sábado, 19 de janeiro de 2008

EU E PLATÃO: OU COMO FILOSOFAR LIVRE E IMPUNEMENTE [Heloisa Reis]



Desde meus dias de adolescente e das primeiras aulas de Filosofia tenho uma queda por Platão, e uma ligação de caráter - evidentemente - platônico.As primeiras impressões foram ligadas à figura física, quando soube que tinha ombros largos e compleição forte, além de inteligência extra e incomum. Um sucesso para minha imaginação!

Seus escritos famosos e celebradíssimos sobre Arte, Teorias do Conhecimento, e até sobre a atualmente tão falada Ética, provoca em mim um certo modo de ler seus textos indiretamente. Sim, até porque não sendo capaz de ler grego arcaico tenho que contentar-me com traduções e, naturalmente, interpretações.

Contudo, um sábio como ele, lançador das bases da Filosofia do lado de cá do mundo merece toda consideração e respeito e é desta forma que ouso escrever estas míseras considerações de caráter crônico/filosófico.

Para entender a parte central da filosofia de Platão - a teoria das formas, ou o mundo das idéias, sempre penso num círculo e tento desenhá-lo. Como não consigo fazer um círculo perfeito à mão livre, e nem encontro na natureza nada que tenha mesma distância entre o ponto central e os pontos que fazem um círculo perfeito, percebo que ele tem razão ao afirmar que a perfeição só existe na idealização.

E aí entendo porque a matemática para mim sempre foi pura abstração, fato que eu sempre vejo confirmado quando faço minhas contas de mais e menos em minha conta bancária e o resultado NUNCA bate com o que eu imaginava. Sempre há alguma taxa desconhecida ou inesperada que altera a realidade.

Realmente a perfeição só existe no mundo das idéias! E pior, apenas essas idéias ou formas imutáveis são constantes e reais, pois no mundo físico – real em que vivemos - o fluxo é constante e a realidade é relativa e não fossem as formas perfeitas não haveria ordem e nem estrutura para as idéias do mundo.

Hoje imagino-me freqüentando a Academia – naturalmente vestida como um homem – e tendo a oportunidade de dialogar com mestres e outros alunos questionando e, sempre escondendo minha identidade feminina, procurando aprender com eles. Fico estonteada ao pensar que Platão tinha sido discípulo de Sócrates, e que havia visto sua injusta condenação e execução pelos atenienses. Sinto um carinho e uma admiração enorme por ele que superando esse trauma, conseguiu dar seguimento ao pensamento de seu mestre, e, ainda agregar outras influências. Tremo também ao pensar que eu poderia ter como colega o não menos importante Aristóteles.

Mas meu caso platônico teve sua confirmação quando eu soube que ele além de preocupar-se com a filosofia e com o Bem própriamente dito acreditava também na reencarnação da alma em outro corpo depois da morte, e ainda que naquela dimensão a alma ficava numa situação bem melhor - chegava ao mundo das idéias! Para mim essa era uma explicação muito boa para aquela célebre questão “para onde vamos?”

Enfim: Platão me ensina que nós, pobres mortais em situação material, podemos nos dedicar ao cultivo de nossas imperfeições – pois ela são inerentes à nossa condição humana - e transformar apenas o que temos ao nosso alcance.

Então podemos fazer quanta Arte quisermos, como quisermos e para que o quisermos. Se, segundo Platão, as idéias apenas cabem aos deuses, filosofando livremente, com certeza elas foram redescobertas por Duchamp.

Imagens: Papiro Oxyrhynchus, com trecho da República, de Platão; Marcel Duchamp. Why not sneeze Rose Selavy? 1921/ 1964, Gaiola de metal pintada, cubos de pedra, termômetro

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