sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

A Barata da Finlândia >> Leonardo Marona

Vinha subindo a ladeira da Sacopã, onde os ricos fazem suas estripulias em grupos escondidos e vão murchando aos goles de Moët qualquer coisa sem saber falar francês, e eu vinha com meu calhambeque verde, duas portas já não abriam mais por dentro, daqui pouco estaria preso para sempre ali, mas sempre tive essa estranha sensação de estar preso nos lugares.

Logo na virada da última curva avistei um sujeitinho de bermuda agachado atrás de um carro. Usava um capuz e uma camisa regata. Parei a uns vinte metros dele. Então o sujeitinho saiu de trás do carro acenando para mim com uma arma prateada: eu não sabia se era para ficar parado ou dar o fora dali. Pensei: se fico parado vão me cortar todo lá dentro da mansão que estão assaltando. Vão arrancar a minha pele, vai ter um ritual com a minha alma ali dentro, ou com o que quer que esteja aqui dentro. Quando se dá poder a um pé-rapado, o risco de ele fazer emergir a essência humana é muito grande – nada fica mais humano que um pé-rapado poderoso. Por outro lado, se dou a ré, vão fazer patê da minha cara. Vi que um outro sujeito, este como uma escopeta calibre 12, dobrou a curva também na minha direção. Dei a ré de forma muito brusca e arranhei toda a lateral do carro contra o muro de uma outra mansão.

Eles não quiseram acordar os ricos nos seus palácios de plástico, preferiram continuar sugando pelas beiradas, até o miolo. Por isso eu consegui descer. Telefonei para a polícia de um orelhão.

- Oi, tá tendo um assalto ali na subida da Sacopã. Quase me pegaram também. Vocês deveriam dar uma subida lá.

Era uma mulher do outro lado da linha. Devia estar lixando as unhas e mascando chiclete. Odiava falar no telefone ou atender ligações de emergência. Do tipo ruiva com bafo, aparelho nos dentes, buço. Era, portanto, a pessoa ideal para trabalhar no serviço de emergência da polícia.

- Senhor, por favor, endereço completo da localidade... (falava com o nariz ainda por cima).

- Não sei o endereço completo. Sei que era na Sacopã, subindo a ladeira... Um de escopeta e outro com uma pistola...

- Mas precisamos do endereço.

- Você sabe onde é a Sacopã?

- Um minuto, senhor.

Atendeu outra pessoa. Um homem. O mesmo espírito operacional. Só que tudo do começo.

- Emergência 190.

- Acho que não é mais uma emergência – eu disse.

- O que você quer então?

- Bom, tem uma mansão sendo assaltada ali em cima, na Fonte da Saudade. Vocês estariam interessados?

- O que aconteceu exatamente?

- Eu tava subindo a ladeira da Sacopã quando dois caras armados saíram do mato pra cima de mim. Tavam na escolta de alguém.

- Você tem certeza de que eram mesmo dois assaltantes?

- Um cara de bermuda não usa uma escopeta 12 à noite se não for no mínimo um sujeito temperamental. Mas confesso que não parei para perguntar.

- Um minuto...

Então caiu a ligação. Na verdade eu não sabia o endereço de onde estava indo muito bem. Sabia que teria comida e bebida e mulheres subindo umas sobre as outras e música bate-estaca e dentes trincados e maquiagem borrada e pílulas coloridas e monólogos intermináveis, tristezas escondidas no pó e nos speeders, e isso para mim era o suficiente por uma noite. Eu levava também o meu vinho argentino, encorpado, ruim e barato, inspirado en los vientos, segundo o rótulo. O problema é sempre com as subidas. Chegar lá vivo era uma outra história. Sempre a mesma história, aliás.

Deixei meu carro, que agora era verde e com uma asa enorme de anjo quebrada na lateral, numa rua calma logo ali no Humaitá. Ia dar um jeito de chegar lá em cima a pé, com os pés dentro dos sapatos de preferência. Voltei até a beira da ladeira e sentei no meio fio. É inevitável, estamos sempre esperando alguma coisa da vida. Um anjo, um dilúvio, uma carona até a eternidade, um sopro no ouvido, alguma satisfação, injeções temporárias de alento. A minha veio de carro.

“Uma informação”, disse o homem de óculos com hastes largas e pretas, cenho comprimido, como se tivesse um sol particular no meio dos olhos. “Pois não”, respondi. Do seu lado havia uma mulher, que se sacudia toda no banco do carona. Estava com alguma coisa no rabo que não parava de se esfregar e ajeitar as calças. A boca aberta o tempo todo, todo mundo sempre mastigando alguma coisa. Ela passava batom diante do espelho retrovisor.

- O seguinte, amigo: estamos indo pra casa da Noriega Brandão, a atriz – disse o homem. – Você não sabe se é por aqui mesmo que ela mora, sabe?

- Na verdade, estou indo pra lá também, respondi. Vocês me dão uma carona que eu mostro o caminho.

Um amigo já tinha me falado. Subir até não dar mais e você vai dar lá. Eu imaginava algo como o paraíso, pela maneira que ele falava. Subimos e vi de cara que aquele era um casal bastante alegre. A música tribal já tocava dentro do carro, a uma altura razoável para o meu avô surdo mandar baixar. Os dois falavam entre si, estavam animados, tinham vindo de São Paulo apenas para a festa, depois voltariam para a vida do esconde-esconde. Também, com um peito daqueles no meio da cara qualquer um ficaria bastante alegre, pensei quando achei que seu decote já não ia agüentar, de tanto que ela serpenteava o corpo e levantava a sobrancelha para cima de mim. Dina Pocaliu era o nome dela. Era linda, de Sampa, sorridente, unhas vermelhas, dentista na Ipiranga pela manhã, ninfomaníaca à noite na Praça da Sé. Usava uma fina linha metálica no meio dos dentes de cima. Nos dentes dela, aquilo era um fetiche.

Virou-se para mim, que segurava com as duas mãos minha garrafa de vinho inspirado en los vientos.

- Então você conhece a Noriega do meio? – perguntou.

Na verdade o que eu mais queria no momento era conhecer a própria Dina pelo meio, pelo meio e por baixo. Mas “não, não, sou amigo de uns amigos dela”, eu disse me dirigindo aos dois para não dar na telha minhas alucinações sexuais.

Conheci um pouco do sujeito também. Ele era conhecido. Não vou dizer a vocês que Jaques Zambrini era um grande escritor. Mas tinha pelo menos um grande tipo de escritor, daquele que bebe uísque com as duas mãos e fica pelos cantos sugando piteiras, suando alucinado com a falta do que sentir, achando que é muito sentimento, sentimento demais para um coração suscetível e frágil como o seu. Então é inevitável: cai para a sacanagem. Uma ótima solução, a do gozo, a do alívio imediato, a da porra. O vício. O cheiro delas, das vagabundas, nos olhos, na lembrança, no colarinho, nos pesadelos, na vontade louca de se esvaziar, olhando e babando, imaginando coisas lindas e brancas e pretas e róseas e carnudas e peles em atrito, secreções, roça-roça. Como gostava das mulheres! Era o seu fraco e o seu barato e o seu buraco. E entrava muito bem no vácuo da sua, da Dina. Divertia-se bastante com a Dina. Ela sabia fazer festa e tinha um tesão incrível em outras mulheres. Gostava de brincar de pega-pega com as pessoas, fossem elas do sexo que fossem. E era uma grande mulher, dessas de centro de macumba, melhor não mexer com elas, lindas e indefesas até terem o que querem. Depois te escaldam como um pêssego. Te jogam na fila com os outros, como os outros. Um e setenta e todas as carnes nos cantos certos. Ficava puxando a cenoura na minha frente. Botava na minha frente, eu ia com a boca, então ela puxava de volta. Eu, o burro chucro. Estava de carona e não tinha do que reclamar.

Os bandidos lá em cima já tinham dispersado. Depois de umas voltas nós logo chegamos na casa, e uma biba do tipo Golden Shower Queen* veio nos atender à porta. Nos olhou de cima a baixo e mandou passar. Entrei e fui logo procurar um abridor. A casa tinha uns cinco andares, era o que dava para supor pelo naipe dos convivas e da mulambada entupida de canapés e Martinis, falando sobre a arte da última esquina, sem ter muito bem o que comer em casa. Banhos de perfume e camisas bicolores com a Virgem Maria estampada. Havia também um pátio enorme com uma vista que era de um Rio de Janeiro que bem poucos podem ver: apenas os que sabem desperdiçar a vida sorrindo e jogando champanhe e idéias geniais para o alto, “pelo melhor do país”. A vista na verdade não passava de mais uma droga ali, a droga da ilusão de que aquilo tudo era de verdade. De que, vista bem de longe, aquela cidade com todas as suas fossas humanas escorrendo sangue e fezes contaminadas poderia ser um lugar aprazível para o esconderijo da culpa.

Havia também um galinheiro no fundo do pátio. Noriega Brandão, atriz e anfitriã, vinha vindo do galinheiro, quando passou por mim. Vinha espanando os joelhos e limpando a boca com o cotovelo. Um pouco de palha seca presa nos cabelos. Do batom nem se fala. Passou direto por mim e foi de encontro ao casal que havia me trazido.

- Jaques! Dina! Por que demoraram tanto, porra!? O galinheiro tá cheio, viram?

Do galinheiro vinha vindo uma Lolita cor-de-rosa com meias compridas de seda barata trespassando os joelhos, bolas de goma estouradas no canto da boca, ajeitando os cabelos e tomando ininterruptos goles d’água.

- Noriega, queria te apresentar o Leo, que nos acompanhou na subida – disse Jaques amavelmente, e me puxou pela manga com força desmedida.

Não consegui escapar do seu tipo frágil.

- Como vai, Leo? – disse Noriega, e inclinou a cabeça para mim.

Me olhou de lado: a averiguação que fazem as aves de rapina dos ratos selvagens. Mais um pouco e começaria a levantar as saias com o calor. Eu estendi a garrafa de vinho e sorri. Ela então veio para junto de mim e me agarrou as bolas discretamente. Fiquei parado, só levantei um pouco os cotovelos. Ela parou também. Estava usando um vestido vermelho com uma fenda entre as pernas. E adorava me mostrar a fenda. “Ainda vamos nos entender”, disse no meu ouvido. Ê, festança! Então ela me largou e foi se chupar com Dina, que já estava quase derretendo só de olhar aquilo. Grudaram-se uma na outra e começaram a pular juntas ao som do bate-estaca. Jaques imediatamente se enganchou na bunda de Noriega, com o nariz metido nas suas costas. Dessa vez tremelicava como um cão metendo, mordia a língua, estava louco, os óculos caídos no chão.

Ficaram nessa farra por um tempo. E eu observando com meu vinho, minha cidade de maquete e ainda com a mão de Noriega nas minhas bolas dentro da minha cabeça. Foi daí que cruzei pela primeira vez com “a polaca”.

Mika Vedessä. Nice to meet you. Na verdade era finlandesa. Sobretudo preto, óculos escuros enormes, cabelos Uma-Pulp-Fiction-Thurman, quase brancos de tão loiros, cigarro no bico. Dançava feito macaquinha. Fui perguntar o que ela sabia sobre o uísque da casa e então iniciamos uma relação.

Ela só falava inglês e o meu estava bem desenredado. Mas ela falava muito pouco. Usava bastante os olhos e, sobretudo, os músculos involuntários do corpo. Estava tresloucada. Ficou dançando na minha frente e me puxando para dentro da roda, que não era bem uma roda, mas uma grande bacia de esperma. Tentei resistir, mas não muito, e no caminho até o centro da sala pude cumprimentar esse tal meu amigo, amigo da atriz, da Noriega, que calhava de ser o DJ da festa.

Lá dentro da roda foi o caos. Ela descia até a altura do meu pau e depois voltava se sacudindo de um lado para o outro. Lambia os beiços e chegava a enfiar o dedo inteiro na boca, para me provocar e a todas as pernas compridas de salto alto ao nosso redor. A concorrência ali era bastante acirrada. Eu contra a virada de página do sexo. Do outro lado da sala, um homem gordo dormia e acordava no sofá, sempre sacudindo a cabeça e pedindo para ouvir The mamas and the papas. Queria ouvir Monday, Monday antes de voltar a dormir.

Noriega e Dina tinham pelo visto conseguido despistar Jaques para fazerem sua própria algazarra, as duas. Estavam engalfinhadas como dois gatos, os beijos eram violentos. Usavam as unhas. Então vi que Dina tirou um saco plástico de dentro da bolsa: umas vinte cápsulas dentro. Sacudiu o saco no ar, pegou uma cápsula, mordeu metade e botou a outra na boca de Noriega. E continuaram dançando e tendo orgasmos múltiplos.

Jaques estava rondando, abutre. Parecia ter entrando num tipo de transe. Ficava encurralando as mulheres nos cantos da sala, perguntando a elas se queriam foder com ele e com sua esposa. E apontava para Dina como se para um bom corte de maminha. E segurava o copo com as duas mãos, tal qual mandava a cartilha. Um sorriso suicida, os olhos pingando no chão.

Eu, de minha parte, estava de olho nas tetas da polaca. E ela com os olhos vidrados em branco, na busca pela interioridade lisérgica. Por isso volta e meia os olhos viravam do avesso. De repente me agarrou, deu o suspiro forte do golpe final e me disse que subíssemos para o andar de cima. Disse que ali estava o uísque. Subimos.

A essa altura meu vinho já estava bem no final. Dei o que sobrou a ela, que se avançou, sedenta. Servi para mim uma dose generosa de Buchannas. Poderia ter sido J & B, Cuty Sark, Jim Bean, White Horse, Old Parr, Jack Daniels, single malt, doze, quinze, mil anos, o escambau! Mas um homem precisa começar de algum lugar.

A festa vista lá de cima era bem mais interessante: como um jogo de xadrez da putaria. Cavalos currando peões, bispos disfarçados de rainhas, reis com suas torres a pico, rainhas deixando os reis do lado de fora do quarto. Procriação de tipos noturnos numa grande gosma de canto de boca. Além de poder observar as tetas balançarem soltas por dentro dos bustiês, podia também entender melhor o que estava se passando: Noriega, toda espinafrada, volta mais uma vez do galinheiro. Jaques a agarra pelo braço no meio do caminho. Ela se vira e ele se gruda nela. Fala alguma coisa no seu ouvido. Depois volta para o jardim a catar mulheres para a suruba dos seus planos. Noriega segue direto até o banheiro, cuja luz já está acessa. Bate na porta, a porta se abre, unhas pintadas de vermelho, e então ela entra. Bum! Mika me pega mais uma vez pelo braço e me arrasta até o banheiro, o banheiro lá de cima.

Bate a porta atrás dela e fica olhando para mim.

- Fancy drugs? – foi o que eu entendi.

- Depend with who – arrisquei.

Ela então abre o sobretudo e tira um frasco conta-gotas de dentro dele. Abre o frasco e vem andando na minha direção. Espreme minhas bochechas com uma das mãos.

- Wait a moment – eu seguro a mão dela. – First I need to know which drug is that and what I can expect from that.

- You just gonna start seeing things around, you know... It’s just a game. Here…

E então, feito mãe dando de mamar, ela veio até bem perto do meu rosto com o seu rosto e aplicou uma gota do que quer que fosse aquilo na própria mão, no vão entre o fura-bolo e o dedão.

- Now, just suck it – então enfiou a mão na minha boca.

Não exatamente o que eu esperava de uma finlandesa. Nunca esperei nada delas, aliás. Mas ela veio de novo e pingou também uma gota na minha mão e entrou de boca nela, rapidamente avançando até o meu dedo médio. Ela chupava. Depois pingou mais duas gotas no meu uísque sem que eu pudesse reagir, abriu a porta e voltou para a festa, me deixando com sua poção mágica para a felicidade rápida seguida de um crescente desespero, resultando finalmente na completa perda da sensibilidade e satisfação. Polaca inacreditável aquela! Já tinha me impressionado antes, quando viu uma barata no andar de baixo e disse que nunca tinha visto uma barata antes. Nunca tinha visto uma barata em toda sua vida. Isso eu jamais esquecerei.

Voltando para o salão principal minha cabeça já rodava em mil fotos sem flash. Me sentia frio, só que transpirava como um touro madrileno após a primeira boa espetada no lombo. Misturei um pouco de água com o uísque. Foi quando me apoiei de vez no bar e senti meu cérebro estalar dentro da caixa craniana.

As coisas já começavam a se repetir, de certa forma. Vai ver essa é a onda do negócio, pensei. Nada melhor do que um sábado de sol depois do outro. A felicidade em migalhas, tão sem motivo ela era. Como se ríssemos dentro de uma arena infestada de abutres e morte disfarçados de tipos excêntricos. Como se roêssemos nossas carnes até o tutano. E a vida ali, a dez centímetros dos nossos dedos. Quase podemos tocá-la. Ela chega a nos abanar, mostra a língua. Dançamos, gritamos, nos apoiamos, vomitamos, bebemos, sonhamos rapidamente, rimos mais um pouco da falta de compreensão geral, e então, num belo dia, nublamos a cara e começamos a chorar porque, de repente, nada está ali. Porque nossas vidas são como fases de um videogame. Porque precisamos apertar nossos botões, porque o céu dura o tempo que conseguirmos pensar nele.

Devo ter me tele-transportado para a grama lá na frente do pátio. Ou então foi culpa da lua cheia. Via dez coelhinhos fodendo lá em cima. De repente os coelhinhos ganhavam dentes pontudos e começavam a espirrar seu veneno letal. Eu sentia tudo se aproximando como uma nuvem de suor e caldo humano sem nenhuma vitalidade. As pessoas em volta choravam pavorosamente. Alguns tentavam arrancar os próprios olhos. Outros se esfregavam na grama. Um sujeito no chão, do meu lado, sentado placidamente, olhou para mim e disse: “me caguei”. Uma garota zumbinóide veio para cima de mim e agarrou minha mão. Tinha buracos negros no lugar dos olhos. A mesma menina então veio para cima de mim e me deu a mão. Os mesmos buracos só que de uma outra cor. Depois a mesma coisa, de uma outra cor. Então ouvi o sopro do arco-íris na minha orelha. O duende na outra ponta tinha levado o ouro embora. Eu era chupado para cima e depois cuspido no chão. Então estava na grama, pipocando como os outros. As minhocas entravam pelos meus poros e eu sentia a pele esticar toda de uma só vez. Um caramujo passou se arrastando sob sua meleca a cinqüenta por hora na frente dos meus olhos. A outra parte sub-utilizada do cérebro também me maltratava. A cabeça buscava demônios aposentados e os chicoteava nas costas. Eles iriam acordar alguma hora. Quando olhei do chão, onde tinha minha cara enfiada na terra, a mesma menina sem olhos veio e me pegou a mão outra vez. Então eu via dois movimentos ao mesmo tempo: o da menina sem olhos me pegando a mão e o da mesma menina sem olhos me apertando as bolas. E então três: esses dois últimos e a mesma menina sem olhos abrindo a minha braguilha. E no fim havia dez meninas sem olhos, sendo que a última delas estava mijando em cima de mim. Assim que senti o jato quente no pescoço, meu cérebro encolheu feito uma bergamota e eu só via uma mulher, Mika Vedessä, já sem os sapatos, toda mijada e estirada sobre mim.

Levantei no fim do meu esforço e fui tentar arrumar as idéias, andando em círculos. Pegar alguma coisa para Mika, “você precisa de alguma coisa, Mika?”, ela precisava de tudo que fosse coisa, mas não dizia coisa com coisa.

Voltei para a sala fechando as calças e me esforçando para enxergar e ouvir simultaneamente, mas a música tribal dificultava as coisas. Contei a história de Mika para o meu amigo DJ e ele me contou umas cinco muito piores. Perguntei onde poderia pegar uma roupa seca para ela e para mim. Ele me disse que eu deveria falar com Noriega, a dona da casa, a dona do galinheiro. Eu falei que estava com algumas dificuldades para falar. Ele então começou a rir e eu também comecei a rir e fomos trocar as bebidas. Daí, depois, outro apagão, PUF! e eu acordo numa cama, de camisola. O primeiro impulso é apalpar as bolas. OK. Daí então vem a geografia. Era um quarto com banheiro. Luz acessa no banheiro. E de repente a luz se apaga e sai de lá Noriega Brandão, com um bigode pintado a lápis de olho e costeletas postiças.

- Meu dorminhoco! – ela gritou.

- Que camisola é essa?

- Não lembra, filhinho? Eu não tinha nada do seu tamanho. Então trouxe a camisola, que ficou linda justinha assim... E resolvi entrar no clima também, ó... – e esticou seu buço pintado a lápis de olho na minha direção.

Não havia o que temer. Era uma bela mulher, só que um pouco perturbada. É possível achar cinco a cada esquina. Mas me enfureci ao saber que tinha estado na mesma cama que Noriega Brandão e não lembrava de nada. A verdade sob a luz era muita maquiagem e cabelos esticados. Seca demais. Sem carne alguma. Pedi outra camisola para ela, não sem antes explicar toda a saga de Mika Vedessä, e disse que tinha que descer, que já devia ser dia claro. Ela me obrigou a esperar por ela. Cheirou mais uma carreira de cocaína sobre a capa de um disco de vinil, então descemos juntos.

No andar debaixo a música ainda tocava. Devia ser meio-dia do dia seguinte. O gordo do The mamas and the papas chorava abraçado à estátua de um arcanjo. Queria ver Mama Cass, queria chorar no ombro dela. Meu amigo DJ, a essa altura, já tinha história para um livro de memórias. Estava na beira da piscina, com duas mulheres com os peitos de fora ao lado, fumando cigarros e jogando gamão. O sol estalou meus olhos e ver Mika com aquela linda carcaça branca estragada andando nos fundos do pátio, toda mijada e feliz, pulando, foi terrível. Ela veio galopando na minha direção. Trazia alguma coisa na mão e queria me mostrar. Parecia uma menina de cinco anos quando cata um tatuí na praia.

- Look what I found! – ela gritou.

Segurava bem firme numa das mãos uma barata daquelas com várias tonalidades de castanho nas asas, uma das grandes, daquelas de fundo de pátio. Apertava o cefalotórax do bicho e quanto mais apertava mais a barata sacudia as perninhas e mais Mika ria e ria, com a barata no meio dos olhos.

- You know, Mika, this is a cockroach. – eu disse. – Do you remember the cockroach?

- Yes, Leo, yes... I do remember… Look, she’s so nice with this tiny legs, LOOK! – e então apertava um pouco mais a barata. Até que ela começou a desprender uma gosma esverdeada pelos cantos da casca.

Era demais aquilo. Acho que Mika havia encontrado sua deusa na forma da barata, como os índios na forma de escovas de cabelo e espelhos dos colonizadores bigodudos. Olhava a barata bem de perto, com a boca aberta e os olhos estourados pelo sol. Suando, cara branca com marcas arroxeadas, meleca por todo o canto do rosto. Em suma: estava acabada.

Eu não podia mais ver aquilo. Ela já havia transformado a barata numa gelatina de gosma verde e ria cada vez mais, com aquela gosma verde lhe escorrendo pelo pulso. Dei um tapa na mão dela e a barata voou para longe.

- That’s enough, honey – eu falei. – We had enough for today.

Ela ficou alguns segundos olhando para mim. Depois avançou com os dentes trincados na minha direção e começou a me lanhar o rosto. Suas unhas eram enormes e estavam verdes da gosma da barata. Ninguém tentou apartar. Ela tinha a força dos nórdicos e com um pequeno movimento me levou ao chão, caindo por cima de mim. Chorava desesperadamente e maltratava meu rosto com toda a raiva da sua alma de barata. Era isso, tinha a alma de uma barata. Talvez tivesse se transformado numa àquela altura. Algum sangue começou a escorrer de uma ferida logo abaixo do meu olho direito. Eram três linhas de sangue até o queixo. Empurrei Mika e consegui finalmente me desvencilhar. Joguei meu peso contra ela e pude levar as mãos ao rosto. Ela ficou no chão chorando copiosamente. Meti a cara na piscina, o que, todavia, não espantou os demais banhistas, que continuaram com suas bolinhas de sabão no lugar da vida. Depois fui até Mika e me deitei ao seu lado. Ela agora me abraçava e chorava por alguma saudade escondida lá dentro da sua tristeza. Me pedia coisas que eu não podia dar porque também não tinha.

- Please, please, please, let me get what I want – ela sussurrou.

- Not if it’s a cockroach – eu tentei dissuadi-la.

- I like her… I think I love her… And now she’s gone… Gone…

- Who, the cockroach is gone? You like the cockroach?

- Please... Just hold me... Just hold me tight – ela disse quase fechando os olhos. Então enfiou o dedão na boca e se encolheu numa posição fetal. Ficamos assim até pegarmos no sono.

Quando acordei Mika não estava mais lá. Ainda havia pessoas na área da piscina, mais mulheres com os peitos de fora, homens caçando borboletas e conversando com pedras. Uma das atrizes com o peito de fora, eu a conhecia da TV, parou na minha frente e perguntou onde poderia arranjar cigarros e mais umas cervejas. Disse a ela que precisaria de um carro para isso. E então lhe pedi as horas. Já era fim de tarde da tarde do dia seguinte. Eu precisava sair dali. Era como se ali a contagem do tempo fosse acelerada demais. E eu precisava de tempo. Perguntei a ela onde estava Noriega. Falou que estavam todos lá dentro.

Lá dentro Noriega conversava animadamente sobre si mesma com Dina, Jaques e meu amigo DJ, que apenas escutava. Eu também pude ouvir alguma coisa de longe.

- Porra! Vocês são foda! Querem me excluir de tudo – reclamou Jaques. – Quando a Noriega vai lá pra casa, vocês ficam o dia inteiro no banheiro e me deixam de fora...

- E você precisa ficar também o dia inteiro no banheiro batendo punheta por causa disso, precisa, Jaques? – rebateu Dina. – Não sei que obsessão é essa que você tem que não pode ficar um minuto sem trepar. E tem que ser sempre com duas mulheres. Só uma já não serve mais!

- Eu tive que me adaptar, querida. Você só trepa com mulheres. Pensei que poderia conciliar minha rotina com a essa tua necessidade, entende? Mas não, você só quer saber das tuas mulheres... Quer me deixar do lado de fora que nem um babaca, pagando as contas e te levando nos lugares...

- Olha aqui, você sabe muito bem que eu posso me sustentar sozinha perfeitamente. Posso sustentar nossas filhas também. Elas que se entendem comigo muito melhor do que com você... Claro, com um pai psicótico desses...

- Tá oquei, então... Mas, Noriega, querida, vamos lá pra cima conosco, vamos... Vai ser divertido... Dina quer tanto, não é mesmo Dina?

E era mais ou menos por aí que a coisa seguia na sala. Filhos como pilares de auto-justificação, amor extremo, tão extremo que já se passava por doença de apetite, cumplicidade apenas dentro de banheiros apertados. O casamento moderno como pílula de rápido efeito. Me senti tão antiquado, queria tanto a paixão de volta, as dores de barriga, os dias sem fome, os olhares para o céu a buscar nomes e cometas, o esperar ser regado pela chuva. Onde estava o romance? Perguntei ao meu amigo DJ onde estava o romance e ele fechou a cara dizendo que já ia embora e se eu queria carona. Descemos assim que terminou de arrumar suas coisas.

Peguei meu carro no Humaitá. Já estava ficando escuro outra vez. Cheguei em casa e liguei a televisão antes de me jogar na cama. Era o âncora do jornal diário falando:

- Caros telespectadores: excepcionalmente hoje, não apresentaremos o jornal da noite por motivos de falta de assuntos novos para debatermos. Tenham todos uma boa noite, e até amanhã.

Cocei com força os olhos, desliguei o aparelho e decolei abraçado nas asas de uma enorme barata branca por terras geladas, por terras submersas. Então deslizei vagarosamente para a parte do dia em que eu era finalmente eu mesmo. No sono.

* Uma Golden Shower Queen, na visão de Carl Solomon:

"Eu já tinha ouvido falar deste tipo de homossexual há muito tempo, mas nunca havia encontrado um em carne e osso até 1955, quando um deles me apanhou na rua. Parece que sua preferência era por homens que urinavam na sua boca".


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