sábado, 2 de junho de 2012

FILHOS E PAIS [Debora Bottcher]

"É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã..." (Pais e Filhos, Renato Russo)

Meu pai tinha o hábito de escrever cartas para nós, os filhos, que nunca entregava. Minha mãe, vez ou outra, encontra esses rascunhos perdidos em gavetas esquecidas - ele morreu há quase catorze anos (a completar-se em 04 Julho).

"Estátuas e cofres / E paredes pintadas / /Ninguém sabe o que aconteceu / Ela se jogou da janela do quinto andar / Nada é fácil de entender."

Na semana passada, quando ela esteve na minha casa (ela mora em Campinas, eu em Cotia), trouxe-me um desses escritos, quando ele demonstrava enorme insatisfação com nossas atitudes - minhas e dos meus irmãos. Ele escreveu que os filhos esquecem que os pais já tiveram 24, 18 e 14 anos (nossa provável idade na época) e que passaram pelos mesmos entraves. Lamentava que a experiência dos pais fosse tão ignorada e muito mal interpretada. Havia um tom de inconformidade e tristeza no texto.

"Dorme agora: é só o vento lá fora. / Quero colo / Vou fugir de casa / Posso dormir aqui com vocês? / Estou com medo, tive um pesadelo / Só vou voltar depois das três."

Eu tentei me lembrar do que andava aprontando aos 24 anos, mas creio que tamanha consternação, no meu caso, era porque eu tinha ido morar sozinha - depois de um casamento desfeito, seguido de muitos problemas com meu ex-marido, que veio a morrer num acidente na sequência. Esse fato (a morte), por razões que não vou explicitar agora, acabaram por me dar a liberdade de ir e vir que eu havia perdido, e eu decidira que queria voar o mais livremente que fosse possível - não que morando com meus pais houvesse algum tipo de cerceamento. Olhando em retrospectiva e sabendo tudo o que sei hoje, exatos vinte anos depois, sei que esse movimento foi absolutamente desnecessário - pra dizer o mínimo.

"Meu filho vai ter / Nome de santo / Quero o nome mais bonito."

Meu pai era um homem muito democrático - o que era curioso, já que meu avô era alemão e sempre escutei que sua educação fora bastante rígida. Ele não intervinha - a não ser que fosse caso de vida ou morte. Ele conversava, discutia soluções, apontava o caminho. Mas a escolha final era sempre nossa - e se a gente escolhia (e isso acontece com frequência à maioria dos filhos) seguir por caminhos errados, era possível sentir seus olhos observadores e desolados, mas sempre silenciosos. Quando (e se) algo desse errado, ele nos acolhia de volta sem questionamentos nem alegações. Ele não cobrava explicações, nem ficava remoendo o assunto: apenas nos acolhia de volta - o que era sempre um alívio.

"É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã /  Porque se você parar pra pensar, / Na verdade não há."

Não tive filhos. Minha experiência nesse campo dá conta de acompanhar a trajetória de filhos gerados por outras mulheres - que amo como se fossem meus, mas de cuja educação não participei. E se hoje tenho uma posição que me permite algum tipo de orientação a esses filhos (e netos), uso sempre do bom senso legado pelo meu pai: se ele, pai legítimo, não interferia, que direito tenho eu, madrasta, de o fazer? E sendo a pa/maternidade uma tarefa tão árdua, considero injusto com meu marido e as mães de seus filhos que eu tenha outra atitude que não essa. Seja como for, diz a sabedoria popular que quando você tem filhos - e aqui cabe a expressão 'seus ou alheios' - consegue entender e até perdoar os seus pais - por excesso ou omissão, de acordo com seu julgamento e trilha pessoal.

"Me diz por que o céu é azul / Me explica a grande fúria do mundo / São meus filhos que tomam conta de mim / Eu moro com a minha mãe, mas meu pai vem me visitar / Eu moro na rua, não tenho ninguém / Eu moro em qualquer lugar / Já morei em tanta casa que nem me lembro mais / Eu moro com meus pais."

Essas memórias e observações vieram-me à tona porque essa semana, num final de tarde em que a energia elétrica na região onde moro nos deixou sem poder trabalhar, eu fui me deitar um pouco e quando já estava quase a pegar no sono, senti uma mão no meu ombro.  Sobressaltada, vi que era só uma impressão - eu não tenho visões sobrenaturais, estava apenas com as cachorras em casa - uma labradora e uma basset, na cama comigo -, e elas, obviamente,  não teriam ignorado uma pessoa no quarto. Adormeci em seguida e despertei uma hora e meia depois, já com as luzes acesas e a canção 'Pais e Filhos', de Renato Russo, ecoando dentro de mim. E a saudade, que é sempre presente, ainda mais latente - dessa vez, acompanhada de uma quase pena por não ter compreendido melhor o meu adorado pai, que tinha tanto a ensinar e a quem a vida deu tão pouco tempo pra que eu pudesse dele aprender...

"Sou a gota d'água / Sou um grão de areia / Você me diz que seus pais não te entendem / Mas você não entende seus pais. / Você culpa seus pais por tudo / Isso é absurdo / São crianças como você. / O que você vai ser / Quando você crescer. "

Pais e Filhos / Letra: Renato Russo / Musica: Dado Villa-Lobos, Renato Russo e Marcelo Bonfá



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8 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Debora, seu pai ensinou direitinho e você aprendeu direitão. :) Lindeza de crônica!

fernanda disse...

Realmente acho que só o tempo e/ou a paternidade ou maternidade é que nos fazem entender nossos pais. Coisas que até outro dia não faziam sentido algum pra mim agora, que estou longe dos meus, começam a fazer. Vou começando a compreende-los e a me preparar para ser incompreendida pelos filhos que pretendo ter.
Obrigada pela reflexão :)
Bjos!!

Kika disse...

Pois pra mim, você é muito mais mãe que muitas mães que eu conheço.
Lindo texto. Triste, e lindo.
beijos querida!

albir disse...

Beleza de crônica, Debora!

ana disse...

Sempre que te leio sua delicadeza e uma certa melancolia me tocam. Linda crônica. Essa relação pais/mães e filhos é uma fonte infindável de descobertas e aprendizagens sempre. Obrigada por compartilhar as suas.

beijo carinhoso, querida.

Carla Dias disse...

Débora, há pessoas que habitam nosso dentro durante a nossa eternidade. Lindo texto sobre como seu pai, diferente do que você pensa, a ensinou a ser um ser humano e tanto. Beijo!

Debora Bottcher disse...

Gente, gente... Obrigada pelo carinho. A vida nos ensina sempre, né? E olha: aproveitem seus pais e mães, porque o tempo nos mostra que eles são eternos em nós, mas fisicamente sempre nos farão falta.
Um beijo em todos.

Zoraya disse...

Me fez chorar. Muito obrigada!