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ÉRAMOS TODOS LOCUTORES >> Whisner Fraga

Meu pai trabalhava em uma Agropecuária, que tinha seu escritório em um edifício no centro de Ituiutaba, no Triângulo Mineiro. Todas as férias, eu também virava funcionário da empresa, pois era consenso na minha família que não poderíamos jamais ficar à toa. Eu adorava o emprego, por vários motivos: por causa do salário, que me permitia renovar o velho par de tênis, porque a sala tinha duas ou três máquinas de escrever, que eu usava para passar a limpo meus primeiros contos, por causa da revista Visão, que eu lia de cabo a rabo.

O fato é que eu atuava como office boy, responsável por algumas tarefas que não me agradavam totalmente, como ir ao Banco realizar uma série de transações comerciais para a Agropecuária. Às vezes meu pai viajava com o patrão para gerenciar uma venda de gado ou a vacinação anual, para uma fazenda em Goiás ou para outra em Mato Grosso e eu ficava sozinho, tomando conta do escritório. Com aquela idade eu não tomava conta nem de mim mesmo, mas era bom fingir ser importante. Para saber o que deveria fazer durante o período em que estavam fora, precisava falar com meu pai todos os dias, pelo rádio amador.

O rádio amador era uma brincadeira à parte, um enigma para o menino de doze ou treze anos. As duas fazendas se comunicavam com Ituiutaba por meio daquele aparato eletrônico, sempre às sete da madrugada. Em Mato Grosso, quem pilotava bem o aparelho era a mulher do caseiro, a Fátima, mais versada em novas e antigas tecnologias. Recapitulando: eu, na pequena cidade mineira, sonolento, desanimado, me posicionava em frente à caixinha de ruídos, esperando alguma onda que me trouxesse notícias de outros estados.

Conhecia ambas as fazendas e gostava daquele cheiro de capim orvalhado mesclado à bosta de ruminantes. Adorava também um córrego que beirava a sede, onde eu fisgava lambaris, enquanto sonhava com peixes maiores. Se permitissem, eu podia passar a vida ali, só pescando, só atocaiando piaus, eu e minha varinha de bambu, curtindo nossa insignificância. Eita, vida boa. Ser nada, ser confundido com um tufo de capim ou com uma varejeira sobrevoando o pasto era a melhor coisa do mundo. Ficava esquecido, eu e minha lata de minhocas no barranco de um riacho.

Até que me chegava o rumor trocista, condescendente do pecuarista, em Goiás. Eu, naquela época em que a voz me embaraçava, em que a voz, do nada, desafinava em um agudo estridente, para depois recuperar seu porte de masculinidade, em que a voz não se decidia, entre fina e grossa, me deixando a preferir o silêncio. Só que o silêncio não depende somente de nós, mas também do mundo, que nos atormenta e nos cobra sempre uma palavra.

O velho perguntava se havia alguém em Ituiutaba ou em Barra do Garça. Meu coração golpeava desesperado o tórax. Eu tinha medo, tinha medo de tudo, e olhava para o chão, buscando uma força que me livrasse daquilo. Respondi o patrão: “Ituiutaba ouvindo, câmbio”. Vocês têm ideia do que é aquele negócio, não? É um som lá no fundo tentando vencer a barreira de chiados, de forma que só se compreende a essência das frases, o genérico, do que depreendo que o Sr. Bete tenha entendido somente o “câmbio” da minha frase. Daí que pouco depois me veio, nítida (a vergonha é sempre assim, clara), a resposta: “Alô, Fátima, é você? Como estão as coisas aí no Mato Grosso? Chuva? Câmbio”. Se eu levasse adiante o engano, teria de ouvir gozações a semana inteira e um tímido não suporta tanto bullying. Então desliguei o equipamento, saquei uma revista Visão das gavetas da escrivaninha e comecei a ler, enquanto pensava numa boa desculpa para não ter ligado o rádio aquele dia.

Comentários

Muito bom, Whisner! Do título à última frase.
Zoraya disse…
Ahhh, estou adorando essas recordaçoes! Demais da conta, sô! Beijos
whisner disse…
Obrigado Eduardo e Zoraia! Vou continuar com as lembranças, uai... rsrsrsrs

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