei que já é dia cinco e que você, adiantado uma hora, abomina os atrasos. Mas há que se considerar que despedir-se de um ano, e entrar logo em outro, demanda providências que causam um cansaço enorme. São preparativos infindáveis, coisas demais a fazer, um desdobrar-se em muitas pra dar conta de tudo.

Você tem que compreender: toda vez que me sentei pra te escrever, urgências me sucumbiam. Chamam a isso de mundo moderno... Fazer o quê? Você passa sem parar, a humanidade tem que evoluir apressada pra não te perder de vista...

Bom, mas agora aqui estou, te saudando com calma, do jeito que você gosta: sem barulho, sem exageros, só eu e você num papo ameno, sem ajustes nem cobranças.

Pra começar, quero dizer que me despeço do seu antecessor sem mágoas ou rancores. Não vou mentir, dizendo que sentirei saudades; apenas me despedi — um pouco aliviada, é verdade, mas sem peso.

Agora cá estou, com o pé na estrada que você, 2008, está descortinando. Não tenho resoluções extravagantes nem promessas aborrecidas. Te recebendo como o 'Ano Guerreiro' que a Claudia Letti teceu — aliás, adorei essa reverência dela! —, parece-me que a ordem é PERMITIR.

Dessa forma, penso que poderia te transformar num ano sabático — sabe aquela coisa de férias sem data de validade ou de dedicação exclusiva a um projeto pessoal? É bem o que eu gostaria. Mas isso seria um exagero para os meus dias atuais, então vou me permitir, por exemplo, dormir até cansar.

Chega da culpa da minha necessidade de dormir, uma horinha que seja — ou duas, que mal há? — no final da tarde. Eu PRE-CI-SO dessa pausa cotidiana. Simples assim. E adoro aquele momento do dia que parece se instalar numa penumbra, o meio-termo antes da noite cair: é o momento perfeito para deitar-se, esquecendo-se de tudo.

Também penso em, de repente, rearranjar um pouco a casa, deixar de lado a ordem total das coisas. Como virginiana, sou organizada demais, mas pode ser esse o momento de mudar essa natureza exigente que me abriga, quebrar um pouco mais as regras — na moda, na cor e corte de cabelo —, esquecendo um pouco as convenções.

Além disso, vamos combinar que dieta tem sido algo imprescindível para os meus dias, mas que não dá pra ficar sem aquele chocolatinho diário. Então chega de castigo: vamos adoçar o corpo, ainda que limitadamente — porque há que prevalecer alguma meta para manter-se saudável —, mas sem radicalismos. E aquele bolo com chantilly, a cada quinze dias, passa a estar liberado.

Eu sei que você, 2008, deve estar meio boquiaberto, pensando que enlouqueci. Mas por que não? Enlouquecer de vez em quando pode ser muito produtivo. E acho que você concorda que aquela ladainha geral de ser uma pessoa melhor, as promessas de não brigar mais com os maridos e namorados por conta de besteiras, de correr cinco quilômetros três vezes por semana, já cansou seus ouvidos. Vamos inovar, acabar com essa lenga-lenga, inverter e transformar as expectativas. Tem uma lista enorme de coisas antigas, que sempre farão parte da nossa vida, que podem ser feitas e encaradas de um jeito novo. A gente só precisa se reinventar.

Assim, estou propondo me permitir e, ao invés do ácido das cobranças, temperar os dias com a leveza de experimentar tudo o que está ao nosso alcance de formas diversas para torná-lo um ano pra lá de iluminado. Eu acho que, no final, você vai gostar...

Vamos nos divertir! Quem quiser, que me acompanhe. Bem-vindo, 2008! Tintim...

Expressões Letradas

Imagens: Daydreaming; Modeling; Little Diva, Kim Anderson

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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Adorei o tom de seu 2008. Boto a maior fé! Palavra de quem dorme uma horinha toda tarde e come/toma chocolate todo dia. :)