quarta-feira, 6 de junho de 2012

SAM ESCOLHEU SUAS ARMAS >> Carla Dias >>


"C'mon get up, get dressed
The world is spinning
Full of kindly beings
The one you love will love you back
And no-one's spoiling anything
Everything's just right
It makes you want to fill your lungs and sing
And ooh ...You silly pretty little thing"
Bob Geldof, da canção Silly Pretty Thing


Acordei pensando sobre esse filme que assisti semana passada. Acordei pensando como se o tivesse sonhado, sabe?  Ele tratava da história de um homem que chegou ao fundo poço, aos cafundós do abismo, ao fim do fim da linha por causa das drogas. Então, um dia ele pensou ter matado um homem e decidiu aderir à religião da esposa, que enquanto o marido estava na cadeia, deixou de ser stripper e foi cuidar da vida e da filha. 

O mais interessante é que, em determinado momento dessa aceitação de Deus, ele resolveu construir uma igreja que recebesse a todos os que as outras não aceitavam. Porque se Deus deu uma chance a ele, como não daria às prostitutas e aos drogados, aos bandidos em busca de salvação? Deus pode sim ser o aceitador de tudo e todos, mas não os homens. É diferente converter bandidos, enquanto eles estão na cadeia, de aceitá-los, ainda em processo de compreensão da sua expiação espiritual, ou seja, ainda detentores do cargo de marginais. 

A igreja vingou, mas nenhum pastor quis participar dela. Foi assim que o criminoso se apossou da palavra.

Mas não é a religiosidade desse homem que me inquieta. O que ele fez, depois de se estabelecer e se tornar dono de uma empreiteira, é que me fez repensar alguns causos. E isso acabou no continente africano, no Sudão, para ser mais exata.

Agora, talvez seja o ponto em que você está pensando que será muito chato ouvir falar, mais uma vez, sobre as necessidades da África. E que não tem mais paciência para ver aquela foto da criança sendo observada pelo abutre, nem mesmo ouvir falar em mais um Live Aid by Bob Geldof. Eu adoro o Bob Geldof... Ótimo músico e, principalmente, um verdadeiro humanitário.

Redenção (Machine Gun Preacher/2011), que é estrelado por Gerard Butler e baseado na história de Sam Childers. Sim, ele existe, e ao ouvir falar, na igreja que frequentava, sobre a situação da África, decidiu se voluntariar para um programa de reconstrução de casas em Yei, no Sudão do Sul, em 1998, em plena guerra. A partir daí, não houve quem tirasse a África de Sam. Ele voltou ao Sudão, construiu uma clínica e depois um orfanato em área de risco, mas que somente ali atenderia quem realmente precisava dele. A milícia rebelde estava matando e sequestrando as crianças. 

Sam Childers

Houve um momento em que Sam se sentiu muito perturbado com a história que assistia no Sudão. Ele chegou a hipotecar a casa e a vender a sua empresa para conseguir dinheiro para o trabalho voluntário, criando uma situação difícil para a esposa e a filha. Ele era diferente de um pastor convencional, porque amante que era das armas, ele as empunhava para defender as pessoas, e principalmente para reaver as crianças órfãs sequestradas. E são essas crianças, a forma como elas são agradecidas a ele e compreender a dor, que ele retomou o seu caminho. Sem abandonar as armas, claro. 

É verdade... A miséria não ronda somente a África. No Brasil, há pessoas que não têm o básico para viver, crianças que necessitam lidar com a fome e com o descaso. Mas a questão que me faz pensar que pessoas como Sam Childers e Bob Geldof sejam necessárias, pessoas que olham para além das fronteiras de seus países de origem, é que há lugares, como o Sudão e a Etiópia, em que somente a política bem aplicada e os projetos sociais efetivos não podem resolver o problema. Onde a bondade, o humanitarismo e a coragem de estrangeiros de trafegar por lugares em guerra fazem toda a diferença.

A foto do abutre e a criança foi registrada pelo fotógrafo sul-africano Kevin Carter, em 1993. Foi publicada pelo jornal New York Times e  ganhou o Pulitzer, em 1994. A menina sudanesa estava tentando chegar a um posto de alimentação. É uma das imagens que mais tocaram as pessoas sobre a situação da África. Bob Geldof continua a sua batalha humanitária e não se esqueceu da África, assim como Sam Childers. O orfanato que ele construiu continua na ativa.  

Bob Geldof

Hoje eu acordei com esse filme na cabeça, mas talvez eu tenha sonhado sobre o assunto. E o que experimento agora é a sensação de que, apesar de saber que ainda falta muito para a situação da África se acertar, ainda há esperança. Graças a Sams e Bobs e Ghandis e Betinhos e Martins e a mim e a você que, na pequeneza do que podemos fazer, sonhamos o mundo melhor. 



Sam Childers / Machine Gun Preacher - machinegunpreacher.org





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3 comentários:

albir disse...

Fico pensando, Carla, que além do que essas pessoas fazem pelos que estariam mortos, eles nos tornam menos medíocres até no conforto de nossas casas, porque dignificam a raça humana e porque nos sacodem. Beijo.

Zoraya disse...

Ssonhamos só nao, Carla, fazemos também. E comeamos mesmo pelos sonhos, que são a matéria da vida. Muito obrigada por esse despertar delicado. Beijos

Carla Dias disse...

Albir... Concordo plenamente com você. Beijo.

Sim Zoraya. Somos sonhadores fazendo acontecer. Beijos.